17/12/2012

UM ROSTO PRO TEU




Em que espelho ficou perdida a minha face?
                                            Cecília Meireles
 
 
No rosto da minha mãe, colada imagem.
Aos pedaços - no meu pai, irmãos, amados.
Ficou no rio da infância crivado de punhais vivos
Foi-se com lied de Schubert findando na vitrola.
Ficou num quadro do Fuji, no Japão.
Perdeu-se a minha face  no poema.
Ou afogou-se no rosto outro, narcisado no leito.
Nós hiatos, nós buracos do ser, no clamor do nada.
Foi Deus, além-matéria-tempo-nome.
A minha face se fundiu no esquecimento.
Lavrado pelas coisas, meu rosto se alterou:
transformou-se, amador, na coisa amada.
Foi Proteu,Narciso,filho, água,areia,saudade,verbo.
 
Em que sombra se  exilará a minha face?
Em que pedra se partirá o meu espelho?
Em que coisa restarão as nossas faces?
 
Com William Blake eu diria dessa metamorfose
desses pedaços de Deus: He whose face
gives no light, shall never become a star.
 
Vicente Cechelero
In A Língua das  Sombras
tela  de  Adriana Guidi

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