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26/02/2012

O PAÍS DO POETA



A paisagem tem cores do avêsso
E as estrelas sobem pelas montanhas como veias
Aguando um seio de mulher.
As quatro línguas do vento
Conversam sobre o amor, o ódio, a vida e a morte.
Os arcanjos cruzam o firmamento de lado a lado,
Os pássaros soluçam como inconsoláveis viúvas.
Os peixes cantam como rouxinóis nas ramas floridas.
Um sirena lamenta-se no corte da noite
E o ruído de possantes motores trepidam o eixo universal
Como o nascimento de um vulcão.
As flores dos jardins cercados são orvalhadas como lágrimas inocentes

E da lua de São Jorge montado no seu cavalo branco
Para velar os mortos e os desesperados.
Um sentimento de pureza sobre o olhar dos arrependidos,
As mães alimentam seus filhos com flores,
Os amantes realizam a interpenetração das almas
E seus corações caem no chão como punhados de cinza.
A tragédia vive entre a boca dos velhos e o olhar do recém-nascido
E o choro do que um dia será assassino é ouvido ao ventre da noite.

O poeta escreve poemas no solo
E a terra grávida recompensa com flores, frutos e nascentes.
Na hora da penumbra abre-se uma grande boca no firmamento
Dizendo sobre o juízo final.
Sob a luz da lua o poeta colhe os lírios entreabertos
E sai guarnecendo sepulturas de noivas ignoradas.
Um resplandecente globo ocular
Desce sobre a paisagem
E procura encontra a Amada e a Morte.

Adalgisa Nery
In Mundos Oscilantes

A DESCONHECIDA



Assim deve ser a doce morte,
Assim eu a imagino.
Funda como um completo pensamento de perdão,
De caminhar tranquilo e leve, deixando pelos ares
O aroma de sândalo e de boca de recém- nascido.
Doce como a memória do primeiro gesto de amor,
Bela como a noite recamada de úmidas estrelas.
Assim eu a imagino.
Murmurante  e maviosa como a água cantando pelas pedras das fontes,
Sombria e repousante como a velha árvore da mata.
Deve ter a atração misteriosa das mágoas que se inscrevem
No pensamento dos condenados e dos mártires.
Seus passos devem ter o ruído de ruflar de asas de arcanjo
Descendo do infinito sobre os espíritos abandonados.
Assim eu a imagino.
Funda e inextinguivel como um beijo de ternura amiga,
Deliciosa como o olhar da eternidade,
Mansa como o sono da amada.
Assim deve ser a que eu amo,
Assim deve ser a que espero.

Adalgisa Nery
In Mundos Oscilantes
tela  Duy huyhn

15/02/2012

POEMA SIMPLES



Deixa-me recolher as rosas que estão morrendo nos jardins da noite,
Deixa-me recolher o fruto antes que este volva as raízes da terra,
Deixa-me recolher a estrela úmida
Antes que sua luz desapareça na madrugada,
Deixa-me recolher a tristeza da alma
Antes que a lágrima banhe a pálpebra
Do orfão abandonado e faminto,
Deixa-me recolher a ternura parada
No coração da mulher que desejou ser mãe.
Deixa-me recolher a esperança dos que acreditam,
Recolher o que ainda não passou
E mais do que tudo dá-me a recolher
A palavra de amor e de doçura para que reparta
Com os ouvidos que esperam como uma gota de mel
Caindo na alma e no coração,
Como a única luz dentro de tanta escuridão.

Adalgisa Nery
In Mundos Oscilantes
tela Arunas Rutkus - 1961

05/09/2010

A RAZÃO DE EU ME GOSTAR



Eu gosto da minha forma no mundo
Porque representa uma fagulha,
Porque mostra um instante doce e perverso
Da ideia, do gesto e da realização
De Deus no Universo.
Eu gosto dos erros que pratico
Porque vejo a pureza colocada na minha essência
Desde o Início
Lutar contra todo o mal que em mim existe
E ser tão maior, que sobre a minha miséria
Ela ainda persiste
Eu gosto de espiar
O meu olho direito
Ver o esquerdo chorar,
De sentir a minha garganta se enrolar de dor
Porque em troca de tanta cousa dolorosa
Ele construiu em mim uma cousa gloriosa,
Que é o amor.

Adalgisa Nery
In A Mulher Ausente
tela by Constantin Makowsky

16/05/2009


por Carlos.Carreter

TERNURA

Antes que eu me transforme em água
E corra com os rios
Cantando para as florestas escuras
A canção sublime
Deixa-me contemplar tua face amada
Para que a canção se eternize.
Antes que os meus olhos se transformem
nos minúsculos vermes
Que movimentam o solo
Deixa-me receber a luz de tua boca
Para que eu me ilumine como as estrelas
No infinito da noite.
Antes que minhas mãos se mudem nas pedras das montanhas
Por onde caminharão os jovens pastores
Deixa-me afagar teus cabelos
Para que meu carinho se transforme na brisa
Que beija os grandes trigais.
Antes que minha forma sirva junto às raízes
Para amadurecer os frutos
Guarda-me na música de teu corpo
Para que o mistério do amor
Baixe sobre o universo
E banhe os espíritos perturbados.

Adalgisa Nery
In Mundos Oscilantes

Foto de Marcos Fontes

A POESIA SE ESFREGA NOS SERES E NAS COUSAS

Nunca sentiste uma força melodiosa
Cercando tudo o que teus olhos vêem,
um misto de tristeza numa paisagem grandiosa
Ou um grito de alegria na morte de um ser que queres bem?
Nunca sentiste nostalgia na essência das cousas perdidas
Deparando com um campo devoluto
Semelhante a uma viagem esquecida?
Num circo,nunca se apoderou de ti um amargor sutil
Vendo animais amestrados
E logo depois te mostrarem
Seres humanos imitando um réptil?
Nunca reparaste na beleza de uma estrada
Cortando as carnes do solo
Para unir carinhosamente
Todos os homens, de um a outro pólo?
Nunca te empolgaste diante de um avião,
Olhando uma locomotiva, a quilha de um navio,
Ou de qualquer outra invenção?
Nunca sentiste esta força que te envolve desde o brilho do dia
Ao mistério da noite,
Na extensão da tua dor
E na delícia da tua alegria?
Pois então, faz de teus olhos o cume da mais alta montanha
Para que vejas com toda a amplitude
A grandeza infindável da poesia que não percebes
E que é tamanha!

Adalgisa Nery
In Mundos Oscilantes

14/05/2009


Foto de chateauglenunga

POEMA DE AMOR

Ouve-me com teus olhos
Porque minha queixa é muda.
Acaricia-me com teu pensamento
Porque meu corpo está imóvel.
Beija-me com tuas mãos
Porque minha boca te espera.
Fala-me com o silêncio dos momentos de amor
Porque os ouvidos da minha vida
Se abrirão como as flores
Na úmida e infinita madrugada.

Adalgisa Nery
In Mundos Oscilantes

Foto de boharib

PRECE FRANCISCANA

Sol irmão, tu que tens a luz e a harmonia,
Que com tua força gretas as estradas e rebentas a profundidade,
Descascas as árvores, atravessas as massas d'água , que secas
[as fontes
Que deslocas as raízes,
Que tem peneiras entre a neblina e o orvalho.
Sol amigo, tu que dás a suave e tímida alegria ao convalescente
E nasces para a esperança boa de outro dia,
Ouve meu inextinguível canto.
Sol irmão, tu que tens a luz e a harmonia,
Derrama um pouco de tua claridade e teu calor
Sobre a umidade de minha escuridão,
Esquenta as minhas noites sem fulgores, sem beleza,
Vividas com espetros de ausências dos que me geraram
E com as dores que se exalam dos que me continuaram.
Vem,sol irmão, habita o meu oceano
E traz ao meu cérebro parado e triste
A sabedoria dos continentes.
Seca todas as minhas renúncias e inúteis esforços
Para que jamais impeçam a penetração de tua luz em minha
[sombra.

Afugenta com tua grandeza ímpar
Os ódios dos ciclones que me esperam nos descampados
E arreda do meu cansaço a hostilidade dos penhascos.
Tira dos meus olhos as velas tristes que cortam mares distantes
E deixa que eu olhe por instantes as dianas marinhas.

Clareia meus ouvidos com hinos de batalhas ganhas
Cantados por vozes brancas, saídas de vagas mansas.
Sol irmão,tu que tens a luz e a harmonia,
Faze com que eu não ouça somente das águas o tropel
Dos bojos apinhados dos roteiros legendários e das almas em
[exílio.

Cristaliza minha matéria e esfrega-me na poeira de teus braços,
Transforma-me num pouco de ti,
Num pouco de luz e de harmonia
E assim eu corra, sol irmão,
Sobre os céus como sinal do infinito
Aquecendo a humanidade de grandeza e poesia.

Adalgisa Nery
In Mundos Oscilantes

02/10/2008

NATURAL



Abro os olhos, não vi nada
Fecho os olhos, já vi tudo.
O meu mundo é muito grande
E tudo que penso acontece.
Aquela nuvem lá em cima?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Ontem com aquele calor
Eu subi, me condensei
E, se o calor aumentar, choverá e cairei.
Abro os olhos, vejo um mar,
Fecho os olhos e já sei.
Aquela alga boiando, à procura de uma pedra?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Cansei do fundo do mar, subi, me desamparei.
Quando a maré baixar, na areia secarei,
Mais tarde em pó tomarei.
Abro os olhos novamente
E vejo a grande montanha,
Fecho os olhos e comento:
Aquela pedra dormindo, parada dentro do tempo,
Recebendo sol e chuva, desmanchando-se ao vento?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Adalgisa Nery
Foto de sary1