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17/01/2012

SUPLÍCIO CORPORAL


Magoamos
pelo menos 3 vezes ao dia
nosso corpo
obrigando-o a comidas repulsivas.

De noite ele se vinga
sonhando (ou faxinando) 
o lixo imaginário
que nele acumulamos.

Magoamos o corpo
a vida inteira
não lhe ofertando o sexo
que urge
como urge
onde urge
quando urge. 

Em compensação
o cobrimos de joias perfumes, cremes e roupas
nem sempre convenientes.

Ele suporta

O levamos a festas, esportes, celebrações exaustivas.
Ele emite sinais de desconforto.
Mas prosseguimos inclementes
chicoteando a alimária que somos.

Affonso Romano Sant'Anna
In Sísifo desce a montanha

15/01/2012

HIEROGLIFOS



Teus olhos contemplam hieroglifos no meu corpo
que tua língua decifra prazerosa.

Cleópatra não és,
Íbis não és.
No entanto, abro-te minha alma
como um papiro
e das margens desse leito
transbordo como o Nilo.

Affonso Romano de Sant'Anna
In Sísifo desce a montanha

AS NUVENS


As nuvens
não têm preocupação estética.
Sou eu
que as organizo
para meu regozijo esperto.

Elas simplesmente se desfazem
e nem disto sabem
mas eu as estudo, eu as apuro
como Turner
e alguns poetas
que organizaram  o entardecer.

A natureza
não tem preocupações  morais.
A natureza não mata
nem odeia.

Ou melhor:

mata e ama
de igual maneira
e todo movimento
é  desejo
de viver.

A morte
é apenas uma forma estranha
da vida

se refazer.

Affonso Romano de Sant'Anna
In Sísifo desce a montanha
tela.Joseph Mallord William Turner

14/01/2012

RITUAL DOMÉSTICO



Toda noite
acendo algumas velas na sala
enquanto minha mulher prepara o jantar.
Somos nós dois
e essa cachorrinha meiga
com seu estoque inesgotável de afeto.

Comemos, conversamos

( as velas em torno)

elogio a comida surpreendente
que ela sempre faz.

Falamos do mundo. De nós mesmos.
Volta e meia, ela diz : " Vou te dizer uma coisa
que só posso dizer para você"
e faz uma revelação, como se abrisse um poema.

Calmamente o jantar chega ao fim.
Vou tirando as louças
e começo a apagar as velas uma a uma
enquanto soam os últimos acordes barrocos.

Menos um dia, uma noite
- a mais.

Junto à porta, a cachorrinha
ora deita-se estirada
ora late para o nada.

Affonso Romano de Sant'Anna
In Sísifo desce a montanha

11/01/2012

"CRESPUSCULANDO"



É inenarrável esse crepúsculo
em mim se desmaiando
essas cigarras acima do ruído urbano
essas flores no terraço cúmplices

me olhando.
É inenarrável esse céu
esse dia
em mim se desmanchando.

Ergo um brinde à luz
e sigo
crepusculando.


Affonso Romano de Sant'Anna
Obrigada,Madá...
foto por forzany

07/08/2011

AMOR VEGETAL




Não creio que as árvores
fiquem em pé, em solidão, durante a noite.
Elas se amam. E  entre as ramagens e raízes 
se entreabrem em copas
com carícias extensivas.
Quando amanhece,
não é o cantar de pássaro que pousa em meus ouvidos
mas o que restou na aurora
de seu agrestes gemidos.

Affonso R.de Sant'Anna
tela Matteo Arfanotti

07/11/2010

O LEITOR E A POESIA



Poesia
Não é o que o autor nomeia,
é o que o leitor incendeia.

Não é o que o a autor pavoneia,
é o que o leitor colhe à colmeia.

Não é o ouro na veia,
é o que vem na bateia.

Poesia

Não é o que o autor dá na ceia,
Mas o que o Leitor banqueteia.

Affonso Romano de Sant'Anna
retirado do Site A Voz da Poesia
foto de Bahman Farzad no Flickr

GAIA CIÊNCIA



Gosto de me iludir
pensando
que hoje amo
melhor que ontem amei.

Assim desculpo o jovem afoito
que, em mim, me antecedeu
e, generoso, encho de esperanças
o velho sábio
que amará melhor que eu.

Affonso Romano de Sant'Anna
Retirado do Site A Voz da Poesia
foto de  Bahman Farzad

01/11/2010

POEMAS PARA A AMIGA - FRAGMENTO - 4



"O amor com seus contrários se acrescenta"
Camões

Às vezes em que eu mais te amei
tu o não soubeste
e nunca o saberias.
Sozinho a sós contigo
em mim mesmo eu te criava,
em mim te possuía
De onde vinhas nessas horas
em que inteira eu te envolvia,
nem eu mesmo o sei
e nunca o saberias
Contudo, em paz
eu recebia o carinho,
compungindo o recebia,
tranquilo em meu silêncio
e tão tranquilo e tão sozinho
que calmamente eu consentia:
- que ainda que muito me tardasse
mais ainda, um outro tanto, eu sempre esperaria.

Affonso Romano de Sant'Anna
tela de Felix Mas

DESEJOS



Disto eu gostaria:
ver a queda frutífera dos pinhões sobre o gramado
e não a queda do operário dos andaimes
e o sobe-e-desce de ditadores nos palácios.
Disto eu gostaria:
ouvir minha mulher contar:
- Vi naquela árvore um pica-pau em plena ação,
e não: - Os preços do mercado estão um horror!

Disto eu gostaria:
que a filha me narrasse:
- As formigas neste inverno estão dando tempo às flores,
e não: - Me assaltaram outra vez no ônibus do colégio.

Disto eu gostaria:
que os jornais trouxessem notícias das migrações
dos pássaros
que me falassem da constelação de Andrômeda
e da muralha de galáxias que, ansiosas, viajam
a 300 km por segundo ao nosso encontro.

Disto eu gostaria:
saber a floração de cada planta,
as mais silvestres sobretudo,
e não a cotação das bolsas
nem as glórias literárias.

Disto eu gostaria:
ser aquele pequeno inseto de olhos luminosos
que a mulher descobriu à noite no gramado
para quem o escuro é o melhor dos mundos.

Affonso Romano de Sant'Anna
tela de Gerry Baptist

25/07/2010

ARTE-FINAL





Não basta um grande amor
para fazer poemas.
E o amor dos artistas, não se enganem,
não é o mais belo
que o amor da gente.

O grande amante é aquele que silente
se aplica a escrever com o corpo
o que seu corpo deseja e sente.

Uma coisa é letra,
e outra o ato,

- quem toma uma por outra
confunde a mente.

Affonso R. de Sant'Anna
In Epitáfio para o Sec. XX
tela Felix Mas

05/07/2010

AMOR E MEDO



Estou te amando e não percebo
porque, certo, tenho medo.
Estou te amando, sim concedo,
mas te amando tanto
que nem a mim mesmo
revelo este segredo.

A.Romano de Sant'Anna
In Epitáfio para o Sec.XX
Tela  The Kiss, 1894 by Henry John Stock

03/07/2010

LIMITE DO AMOR


Condenado estou a te amar
nos meus limites
até que exausta e mais querendo
um amor total, livre das cercas,
te despeças de mim, sofrida,
na direção de outro amor
que pensas ser total e total será
nos seus limites de vida.

O amor não se mede
pela liberdade de se espor nas praças
e bares, sem empecilho.
É claro que isto é bom e , às vezes,
sublime.
Mas se ama também de outra forma,incerta,
e este o mistério:

- ilimitado o amor às vezes se limita,
proibido é que o amor às vezes se liberta.

A.Romano de Sant'Anna
In Epifácio para o Sec.XX
tela  Heartstrings II by Lisa Linch

29/06/2010

SILÊNCIO AMOROSO


Deixa que eu te ame em silêncio.
Não, pergunte, não se explique ,deixe
que nossas línguas se toquem, e as bocas
e a pele
falem seus líquidos desejos.

Deixa que eu te ame sem palavras
a não ser aquelas que na lembrança ficarão
pulsando para sempre
como se amor e vida
fossem um discurso
de impronunciáveis emoções.

A.Romano de Sant'Anna
In Epitáfio para o Século XX
Tela Love-signed by Harvey Edwards

19/12/2008

A PRIMEIRA VEZ QUE ENTENDI


A primeira vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na infância
cortei o rabo de uma lagartixa
e ele continuou se mexendo.

De lá pra cá
fui percebendo que as coisas permanecem
vivas e tortas
que o amor não acaba assim
que é difícil extirpar o mal pela raiz.

A segunda vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na adolescência me arrancaram
do lado esquerdo três certezas
e eu tive que seguir em frente.

De lá pra cá
aprendi a achar no escuro o rumo
e sou capaz de decifrar mensagens
seja nas nuvens
ou no grafite de qualquer muro.

Affonso Romano de Sant'Anna
In Jornal da Poesia
Foto de Natasha Mankikar

CHEGANDO EM CASA




Chegando em casa
com a alma amarfanhada
e escura
das refregas burocráticas
leio sobre a mesa
um bilhete que dizia:

- hoje 22 de agosto de 1994
meu marido perdeu, deste terraço:

mais um pôr de sol no Dois Irmãos
o canto de um bem-te-vi
e uma orquídea que entardecia
sobre o mar.

Affonso Romano de Sant'Anna
In  Jornal da Poesia
tela Felix Mas

20/09/2008

SILÊNCIO AMOROSO - 2




Preciso do teu silêncio
cúmplice
sobre minhas falhas.
Não fale.
Um sopro, a menor vogal
pode me desamparar.
E se eu abrir a boca
minha alma vai rachar.
O silêncio, aprendo,
pode construir. É um modo
denso/tenso
- de coexistir.
Calar, às vezes,
é fina forma de amar.

Affonso Romano de Sant'Anna