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18/09/2014

O PODER DA ORAÇÃO


Em certas manhãs desrezo:
a vida humana é muito miserável.
Um pequeno desencaixe nos ossinhos
faz minha espinha doer.
Sinto necessidade de bradar a Deus.
Ele está escondido, mas responde curto:
'brim coringa não escolhe'.
E eu entendo comprido
e comovente esforço da humanidade
que faz roupa nova para ir na festa,
o prato esmaltado onde ela ama comer,
um prato fundo verde imenso mar cheio de estórias.
A vida humana é muito miserável.
'Brim coringa não escolhe?'
Meu coração também não.
Quando em certas manhãs desrezo
é por esquecimento,
só por desatenção.

Adélia Prado
In Poesia Reunida 
arte Ira Isantekidou

07/09/2014

BRANCA DE NEVE


Caibo melhor no mundo
se me dou conta do que julgava impossível:
'Nem todo alemão conhece Mozart.'
Um óbvio, pois nem é preciso,
cada país tem seu universal
e basta um para nos entendermos.
Com os russos me sinto em casa,
não podem ver  uma névoa,
uma aguinha, uma flor no capim
e param eternos minutos fazendo diminutivos.
Como o jagunço Riobaldo que sabe do mundo todo
e tem Minas Gerais na palma de sua mão.
Fico hiperbólica para chegar mais perto.
"Geração perversa, raça de víboras"
não é também um exagero do Cristo
para vazar sua raiva?
Escribas e fariseus o tiravam do sério.
Mas todos eles? Todos?
Cheiramos mal, a maioria,
e sofremos de medo, todos. O corpo quer existir,
dá alarmes constrangedores.
Me inclino aos apócrifos como quem cava tesouros.
É evangélico que trabalhem cantando
os anõezinhos  da história.
No fundo todos queremos
conhecer biblicamente,
apesar de que os pés de página,
por mania de limpeza,
não é sempre que ajudam.
O verdadeiro é sujo,
destinadamente sujo.
 Não são gentilezas as doçuras de Deus.
Se  tivesse coragem, diria
o que em mim mesma produziria vergonha,
vários me odiariam,
feridos de constrangimento.
Graças a Deus sou medrosa,
o instinto de sobrevivência 
me torna a língua gentil.
Aceito o elogio
de que demonstro 'tino escolhitivo'.
Pra  quem me pede dou listas de filme bom.
Demoro a aprender
que a linha reta é puro desconforto.
Sou curva, mista e quebrada,
sou humana. Como o doido,
bato a cabeça só pra gozar a  delícia
de ver a dor sumir quando sossego.

Adélia Prado
In Miserere 
arte Tom Dubois

HUMANO



A alma se desespera,
mas o corpo é humilde;
ainda que demore,
mesmo que não coma,
dorme.

Adélia Prado
In Miserere 
arte Kinuko Craft

A SEMPRE-VIVA



Gostava de cantar A flor mimosa:
"Nas pétulas de ouro
que esta  flor ostenta..." 
Pétula, a palavra errada,
agulha no coração,
uma certa vergonha,
culpa por lhe ter dito:
é pétala, pai, é pétala.
Ah! Pois venho cantando errado a vida inteira.
Que vale essa lembrança?
Cinquenta anos já e a agulha tornada faca,
sua lâmina ainda vibra.
É excruciante o amor,
mas por nada no mundo trocarei sua pena.

Adélia Prado
In Miserere

28/03/2013

O RETRATO


 
Eu quero a fotografia,
os olhos cheios d'água sob as lentes,
caminhando de terno e gravata,
o braço dado com a filha.
Eu quero a cada vez olhar e dizer:
estava chorando. E chorar.
Eu quero a dor do homem na festa de casamento,
seu passo guardado, quando pensou:
a vida é amarga e doce?
Eu quero o que ele viu e aceitou corajoso,
os olhos cheios d'água sob as lentes.
 
Adélia Prado
In Bagagem
tela León Bazille Perrault

18/01/2012

A RUA DA VIDA FELIZ




Ao sol do meio-dia
ela fica suspensa,
a fala de minha mãe
sossega as borboletas.
'flor bonita é no pé.'
Vi o quintal  vibrando,
reagi brutamente
porque era inarticulável.
Quiseram me bater
por causa da minha cara
de quem tinha brincado com menino.
Só achei pra dizer:
Deus mora, mãe,
nunca morreu ninguém.

Adélia Prado
In Oráculos de maio
foto por  C Simmons

16/07/2011

O PODER DA ORAÇÃO


Em certas manhãs desrezo:
a vida humana é muito miserável.
Um pequeno desencaixe nos ossinhos
faz minha espinha doer.
Sinto necessidade de bradar a Deus.
Ele está escondido,mas responde curto:
'brim coringa não escolhe'.
E eu entendo comprido
e comovente esforço da humanidade
que faz roupa nova para ir na festa,
o prato esmaltado onde ela ama comer,
um prato fundo verde imenso mar cheio de estórias.
A vida humana é muito miserável.
'Brim coringa não escolhe?'
Meu coração também não.
Quando em certas manhãs desrezo
é por esquecimento,
só por desatenção.

Adélia Prado
In Poesia Reunida


24/04/2011

MEMÓRIA AMOROSA

















Quando ele aparece
bonito e mudo se posta
entre moitas de murici.
Faz alto-verão no corpo,
no tempo dilatado de resinas.
Como quem treina para ver a Deus,
olho a curva do lábio, a testa,
o nariz afrontoso.
Não se despede nunca.
Quando sai não vejo,
extenuada por tamanha abundância:
seus dedos com unhas, inacreditáveis!

Adélia Prado
In O Pelicano
tela de Lawrence Alma-Tadema

05/04/2011

GENESÍACO

















Um homem na campina olhava o céu. As estrelas
pareciam aumentadas, de tamanho brilho.
Estrela, ó estrela, estrelas,
ele suplicou como se injuriasse.
Os que alimentavam o fogo
aproximaram-se admirados:
nós também queremos, repeti para nós.
Ó noite de mil olhos, reluzente.
Os vocativos
são o princípio de toda poesia.
Ó homem, ó filho meu,
covoca-me a voz do amor,
até que eu responda
ó Deus, ó Pai.

Adélia Prado
In O Pelicano
foto por anna.young96 

13/12/2010

ENTREVISTA




















Um homem do mundo me perguntou:
o que você pensa de sexo?
Uma das maravilhas da criação, eu respondi.
Ele ficou atrapalhado, porque confunde as coisas
e esperava que eu dissesse maldição,
só porque antes lhe confiara: o destino do homem é a santidade.
A mulher que me perguntou cheia de ódio:
você raspa lá? perguntou sorrindo,
achando que assim melhor me assassinava .
Magníficos são o cálice e a vara que ele contém,
peludo ou não.
Santo,santo,santo é o amor, porque vem de Deus,
não porque uso luva ou navalha.
Que pode contra ele o excremento?
Mesmo a rosa, que pode a seu favor?
Se "cobre a multidão dos pecados e é benigno,
como a morte duro, como o inferno tenaz",
descansa em teu amor, que bem estás.

Adélia Prado
In Tudo que eu Sinto Esbarra em Deus
tela de Vladimir Tretchikoff

01/11/2010

ROXO



















Roxo aperta.
Roxo é travoso e estreito.
Roxo é a cordis, vexatório,
uma doidura pra amanhecer.
A paixão de Jesus é roxa e branca,
pertinho da alegria.
Roxo é travoso, vai amadurecer.
Roxo é bonito e eu gosto.
Gosta dele o amarelo.
O céu roxeia de manhã e de tarde,
uma rosa vermelha envelhecendo.
Cavalgo caçando o roxo,
lembrança triste, bonina.
Campeio amor pra roxeamar paixonada, o
roxo por gosto e sina.

Adélia Prado
tela de Assaf Frank

28/10/2010

NA TERRA COMO NO CÉU
























Nesta hora da tarde
quando a casa repousa
a obra de minhas mãos
e esta cozinha limpa.
Tão fácil
um dia depois do outro
e logo estaremos juntos
nas "colinas eternas".
Recupero meu corpo
um modo de bondade,
a que me torna capaz
de produzir  um verso.
Compreendes-me Altíssimo?
Ele não responde,
dorme também a sesta.

Adélia Prado
In Oráculo de Maio
tela de Henri Matisse

27/10/2010

OFICINA



















Podem gritar
as cigarras
e as serras dos carpinteiros.
Nunca serão funestas,
fatiam a tarde
que continua inconsútil.
O mundo é ininteligível,
mas é bom.

Adélia Prado
In Oráculo de Maio
Foto de fardels2009 no Flickr

TEOLOGAL



















Agora é definitivo:
uma rosa é mais que uma rosa.
Não há como deserdá-la
de seu destino arquetípico.
Poetas que vão nascer
passarão à forma prima:
a rosa é mística.

Adélia Prado
In Oráculo de Maio
Foto de  tinotv no Flickr

SINAL NO CÉU


















É um tom de laranja
sobre os montes
um pensamento inarticulado
de que a Virgem
pôs o mundo no colo
e passeia com ele nos rosais.

Adélia Prado
In Oráculo de Maio
foto de CGoulao  no Flickr

26/09/2010

VIÉS

















Ó lua, fragmento de terra na diáspora,
desejável deserto, lua seca.
Nunca me confessei às coisas,
tão melhor do que elas me julgavam.
Hoje, por preposto de Deus escolho-te,
clarão indireto, luz que não cintila.
Quero misericórdia e
por nenhum romantismo sou movida.

 Adélia Prado
foto de ours polaire valloire

03/04/2010


foto by Bahman Farzad

DO AMOR

Assim que se é posto à prova
na cinza do óbvio, quando
atrás de um caminhão vazando
o homem que pediu sua mão
informa:
"está transportando líquido"
Podes virar santa se, em silêncio,
pões de modo gentil a mão no joelho dele
ou rainha do inferno se invectivas:
claro, se está pingando,
querias que transportasse o quê?
Amar é sofrimento de decantação,
produz ouro em pepitas,
elixires de longa vida,
nasce de seu acre
a árvore da juventude perpétua.
É como cuidar de um jardim,
quase imortal deleitar-se
com o cheiro forte do esterco,
um cheiro ruim de bom,
como disse o menino
quanto a porquinhos no chiqueiro.
É mais que violento o amor.

Adélia Prado
In Oráculo de Maio

14/03/2010


1868 by Dante Gabriel Rossetti

SEDUÇÃO

A poesia me pega com a sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.

Adélia Prado
In Bagagem

Foto by natureluv

GUIA

A poesia me salvará.
Falo constrangida, porque só Jesus
Cristo é o Salvador, conforme escreveu
um homem - sem coação alguma -
atrás de um crucifixo que trouxe de lembrança
de Congonhas do Campo.
No entanto,a poesia me salvará.
Por ela entendo a paixão
que Ele teve por nós, morrendo na cruz.
Ele me salvará, porque o roxo
das flores debruçado na cerca
perdoa a moça do seu feio corpo.
Nela a Virgem Maria e os santos consentem
no meu caminho apócrifo de entender a palavra
pelo seu reverso, captar a mensagem
pelo arauto, conforme sejam suas mãos e olhos.
Ela me salvará.Não falo aos quatro ventos,
porque temo os doutores, a excomunhão
e o escândalo dos fracos. A Deus não temo.
Que outra coisa ela é senão Sua face atingida
da brutalidade das coisas?

Adélia Prado
In Bagagem

27/09/2009


Foto de Fernando Sta... no Flickr

A MENINA E A FRUTA

Um dia apanhando goiabas com a menina,
ela baixou o galho e disse pro ar
- inconsciente de que me ensinava -
"goiaba é uma fruta abençoada".
Seu movimento e rosto iluminados
agitaram no ar poeira e Espírito:
O Reino é dentro de nós,
Deus nos habita.
Não há como escapar à fome da alegria!

Adélia Prado
In Terra de Santa Cruz