Mostrando postagens com marcador Affonso R. de Sant'Anna. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Affonso R. de Sant'Anna. Mostrar todas as postagens

01/04/2014

LOUVOR DO CORPO



Há-os mais destros, eu sei.
Mas com este
corto ao tempo exato o gesto escuso,
assalto a noite, cruzo as horas
e me fujo galopando em potros verdes.
 
Há-os mais forte, eu sinto.
Mas com este
ataco, esquivo-me e agrido
como posso.
Com este parto para o embate
e com ele é que eu retorno
                            - se vencido.
 
Há-os mais amados, me dizem.
Mas este sabe aonde, e sabe como, e sabe quando
e nunca contaria
o que ouve e sente,
quando em seus leitos se entreabrem outros corpos
com segredo repetimos,
florações de ataque e paz.
 
Há-os mais belos, os vejo,
nos coloridos do bronze
e no esplendor de mil calçadas.
Mas este me vai como a luva,
e enfio inteiro nos abraços
e o retiro intato do espelho.
 
Há-os mais em tudo, e eu sei.
Mas deste é que eu me sirvo,
este é o que me deram,
este é o que alimento,
com este como, beijo e frutifico
 
e é com este que eu fecundo a própria morte.
 
Affonso Romano Sant'Anna
In Intervalo Amoroso
arte Federico Pillan
       

27/05/2013

NO LABIRINTO



As perguntas que, criança,
eu me fazia
                     continuam
                     na idade adulta
a prosperar.

O labirinto agora me é mais familiar
tenho conversado com o Minotauro
e Ariadne 
                  tem infindáveis novelos 
para me emprestar .
Sou capaz de guiar um cego
por algumas quadras
e alguns sinais abstratos
chego a decifrar.

Habito o mistério que me habita
e isto 
                          -é caminhar.

Affonso Romano  de Sant'Anna
In Sísifo desce a montanha
tela Dima Dimitriev

16/05/2013

TEXTO FUTURO



O que vão descobrir em nossos textos,
não sabemos.
Temos intenções, pretensões inúmeras.
mas o que vão descobrir em nossos textos,
não sabemos.

Desamparado o texto,
desamparado o autor,
se entreolham, em vão.

Órfão,
o texto aguarda alheia paternidade.
Órfão,
o autor considera
entre o texto e o leitor
- a desletrada solidão.

Affonso Romano de Sant'Anna  
In Intervalo Amoroso
tela Oliver Ray 

13/04/2013

RUGAS



Estou amando tuas rugas, mulher.
Algumas vi surgir, outras aprofundei.

Olho tuas rugas.
Compartilho-as, narciso exposto
no teu rosto.

Ponho os óculos
para melhor ver tua pele
as minhas/ tuas marcas.

Sei que também me lês
quando nas manhãs percebes
em minha face o estranho texto
que restou do sonho.

O que gastou, somou.
Essas rugas são sulcos
onde aramos a messe do possível amor.

Affonso Romano de Sant'Anna
In Intervalo Amoroso  & Outros Poemas Escolhidos
tela Rembrandt

25/01/2013

MITOS E RITOS




Minha mulher
tem outra mulher com várias mulheres sob a pele.
Tecelãs,pastoras,princesas
afloram de seus lábios e cabelos.
Dispo-a com amor, ela suspira.
E é aí que fadas e dragões se batem
e em nossos corpos
a fantasia da carne
                              - delira.
 
Affonso Romano Santana
In Intervalo Amoroso
Escultura Jean Pierre Augier

ESTELA AMOROSA




Posso fingir que nada aconteceu
após esse telefonema?
 
Olho pela janela, a montanha, os prédios.
Posso sair,comprar roupa nova,
ir ao cinema,ao bar, concerto,
respirar fundo,dizer,tinha que acontecer,
dizer, amei-a muito, pensar
que o passado já começou.
 
O telefonema em mim ressoa.
Sobre um sentimento assim não se põe uma pedra
e  se segue em frente.
Mesmo que eu siga, sem olhar para trás
a pedra 
                  florescerá
                                   secretamente. 
 
Affonso Romano de Sant'Anna
In Intervalo Amoroso
tela Jack Vettriano

05/01/2013

MEDIDAS



Em alguns países a importância do morto
é medida
pela quantidade de carros no cortejo
ou missas em intenção.


Naquela mansão colonial
a importância da visita
era medida
pela quantidade de velas acesas
no salão.


Na vida artística e social
a importância do evento é medida
pela quantidade de gente
na recepção.
e centímetros/ tempo de notícia
no jornal, televisão.


Em algumas seitas
a importância do santo é medida
por milagres e preces
pelos trapos e vasilhas vazias
ao redor de sua esquálida figura
ao rés do chão.


Não é sempre
mas há casos, em que o poema
é medido
pela quantidade de rascunhos
rasgados e pelo que sobra
na mão.


Affonso Romano de Sant'Anna
In Sísifo desce a Montanha
desconheço pintor da obra de arte

A COMENSAL




Como o fio d'água
que a natureza dessora
e em correnteza
se transforma
 
como a ostra
no grão de areia
sangrando (oculta)
lanhando o corpo
a pérola elabora
 
como o vulcão
que há milênios
surdamente
se prepara
e o magma fervente
de repente
explode
e apavora
 
assim o poema
          o amor
          o ódio
          o vírus
                     enfim
a morte
                            se hospeda
solerte
 
           e cresce
           e come
onde comemos
 
- íntima comensal -
que nos devora.
 
Affonso Romano de Sant'Anna
In Sísifo desce a montanha
tela  Amanda Cass   

01/01/2013

ESTÁ SE CUMPRINDO O RITUAL



Está se cumprindo o ritual.

Depois dos avós
foram-se com os pais
os tios, alguns primos.

Os amigos, uns distantes
outros próximos
apagam-se no horizonte.

É lento (e progressivo) o ritual.

Que os filhos não partam antes.
Deve haver uma certa ordem nessas coisas.

Consentimos.
Mas nem por isso
deixamos de estremecer
antes do instante final.

Affonso Romano de Sant'Anna
In Sísifo desce a montanha
tela Gregory Frank Harris

GÊNESIS INVERTIDO



No sétimo dia

                    (antes do fim)
as geleiras fendidas
                       desabarão
focas, pinguins e ursos 
deixarão suas ossadas
no deserto em formação
ilhas imprevistas emergirão
e o que agora é continente
será um conteúdo
na escuridão.

No sexto dia

                  (antes do fim)
desnorteados pássaros 
não saberão
de onde vieram e para onde vão
subvertida a ordem dos mares e florestas
seres atônitos  seguirão o rumo
do vento e da aflição.

No quinto dia

                  (antes do fim)
choverá fogo no inverno
enlouquecidas as estações
as colheitas se perderão
devoradas por bactérias 
germinadas  

                         -do próprio grão.

No quarto dia

                   (antes do fim)
peixes envenenados boiarão
entre sargaços e destroços
e os corais também mortos 
não chorarão.

No terceiro dia

                     (antes do fim)
no esqueleto das cidades
máquinas desoladas 
bactérias desesperadas
do próprio nada comerão.

No segundo dia

                     (antes do fim)
o homem e a mulher
cobertos de chaga e solidão
se deitarão no barro
e desaparecerão.

No primeiro ou último dia
(antes do fim)
                      Deus
desolado
              se retirará
para outra galáxia
e contemplando as trevas
dissipando a criação
sentirá
um pesado vazio em suas mãos.


Affonso Romano de Sant' Anna 
In Sísifo desce  a montanha
tela Raphaël 

17/07/2012

SE É PAIXÃO, ME NEGO



Se é paixão, me nego.
já resvalei, a alma em pelo
nesse áspero despenhadeiro.
Se é paixão, não quero.
Conheço seus espinhos  de mel,
sei aonde conduz
embora prometa os céus.

Se é paixão, desculpe-me,  não posso
conheço suas insônias
e a obsessão.

Se é paixão me vou, não devo,
não adiantam teus apelos.
Resistirei, porque aí
morri mil vezes.
Paixão é arma de três gumes,
ao seu corte estou imune.

Se é paixão me nego 
e não receio que me acuses
de medo. Do desvario
conheço todos os segredos.

Se é paixão recuso-me
e sinto muito,
pois foi há custo
que saí do labirinto.

Affonso Romano de Sant'Anna
tela Olga Gouskova
    

APRENDIZADOS




 Uns aprendem a nadar
outros a dançar, tocar piano,
fazer tricô e a esperar.

... Na infância cai-se
para se aprender a andar,
cai-se do cavalo e do emprego
aprendendo a viver e a cavalgar.

Em alguns aprendizados
chega-se à perfeição.

Em alguns.

No amor, não.

   Affonso Romano de Sant'Anna
 tela Dorina Costras

02/05/2012

AMOR E ÓDIO



Amor, te odeio
pelo que me fazes sofrer,
te odeio
porque não paro
de te querer,
te odeio porque sofro,
e, vivo, morro,
te odeio porque
em ti naufrago
quando era de ti
que tinha de vir
o meu socorro. 

Affonso Romano de Sant'Anna
tela Marc Chagall

23/04/2012

INSTANTE DE AMOR



Me ame apenas
no preciso instante
em que me amas.

Nem antes
nem depois.
O corpo é forte.

Me ame apenas
no imenso instante
em que te amo.
O antes é nada
e o depois é morte.

Affonso Romano de Sant'Anna
In Intervalo Amoroso
tela Maria Amaral 

10/03/2012

HABITAÇÃO


Compreender é habitar.

Meu corpo, por exemplo,
que bom observá-lo
no provisório instante.

Não que seja belo
mas nele é que esculpi meu rosto
é nele que absorvo o mundo.

Mas que morada
é meu posto.

Affonso Romano deSant'Anna
In Sísifo desce a montanha

03/02/2012

COMPREENSÃO


Olhando o vento que abate as flores do jasmim-estrela
posso lhes dizer:
- não há morte.

Estranho paradoxo
para quem desde sempre  preparou-se  para o fim
que não há.

Um simples sopro no entardecer
esses jasmins no azulejo do terraço
e adeus fantasmas de minha infância
maldição dos púlpitos
angústias metafísicas.

Tudo é recomeço.

Espero que um carro de fogo me arrebate tarde dessas
e sem estremecimento
me dissolva de vez na eternidade. 

Affonso Romano Sant'Anna
In Sísifo desce a montanha
foto  Scott Zona

01/02/2012

A FALA DE DEUS



Houve um tempo em que Deus falava hebraico.

Passou depois a falar latim
após um rápido estágio pelo grego.

Atualmente há quem afirme
que optou pelo inglês
embora em algumas tribos
xamãs se comuniquem com os seus
em incompreensíveis dialetos.

Isto apenas prova
que Deus é poliglota.
Se não 
por que inventaria a Torre de Babel?

Só não entendo por que alguns se apresentam
como seus tradutores e intérpretes
quando ele claramente fala
pela voz dos pássaros e das flores

ou quando pela boca das bactérias 
destrói (silencioso)
- nossa empáfia verbal.

Affonso Romano de Sant"Anna
In Sísifo desce a montanha
foto por John&Fish

ERGUER A CABEÇA ACIMA DO REBANHO



Erguer a cabeça acima do rebanho
é um risco
que alguns insolentes correm.

Mais fácil e costumeiro
seria olhar para as gramíneas
como a habitudinária manada.

Mas alguns erguem a cabeça
olham em torno 
e percebem de onde vem o lobo.

O rebanho depende de um olhar.

Affonso Romano de Sant'Anna
In Sísifo desce a montanha

17/01/2012

JOGANDO COM O TEMPO


O presente ameaça
o futuro não chega
o passado não passa

o passado não passa
o futuro não chega
e o presente ameaça

o passado trespassa
o futuro não chega
o presente escorraça.

O tempo é trapaça?

tempo:
fogo-fátuo
na veia e na praça
floresta
onde o caçador é caça
labirinto
onde mais se perde
quanto mais se acha.

Affonso Romano de Sant'Anna
In  Sísifo desce a montanha

AGENDA



Toda manhã
anoto uma lista
de coisas por fazer:

contas a pagar
cartas, e-mails,telefonemas
carinhos que responder
livros, palestras,entrevistas
ginástica,compras
remédios,terra,flores
consertos domésticos
desculpas, culpas
livros que ler e escrever.

Olho o que arquivo:
- o ontem só cresce
não há pasta
que o contenha.
Melhor seria dissolvê-lo
ignorá-lo, sem etiqueta
sem tentar decodificá-lo
entendê-lo.

Vai começar a girândola
de um novo dia.
Ponho o sol na alma. 

Affonso Romano de Sant'Anna 
In Sísifo desce a montanha