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17/06/2012

ESTAÇÕES



Não sou o outono
Não tenho folhas caindo e quero avisar que não me filtro na luz
Que precede o inverno.

Quero avisar que não me sucedo
Não morro nem renasço
E não me recrio do húmus e do tempo
cíclico.

Apenas me indago
e me embriago
numa atmosfera de sons e desejos
e as experiências que me negaram
rejeito-as como as folhas de outono que não tenho
e não posso fertilizar.

Estou do outro lado
Dos fenômenos metereológicos
E dos ciclos vegetais da vida
E me enfado na composição de termos
Que reciclam a simbologia de minha memória
E os terríveis segredos de minhas palavras
Usadas e pensadas.

Não sou o outono
Não fui outras coisas
E me perco em memórias 
E confusos acontecimentos sem registro.

Sou uma estação
Em que me sinto apenas
um itinerário de coisas e pessoas
A maior parte indiferente.

Como as folhas que murcham
Morrem, caem e fertilizam,
necessito que me deem um sistema
para não ser visto
não ser palpável
e onde eu não perceba o outono
que precederá minha morte.

Álvaro Pacheco
In A Balada e Outros Poemas
tela Leonid Afremov 

18/12/2011

O SEGREDO


Uma coisa simples, dar
eis o segredo
da multiplicação.

Eis o segredo
e o mistério
da multiplicação.

Dar
o amor e o êxtase
dar
o riso e a lágrima
dar
tudo que permanece
tudo que se esvai
e que seja bom.

E em troca
dar
mais uma vez:
eis o segredo
e o mistério
da multiplicação.

Rio,Janeiro de 1970

Álvaro Pacheco
In A Força Humana
foto por Rivertay

ASPIRAÇÃO


ah, se pudéssemos ao menos
conservar um pássaro entre as mãos
guardar essa pedra colorida
e amar irreflexivamente

ah, se pudéssemos ao menos
conservar o sorriso molhado de chuva
esses passos marcados na tarde marinha
o vestido branco deslizando na tarde
e as doces palavras...

ah, se pudéssemos conservar esse pássaro molhado
e extrair da lágrima a lágrima
identificá-la assim na matriz do sorriso
a pérola humana, reação à morte,
a essência pura (mais pura que a morte)
de todo o sentimento,ah, quem sabe
talvez assim fosse possível não morrer.

Rio, julho de 1969.

Álvaro Pacheco
foto por Rivertay

31/07/2011

O INÚTIL CELEIRO



Não adianta o poder
sem o poder do sangue
para explodir o cérebro
e disparar o coração.

É estéril o grão
Que se multiplica no celeiro:
O que vale é o campo
E a sua gravidez.

Não se pode ser herdeiro
Da própria herança - e da vida
Se o que se carrega é a morte.

Deito-me à espera do vento
que metraga alguma coisa fértil
mas sinto que é tarde - tornei-me
um estrangeiro da seiva
e me perdi do suicídio e da loucura:
meu sangue corre certo
na pressão normal
e meu risco de morrer de amor
se fasta velozmente
em linhas paralelas.

Resta-me todo o tempo
para acumular os grãos
que vão se apodrecer
inutilmente no celeiro.

Álvaro Pacheco
In A Balada & Outros Poemas
Artists / Hassam / September Clouds

30/07/2011

ALERTA


Cada minuto que passa
é uma esperança que morre.

Cada instante chorado
é um minuto perdido.

Cada soluço é um chamado
que antecipa a morte.

Cada esperança que passa
é um minuto que morre.
Cada minuto de choro
é um instante perdido.
Cada espaço vencido
é uma dor superada.

Álvaro Pacheco
In A Balada & Outros Poemas
tela Artists / Hassam / Flower Garden, Isles of Shoals

SONETO LÍRICO


Escuta, ó minha amada, o tempo nunca pára
e o sorriso mais puro definha e emurchece.
Quer seja alma generosa ou seja alma avara
quer seja anjo ou demônio, seja choro ou prece.

quer seja dia escuro, seja a noite mais clara
quer seja o ódio que mata ou amor que enlouquece
o destino cruel para tudo preparar
o seu sopro fatal que aniquila e emudece.

Escuta, pois,ó amada, meu apelo enorme
acorda em tua alma teu desejo que dorme
e dissolve em meus braços teus sonhos fatais.

Vivamos com avidez o minuto que passa
amemo-nos por hoje, que é tudo fumaça
e nós dois amanhã não existiremos mais!

Álvaro Pacheco
In A Balada & Outros Poemas Artists
tela / Hassam / July Night

POEMA


O vento frio e a noite
são pálpebras mortas em mim.
São olhos que não se abrem
palavras que não têm fim.

A noite e o vento frio
são como pedras de gelo
caindo dentro da alma
ou dentro do coração.

Álvaro Pacheco
In A Balada & Outros Poemas
Artists / Hassam / Rainy Late Afternoon, Union Square

PRECEITO


Poeta, nunca deixes crescer em ti o silêncio ou a morte
nem a tua alma, nem os homens te pedem silêncio
nem o silêncio de gestos
nem o silêncio de gritos.
teu destino é maior.

Mergulha em teu ser e busca lá no fundo
e dá aos que esperam seja lá o que for.

Dá-lhes mesmo um peixe vermelho ou uma borboleta azul.

Álvaro Pacheco
In A Balada & outros poemas
tela  Arthur Hughes
The Annunciation

27/07/2011

LÍRICA

                                               

Deixai-os repousar como crianças
esses sonhos e pequenas aflições
que compõem o andar cotidiano.

Deixai-os respirar o seu tormento
de amores impossíveis e desejos
banais banais mas impossíveis.
Deixai-os esquecer por que sofremos
e procuremos dormir o sosso sangue
da viagem e destinos percorridos.

Álvaro Pacheco
In A Balada & Outros Poemas
foto Kim Anderson

CADA UM EM SEU MAR


Cada um se desmembra em seu mar
e veleja para longe.Cada um ama
seu momento de ternura - e  concebe
(faz) doçura e solidão.

Cada um leva seu recado
em si. Cada um se perde
em seu mar.Cada um é
de nascença (sem jeito) só.

Cada um morre em seu mar
deslumbra e vagalumbra, voga
em si.Cada um veleja
em sua carne - e colhe a flor 
de pátina (nuvem) sideral.
Cada um sofre - e é seu mar
azulcomposto imensos sais 
e clarabóia.

Cada um colhe (em seu mar)
embarcações  - e segue
sua rota, seu ritmo, seu rincão.

Cada um se despedaça em seu mar
e morre naufragado.Cada um
se perde em um só mar
múltiplo de si (na) solidão.

Álvaro Pacheco
In A Balada & Outros Poemas 
foto por seevee1969

26/07/2011

TESSITURA



Tecem-se fios e resultam sonhos
em branco e preto no sofá da sala
claros-escuros de intenções
do inconsciente - ressurge o espasmo
em labirinto: tua morte antiga
vai renascer: eis outra cor, eis outras formas
teu novo mundo.

Tecem-se sonhos e resultam fios
do dia-a-dia e outros compostos
sem plenitude. No fim das lágrimas
o carcinoma do teu desejo
sem solução: o ofício é a luz
e não o escuro do teu sofá
sem cor nenhuma - renunciarás
à tua visão e tua pele
renascerá.

Álvaro Pacheco
In A Balada & Outros Poemas
foto por bamboosage

20/03/2010


1872 by Dante Gabriel Rossetti

POEMA DE AMOR

que minha passagem pela tua vida
não seja leve
ou indelével.

é preciso que seja funda
e as marcas
como cicatrizes de guerra.

que não seja um amor de circunstância
ou apenas lembranças agradáveis
de alguns momentos de pureza.

quero te dar um destino irrecuperável:
não a embriaguez momentânea
mas o vício permanente.

que sejas, depois de mim, outra mulher
um ser marcado
e massacrado
por um amor contínuo
e que seja em ti bênção e uma angústia.

tentacular,
serei não apenas o dia de sol
mas também as noites de inverno
e as luzes sufocantes de verão.

passarei e talvez me esqueças
mas te deixarei pesadelos e alucinações
e, passada a noite, uma aurora de plenitude.

lembrarás as palavras de ternura
mas também os estertores e as asperezas
e esta minha dureza semilíquida
de cactos e flor mineral.

e te farei ter saudade e angústia de tudo
que eu disse e não disse,
que fiz e não tive coragem de fazer.

serás reconhecida como um mapa
de uma terra distante
que apenas um explorador de fato
circunscreveu e disse
os acidentes e os sonhos líquidos.

e sobretudo te sentirás incorporada
a um mistério que não saberás explicar,
um desejo brutal e a ternura estelar
compostos na cosmogonia
de ser o que pensavas e o que temias
dentro da absurda realidade
de amar e ser amada
sem qualquer razão e sem qualquer sentido
que não sejam estes
da permanência na imortalidade.

Álvaro Pacheco
In A Balada & Outros Poemas

15/03/2010


An Autumn Afternoon by Robert Herdman

OBSTINAÇÃO

Vou em silêncio
plantando minhas sementes
nas pedras rubras da estrada
nos ventos ocres do outono
nos olhos céu da manhã.

Sei que alguém me ouvirá

Álvaro Pacheco
In Balada & Outros Poemas

by natureluv

PRECEITO

Poeta, nunca deixes crescer em ti o silêncio ou a morte
nem tua alma, nem os homens te pedem silêncio
nem silêncio de gestos
nem silêncio de gritos,
teu destino é maior.

Mergulha em teu ser e busca lá no fundo
e dá aos que esperam seja lá o que for.

Dá-lhes mesmo um peixe vermelho ou uma borboleta azul.

Álvaro Pacheco
In A Balada & Outros Poemas

07/03/2010


Foto de mamanian no Flickr

ORÁCULO

Sou aquele
que sonha teus sonhos
e tem teus desejos, sou
o anjo vicário
de tua dúvida
em minhas asas
se perde o infinito.

Sou tua canção barroca
e teu lamento árabe
mas também te digo a alegria
em teu coração quando
me acontece amar.

Em minha carne
eu sofro tua carne,
me ergo em teus escombros
e te adivinho a dúvida
mas não tenho alento
pra te dizer meu sonho.

Álvaro Pacheco
In A Balada & Outros Poemas