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17/03/2013

CANÇÃO DA INDIFERENÇA




A vida passa,
leve
como a fumaça,
sem que possa
ao menos compreendê-la.
 
É um perfume sutil de magnólia,
cintilância indecisa de uma estrela,
um zumbido de vespa que esvoaça
em torno de uma flor
ou junto a um fruto.
É como um nome escrito sobre a areia
para viver o espaço de um minuto.
 
Aceitemo-la com indiferença,
como se olha a fumaça que se evola
ou se aspira o perfume de uma flor;
tal se escreve na areia um nome amado
porque se sente o amor.
 
Vivamo-la, pois, serenamente,
trazendo sempre a alma contente
e alegre o coração,
na certeza de que ela é transitória
e que sua glória
é como a glória
de uma bolha de sabão.
 
Não vale sentir tanta amargura
tanta tristeza
e quanta desventura
a vida possa nos causar.
 
O que vale na vida indiferente
é o pouco que o acaso nos concede
nesse inclemente
desfiar das horas,
nessa fuga do tempo
que nos mata
lentamente...
 
imperceptivelmente...
 
imperceptivelmente...
 
Alfredo de Cumplido de Sant'Anna
In Poemas e Legendas
tela john-singer-sargent

PRELÚDIO CREPUSCULAR



No poente
silente
os choupos esguios
balançam
e dançam
refletidos
nos lagos adormecidos
e frios.
 
A bruma
esfuma
a paisagem
onde a sombra
ensombra
a ramagem.
 
A claridade amortece...
 
E, lenta, a noite desce
sobre o jardim,
enquanto fico a relembrar
a tarde em que sobre mim
eu tive o teu olhar.
 
A claridade amortece...
 
E nos espelhos gelados
projetam-se magoados
os altos choupos esguios 
por entre as sombras das rosas,
que finas e veludosas
perfumam os lagos frios.
 
No céu, porém, claro e fino
como o teu olhar cristalino
uma estrela cintila,
e espelha-se na água dormente,
enquanto o poente
vacila...
 
Alfredo Cumplido de Sant'Anna
In Poemas e Legendas
tela Joanna Sierko-Filipowska

A DANÇA DAS HORAS



A Hebe e a Venus, em beleza,
as Horas, em volteios caprichosos,
bailam na sombra azul de erma devesa
sob a copa dos olmos deleitosos.
 
Ageis e nuas, mostram a esbelteza
dos claríssimos  corpos vaporosos,
afastando dos ares a tristeza
que faz os corações desventurosos.
 
Têm parte nesse brinco as lindas Graças,
guirlandas agitando de mil flores
com que aromam o vinho que há nas taças
 
em fulgídas opalas esculpidas,
enqunto sobre a relva com os Amores
as Musas entrelaçam-se despidas. 
 
Alfredo Cumplido de Sant'Anna
In Poemas e Legendas
tela Gaetano Previati 

18/11/2009


foto by lorencedajour

NOTURNO

Com seus dedos invisíveis
balança o vento a cortina,
muito leve, levemente,
tal farrapo de neblina.

A luz argêntea da lua
parece uma asa de vespa
tremulando suavemente
sobre um lago de água crespa.

Pela vidraça entreaberta,
iludindo que entra alguém,
entra o vento, sai o vento,
num noturno de Chopin.

E os teus dedos, no teclado
de marfim envelhecido,
são dez pássaros pousados
num trigal reflorecido.

De repente o vento cessa.
Uma nuvem tolda o luar.
Desce em pregas a cortina

e fica à música no ar...

Alfredo C. de Santana
In Poemas e Legendas

Foto de lorencedajou... no Flickr

PRELÚDIO DA MORTE

Esgueiram-se os elfos dolentes
por entre os ramos pendentes
que, lentos
e sonolentos,
cobrem de renda o rio,
onde, leve,flutua,
inanimado e frio,
o rosto branco da lua...

Alfredo C.DE Santana
In Legendas e Poemas