Mostrando postagens com marcador Alphonsus de G. Filho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Alphonsus de G. Filho. Mostrar todas as postagens

27/01/2010


Foto de barandalla no Flickr

O QUE RENASCE

- Que vais colher, plantar acaso?
- Há um sopro
de noite murcha nos quintais. É a hora.
- Hora de semear?
- De ter. De ir
buscando o que renasce.
- O que renasce?
- O que, incessante, de si mesmo flui.
- Vamos regar as flores desoladas,
semear luzes pelas ruas mudas
onde ninguém mais vela?
- O que renasce.
- Vamos levar ás árvores o sangue
das madrugadas, seiva aos caules, canto,
sol aos que choram, longe?
- O que renasce.
- Levar a vida , a vida que renasce,
aos que mortos se vão sem estar mortos?
- O que renasce.
- A vida?
- O que renasce.
- A morte?
- A vida.A morte. O que renasce.

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Discurso no Deserto

Foto de Giulio Bassi

MOMENTO

Nostalgia do céu e solidão dos anjos.
Ah! tudo se desfez ...Buscai-me nas estrelas.
Buscai-me,sim buscai-me em melodias louras.
Quem virá de outros céus, quem cantará nas luzes?
Tudo é branco demais e transparente... O riso
Vem de longe demais. As mãos afagam a morte.
As mãos se envolvem em frio e em asas e em neblinas.
O coração não volta ao mundo abandonado.
Tudo é longe demais e fluido. Eu ouço os anjos...
Sou a sombra perdida em músicas e chamas.
Sou alguém que perdeu o reino e está de bruços
Sofrendo a solidão e o exílio, está de bruços,
Desterrado da paz e do país dos anjos...

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Nostalgia dos Anjos

26/01/2010


by Lutz Münzfeld

LIMITES

Desse caminho escuro
ao dia longe, ao dia
longe, mas sempre dia.
Dessa casa fechada
para sempre, caindo
aos poucos, derrubada
aos repelões do tempo,
ao menos uma flor
seca, num livro inútil.

Da ríspida amargura
da vida incerta e insana,
do respirar da mágoa
no fundo de atroz poço
que de nós mesmos, cegos,
tão cegos! ocultamos,
ao menos uma luz,
mesmo que doentia,
mesmo que vacilante.
Agonizante quase.

Do chão pedrento, sujo,
da solidão maior,
dos olhos assombrados,
das mãos caídas, dos
passos descompassados,
ao menos um arco-íris,
ao menos uma estrela.

Que ao menos nos consolem
esses limites duros
mas cheios de uma estranha
cintilação mais alta,
mas cheios de infinita
espera, e de esperança:
das vísceras ao arco-íris
e do estrume à estrela.

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Discurso no Deserto

23/01/2010


by Tanja Vetter

NÃO

Não, não há iludir-nos, pois que unido
ao nosso espanto e ao nosso exausto passo
há muito mais que dor e que cansaço
de um ser fendido.

Há uma voz que canta ou que blasfema,
há uma flor que se abre se destrói,
há uma paz que nos aflige e dói,
e alguém que diga até: "Isto é um poema."

Mesmo sabendo que não há poemas,
que a poesia ruiu como edifício
e dela ficou vago e atroz resquício
de murchos diademas.

Mesmo sabendo que morremos diante
do sopro iluminante das palavras,
nós garimpeiros de perdidas lavras,
a estremecer à anelante

voz que nos quer segredar alguma doce
claridade e em si mesma consumida
simula acaso que vivemos vida,
que é vida o que talvez nem morte fosse.

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Discurso no Deserto

20/03/2009


by Pierre Auguste Renoir

COMO UM EMBALO

Fosse uma chama, crepitaria
sob meus dedos, na solidão.
Nada mais quero, nada queria.
As noites chegam, os dias vão.

Fosse uma chama,breve arderia,
brasa de sonho, na escuridão.
Já nada quero da luz do dia...
Queima uma estrela na minha mão.

Mas nada quero da luz da estrela...
(Chegam as noites, os dias vão.)
Por que sonhá-la, se vais perdê-la,
alma perdida na solidão?

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Água do Tempo

14/03/2009


Foto de Lincoln Figueiredo

O ENTARDECER EM MINAS

O entardedecer em Minas
traz paz que transcende
da carne , da alma, e é sopro
de desolados becos,
mofo de sacristias.

Casas pobres, solares,
sobrados que vigiam
as extintas riquezas,
efêmero esplendor
do ouro nos veios secos,
dissipados. Em tudo
um silêncio tão frio
que é como se pousassem
mãos de sombra na sombra
que vaga, e somos nós.

Um silêncio de ferro,
silêncio mineral
áspero e tormentoso,
e no entanto sereno,
emoliente quase,
cálido e todavia
esquivo; nostalgia,
pobreza, singeleza,
um leve som de cantos
molhados de um ausente
mar que os olhos perscrutam
em vagos horizontes,
um ressaibo tirante
a cinza e despedida,
uma paixão sem gritos,
morte sem desespero,
o silêncio mineiro.

O entardecer em Minas
desdobra-se em estradas
que no dorso ferido
das montanhas severas
se inclinam sobre os abismos,
se aquietam nos campos
que ondula paz perdida,
na verdade não tida,
longe demais chamando
com seu mato e cupins,
árvores altas, reses.

Silêncio mineral,
que nos queres? Distantes
que vamos, é teu sopro,
como ao marujo o sal,
o sol da maresia,
que nos chama. Estas casas
novas, edifícios
no planalto pousadas,
esta nova explosão
de vida e seiva nunca
explorada, permite
que a ti nós retornemos
com outra perspectiva
de quem se foi no curso
de rios a outras serras,
de quem se deu a campos
retorcidos, ansiosos,
e viu brotar dos longos
silêncios as cidades
que em solidão persistem
como se contemplassem
a si mesmas, nos vales,
-ah, que a ti retornemos
mas já sem qualquer mácula,
mancha da vida suja,
deixando em tuas pedras
em teus adros, colinas,
pecados tortuosos
como as ruas que sonham
eternamenmte imersas
no mineral silêncio,
choro ou raiva, tormenta
que vibra, e não se escuta.

Ah, silêncio de Minas,
ah, o peso das grades,
desolação dos frios
céus, que imenso, estranho
sossego nos altares
de talha, nas portadas,
nos medalhões, nos anjos,
nos ícones, retábulos,
que frêmito de céu
nos Passos, que certeza
austera dos profetas
contemplando, de barbas
de pedra esses de pedra
e sangue desolados
montes onde se ergueram,
como lanternas cegas,
os sonhos graves, ímpetos
libertários, pungência
de fé que em morte esfaz-se,
e hoje é somente brisa,
sempre a brisa passando.
Quem faz tais confidências,
se ninguém ouve? O esparso
silêncio contagia.
Podem os mortos deixar
severas catacumbas
e, hermeneutas da treva,
errar em plena luz
por estes mesmos sítios
onde um dia sofreram
gosto de amor e sonho
da vida; pode a morte,
ela mesma, em disfarce,
simular vida heróica,
estóica, pertinaz;
pouco importa: o silêcio
confunde vida e morte,
que nele se transfundem,
se incorporam. Silêncio
de bocas idas, idos
olhos , hoje no entanto
de novo latejando
como se vida e morte
em tal intimidade
convivam que ninguém
saiba o que há mais vivo
ou mais morto. Legenda
de Minas, glória e exílio,
ofegar de belezas
que a mão tardonha sente
escorrer-lhe entre os dedos,
flama, brisa, dormência,
olor de inexistente,
invisível campina,
mescla de santidade
e desespero , ai! Minas,
como em nós não te agitas
e ao mesmo tempo quedas
hirta e temerária,
com tuas torres, teus
rios discretos, tuas
minas de paz ocultas
e presentes, ai! Minas,
que frescos campanários,
que naves, que caminhos
haverá que nos deixem
no peito malferido
pela noite da vida,
esta emoção incerta,
esta certeza ansiosa,
este anelo de um céu
que nenhum céu nos traz
com os azuis intocados,
esta absurda , assombrada
pureza de quem peca,
já pecou, pecará,
e se lava em tua água,
e em tua paz se salva,
e escuta, por onde vá,
teu silêncio fremindo,
silêncio mineral,
silêncio de ladeiras,
de salas de jantar
com altos móveis solenes,
de varandas de bruma,
de mirantes de brisa,
gelosias que o fogo
de outros sóis requeimou,
a paz dos descampados
onde vagam noturnas
sombras que o sol nenhum
há que apague, tristeza
grave de velhas mãos
em pianos diluídos
em neblina , e um perdido
sabor de desalento
e sonho ,em tudo pondo
um frêmito de chama
um deslizar de asa,
uma carícia de alma,
um repouso de sombra
pura, imemorial.

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Água do Tempo

*Postado com carinho para Helen Drumond e Fernando Campanella

02/03/2009


Foto by HUS0

POEMA

A alma que nasce em nós quando nascemos
é a mesma que nasce em nós quando morremos?

E quando em nós tudo se esvai, se esquece,
quem sabe se um outro sol é que aparece?

Ah, o sol que nasce em nós quando nascemos
que a todo instante temos, e não vemos,
será a luz de Deus, quando morremos?

E só então nós nos revelaremos
nos círculos mais fundos onde ardemos?

E só então, no escuro, nos veremos?

Alphonsus de Guimaraens Filho
In O Tecelão do Assombro

Foto de suelyitamarsantiago

SONETO

A uma réstia de sonho chamam vida.
A uma sombra maior chamam-lhe morte.
Vida e morte, não mais, pouso e suporte,
sopro de permanência e despedida.

Uma treva febril noite é chamada.
A uma luz mais febril chamam-lhe dia.
E entre elas se põe a estrela fria
que irrompe como flor da madrugada.

Paira em tudo um silêncio que anoitece,
que amanhece, e que vence todo ruído,
e como sol não visto num perdido
horizonte se esfaz e se retece.

Tudo é longe demais, por demais perto.
E a alma, que faz neste feroz deserto?

Alphonsus de Guimaraens Filho
by Antoniomiranda.com

Foto de suelyitamarsantiago

POEMA SONHADO

Se não for pela poesia, como crer na eternidade?
Os ossos da noite doem nos mortos.
A chuva molha cidades que não existem.
O silêncio punge em cada ser acordado pelos cães invisíveis
[do assombro.
Os ossos da noite doem nos vivos.
A escuridão lateja como um seio.
E uma voz (de onde vem?) repete incessante, incessantemente:
Se não for pela poesia, como crer na eternidade.

Alphonsus de Guimaraens Filho
by www.antoniomiranda.com

01/03/2009


Foto de Walt K

XVI

As palavras de amor que me dirias
O vento as traz...São pulsações, são mansas
Vozes cantando a paz das luas frias
Acesas sobre as nossas esperanças.

Vejo o teu corpo nas auroras...Rias
No teu retrato de menina...As tranças
Pacificando o olhar... As mãos macias...
Criança adormecida entre crianças...

O vento vem da infância e a noite agita
Dentro do desespero as cabeleiras
Dos enterrados, para sempre ausentes.

O vento fere a tua voz aflita
E a tua face sobe das primeiras
Febres de amor, dos risos inocentes...

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Sonetos da Ausência

Foto de Alfredo Rúperez

II

És a canção mais pura. O fruto rindo
Nas árvores da aurora. O céu perdido...
És o beijo da infância, o afeto lindo
Já na loucura desaparecido.

Fogo e febre no mar...Velas se abrindo
Para o afago da paz...Chego vencido
E vou colher o amor (sonhando e rindo)
No corpo morto e frio e retransido.

Canta, perfume das manhãs! Eu quero
Me transfundir na luz, ser riso ou asa,
Ser melodia sobre um mar aflito...

És amor que me faz puro e sincero,
És a sombra do céu na humilde casa
Onde colhi o sangue do infinito.

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Sonetos da Ausência

26/02/2009


Foto de Rodrigo Craveiro
Andorinhas diante do Salto do Itiquira

ANDORINHAS TÊNUES

Meu Deus, eu vago em andorinhas tênues,
Eu percorro os caminhos da loucura
E,é certo, um dia não regressarei.
É tudo louco. E denso.É louco.É louco.
Olhos que suspirais pelas partidas,
Mãos de anjos que o vento embalde trouxe,
Decepadas, sangrantes, torturadas.
Cantos que sobem de mim mesmo. Gritos.
Alguém que espera. E a luta. E esta certeza
De que somente ficará pulsando
Minha medonha lucidez, pulsando
E remordendo e alucinando, embalde!

Veio alguém de outros dias e me disse
Que eu estava a sonhar pelos caminhos.
Nem eu sabia, nem acreditei.
Quem sabe não estarei morto e sepulto
Naquele túmulo que ninguém conhece
E que me lembra o século XIV?
Ó mãos dos anjos, perfumai-me o rosto!
Cantai de manso, adormecei a bruma.
Voai ao mundo que diviso apenas.
Vêde a distância, o céu, o mar da infância.
Vêde que estendo as mãos e encontro o choro
E encontro a treva e a solidão. Sonhai!
Meu Deus, eu vago em andorinhas tênues
E é tudo longe e é tudo muito longe
E é tudo denso e louco. É tudo louco!

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Nostalgia dos Anjos

25/02/2009


by El Greco / Christ

ORAÇÃO

Pelos dias de paz e de alegria ingênua,
Pelas noites macias, pelos risos
Das namoradas sempre deslumbradas;
Pelas noites de minha meninice
E as histórias de príncipes,perdidas
Na confusão do espírito cansado;
Pelos contos gentis da carochinha,
Pela alegria das crianças mortas,
Pelas mãos perfumadas de esperança;
Pela noiva que o amor fez tão distante;
Pela minha saudade alucinada
Onde gritam demônios e a loucura
É a velha debruçada sobre os rios;
Pelas fugas em céus, pelas cantigas
Primaveris de moças desejadas;
Pelas faces que vi em espelhos frios,
No impassivel cristal adormecidas;
Pelos beijos que tive da pureza;
Por minha mãe, tão longe deste mundo,
Tão acima do mal, tão delicada;
Por meus irmãos que o vento agride e envolve;
Por esta casa humilde da montanha,
Por este quarto, por meus velhos livros,
Por meus retratos e esperanças gastas,
Pelos meus sonhos de rapaz e pela
Carícia inatingível das estrelas,
É que venho, Senhor, ao Teu silêncio,
Pedir-Te que permitas o regresso
E que eu me encontre em Ti completo e puro
E Tu me reconheças entre os homens
Tal como um dia, em paz, me concebeste.

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Nostalgia dos Anjos

by Burne-Jones

UMA ASA DE ANJO
(A Edgar de Godoy da Mata Nachado)

Uma asa de anjo, o carinho inefável
De uma asa de anjo, a corola suspensa,
Riso do orvalho em plena madrugada
Canção que não contém senão saudade,
Uma asa de anjo me inquieta.

Não basta ver o mundo e amar o mundo
Ou adiá-lo por ter em cada instante
A mesma sombra, o mesmo desalento.
É preciso senti-lo além da carne,
No mistério, no sonho, na agonia...

Eis que uma asa me envolveu. O anjo
Passou , de leve. O vento, suspirando,
Colhe o irreal. O corpo se desdobra
Em luzes como em céus. Chove pureza...

Já não me reconheço. Sou a sombra
Que se deitou, chorando,num silêncio
Feito de rios plácidos.Procuro
Me descobrir no mundo asfixiado
E antes me tenho claro e numeroso,
Multiplicado em luzes. Uma asa
Passou de leve sobre a paisagem
E o mundo renovado me parece
Um caminho perdido entre rebanhos,
Água caindo sobre grutas, riso
De uma criança que persegue a luz
E vai, descalça, sobre a terra fresca,
Umedecida ainda da pureza
Inicial...

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Nostalgia dos Anjos

by Frank Weston Benson

CANÇÃO

Nenhum gesto de supresa,
De desdém.Somente a vida...
A casa, as flores na mesa,
E na alma uma tristeza
E na alma uma ferida.

Subi a escada sonhando,
Abri a porta a sonhar.
Uma, duas, três cantigas
Ficaram em mim ressoando
Sem que as pudesse lembrar.

Não foi a infância.Nem mesmo
A luta da descoberta.
Foi apenas essa angústia
De quem quer sonhar no mundo
E vê a noite crescendo
E vê a morte crescendo
Na carne, ferida aberta.

Na sala imensa, calada,
Fiquei esperando...Um dia
Talvez venhas, madrugada!

Essa tristeza, essa morte,
Essa ferida, esse espanto,
Tudo isso te anuncia.
A própria noite suspira
Por tua carne vermelha,
Carne de ausência, de sombra,
Carne fria...

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Nostalgia dos Anjos

23/02/2009


Foto de eduhhz

POEMA

Ninguém sabe em que dia concedeu seu tormento.
Velhos suspiros, velhos muros, e na cidade colonial
[de placidez doentia
O cemitério na colina, a igrejinha plantada entre um renque
[de árvores
Desesperadas.
Por onde vou, ai de mim, cuido sempre conduzir um silêncio
[de louco,
Ou a dor que se faz nostalgia cinzenta,
Chuva em tarde de outubro,
Madrugada a sorrir sobre velas acesas.
Não me encontro. E só vejo, entre os mundos banais que
[entediam a retina,
Essa angústia de quem não se sente nas coisas
Mas se vê isolado e distante, num mundo
Muito longe da terra,
Muito longe do céu.

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Nostalgia dos Anjos

21/02/2009


Foto de * Nina *

CANÇÃO

O leve vento me leve
Para as praias de além-mar.
O leve vento me leve...

Quero um sopro de inocência
Para em luzes me banhar.
Onde estaria a saudade
Que afaga os caminhos mortos
E treme na luz das velas
Nos velórios de além mar?
Quero fugir da loucura
Que prende os corpos no mar.

Em tudo que me esperava
Jamais pureza encontrei.
Fui gemido, tédio, noite,
Fui vagabundo e fui rei.
E me buscando no mundo

No mundo não me encontrei.
Que o leve vento me leve
Para as praias de além-mar.
Que o leve vento me leve,
Me deite em praias macias,
Me dê as bocas macias
Das namoradas do mar.
Quero um sopro de inocência
Para em luzes me banhar.

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Nostalgia dos Anjos

Foto de Lui G

TUDO EM NÓS É MORTE

O pior é que existe o mesmo e inflexível
Desânimo, pesando. Amamos ou sorrimos,
Vamos, nas mãos da morte, aos pousos e aos pomares,
Desejando a paz antes da eternidade.

Mas os momentos de prazer são efêmeros e lúcidos
E a consciência se perde em paisagens ásperas.
Por que sentir na paz a presença da morte,
No riso natural a agonia dos gritos?

Vamos, levados por nós mesmos, aos acasos noturnos.
Céus, ventos, céus...E as estrelas chamando.
Que plenitude em nós quando o céu estrelado
E em torno ao nosso espanto existe a sombra e o escuro!

Quando a mulher que amamos oferece em seu corpo
A pulsação de reinos proibidos,
Ouvimos o oscilar dos pêndulos da morte
Como soluços matinais sobre águas de um rio.

Como exprimir a nossa dor e a nossa angústia quando
Os círculos se fecham e nos vemos, apesar do amor ou da ternura
Atirados a um mar de chamas hesitantes?
Como nos procurar além desses limites?

Ah! que Deus nos feriu de morte e a nossa carne
É um soluço ante a paz de estrelas insensíveis
E tudo em derredor se torna indiferente
Ao suplício da sombra em sombras mergulhada!

Ah! que tudo que em nós se passa é tão somente
Um fremito de asa e o mundo continua
Esquecendo o nosso sonho humilde de mais alto,
Nossa dor de buscar pureza e menos morte!

Tudo em nós, afinal, é morte. E essa alegria
Que em nós se faz envolve a certeza da volta...
Voltaremos um dia... Então, se completará em luz a sede aflita
De coisas menos gastas, esta paixão que é mais uma ardência de morte
E nos transforma em luz, despenhados em chama,
Sobre tudo o que traz um sentido secreto
E contém, para o ser, torturantes promessas!

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Poesias

19/02/2009


Foto de TELPortfolio

I

(Inicial)

Se a saudade que vem é passageira
E o amor é fogo a arder em breve instante,
Deixa que eu leve ao coração sangrante
Minha palavra amiga e companheira

Deixa que eu chore e sofra e ria e cante
E colha a paz na lágrima primeira,
Pois a loucura é como uma fogueira
Que me desvaira em música incessante.

Deixa que eu sofra nas corolas, ria
Nas madrugadas, me desfolhe em sinos,
E me perca no céu como no mar...

Deixa que eu me desfaça em melodia,
Que eu me alucine em risos de meninos,
Que eu me procure para não me achar!

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Sonetos da Ausência

27/01/2009


Foto de Bahman Farzad

POUSAS A CABEÇA...

Pousas a cabeça num travesseiro que ficou na infância.
Pedes a alguém que acenda a noite.

O ofegar de um paraíso onde caem uma por uma as lendas...

Houve ontem? haverá amanhã? - eis renascem de teus pés
rotos sapatos, desencantada música, um ou outro arrepio
de mão insensata colhendo flores que não desabrocham nunca.

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Água do Tempo