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03/03/2010


Flowers and Lovers by Marc Chagall

UTOPIAS PRIVADAS

Utopias privadas
as palavras
são micro-horizontes
revelação
de um deserto-oceano
que nos enche
de um vazio sem fundo

Embalados por palavras
escutamos
em imagens-falas
o atrevimento do amor
que nos move
comove
estrangula
Enlouquecidos pela dor
cobrimo-nos com o barro das palavras

Ana Hatherly
In O Pavão Negro

The three candles by Marc Chagall

COMO CANTAR O AMADO?

Quem ama
fica cheio de não-saber
não para de procurar

Entrevendo o fulgor do êxtase
percorre o rio do sangue
conhece os horrores da guerra íntima
toda vermelha e crua
fértil em rupturas
incessante nos ataques

Não
nenhum rosto materno sobre o nosso debruçado
nos consolaria
se houvesse esse rosto
essa ternura impossível de entender

Nada nos pode consolar
do excessivo peso do amor
que oprime como a noite
cheia de não saber
como tudo o que é divino
e inventado

De fato
não amamos como as flores
totalmente simples na sua entrega
Quando amamos
deixamos de ser o que somos
transfigurados pelo desejo
que mata
destrói
violenta tudo

E perscrutando a noite
que a si própria se escava e aplaina
amando
fitamos a intermitência das estrelas
deslumbrados por brilho extinto
que fere com lentidão sideral
o ermo íntimo do nosso coração

Inatingível sempre
e como tal desejado
o verdadeiro amado.

Ana Hatherly
In Rilkeana,1999

24/01/2010


by Rodin

PENSAR

Pensar
é como tactear uma sombra
entrar de rastos
numa profusão de escuros

Ana Hatherly
In Fibrilações

03/01/2010


by Jacopo Tintoretto

A ARTE E MORTE EM VENEZA

II

A arte é para tornar a vida suportável
a arte tenta disfarçar
cobre mas descobre
A arte tenta
tenta a muitos
mas a arte é Don Juan
vai morrer por excesso.

A arte é sempre uma grande pintura de cavalete
mesmo quando é só um risco
um silvo finíssimo.
A arte escorre sempre
cai-nos no rosto
mancha-nos
contamina-nos.
Os museus estão cheios de horror
de gritos de mitos disparates
até surgir de repente um Tinoretto
um Bellini com anjos escarlates
Um Giorgine
um teto todo de ouro.

Os palácios são cofres lambidos pela cobiça
varridos pelas pestanas dos turistas
enquanto o chão treme
sob o peso animal
em equilibrios sobre a água.

No subterrâneo as masmorras:
a arte luta com o poder
a arte luta para o poder
a arte luta pelo poder
Toda a arte fala de luta
e repousa num colchão de gemidos.

Ana Hatherly
In A Idade da Escrita

19/06/2009


La Montagne Saint Victoire, 1887 by Paul Cezanne

ESTA GENTE / ESSA GENTE

O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente

Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente

NENHUMA!

A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente

Ana Hatherly
In Um Calculador de Improbabilidades

16/05/2009


Foto de Marcos Fontes

DAR-SE

dar-se
entregar-se
o querer no outro transformar-se

cegueira esplêndida esta
vitória álacre e suma desgraça.

Ana Hatherly
In Volúpsia,1994

04/04/2009


The Garden Of Monet At Giverny by Claude Monet

OS JARDINS IMAGINÁRIOS
(In: Die Sonette na Orpheus, Zweite Teil XVII)

Os jardins imaginários
que de longe vislumbramos
pertencem
aos distraídos insensíveis entes
com que os povoamos

Sempre ficamos
do lado de cá de suas grades
desejosos-receosos de as passarmos

Sentimos o perfume
das rosas que inventamos
vemos o esplendor
dos frutos que sonhamos

Contemplamos
na inventada montra dos prazeres
as sublimes doçuras que sonhamos
sentindo sempre
que não
não somos dignos
de fruir tais gozos

Nos proibidos jardins
que inventamos
nós
sombras-fantasmas
dum desejo que nos impele em vão
nós
jamais pertubamos
a serenidade
de seu eterno impassível Verão.

Ana Hatherly
In Rilkeana,1999

Foto de deepenoughtodream

TRANQUILAMENTE COMO NUMA TARDE

Penso em ti
tranquilamente
como quem está sentado ao sol de Outono
deixando o pensamento fluir.
É o rio de sempre
um rio que corre lentamente
como decorre a noite.
Chega inadvertidamente
tendo estado sempre ali
a correr muito calado
de modo a não darmos por ele
se não quisermos.
É como um grande amigo
junto de quem podemos estar silenciosos
sem estarmos longe.
É como uma noite muito quieta
que está ali
mas só damos por ela quando de repente
saímos de casa e ela surge enorme
ante os nossos olhos.

Penso em ti
tranquilamente como numa tarde
em que resolvemos não fazer nada e os livros
arrumados verticalmente
são apenas o dorso ondulado
de um animal que dorme
enquanto por dentro
todo o trabalho se processa.

Penso em ti
tranquilamente
como deitamo-nos no chão
debaixo de uma grande árvore e olharmos
a sua copa em leque
a sua ramagem ondulante lenta
como o ventre de uma animal adormecido.
Até que a luz da lua
entra e percorre tudo
sem refletir coisa alguma.

Ana Hatherly
In A Idade da Escrita,1998

Foto de dklimke

QUANDO A LUA VIER TOCAR-ME O ROSTO

Esta noite morrerás.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
terás partido do meu leito
e aquele que procurar a marca dos teus passos
encontra urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
Esta noite morrerás.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
terás partido do meu leito
e uma gota de sangue ressequido
é a marca dos teus passos.
No coração do tempo pulsa um maquinismo ínscio
e na casa do tempo a hora é adorno.
Quando a lua vier tocar-me o rosto a tua sombra extinta marca
o fim de um eclipse horário de uma partida iminente e o tempo
apaga a marca dos teus passos por sobre o meu nome.
Constante.
O mar é isso.
A lua vir tocar-me o rosto e encontrar urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
O mar é tu morreste.
O mar é ser noite e vir a lua tocar-me o rosto quando tu
partiste e no meu leite crescem folhas sangue.
A velocidade do sangue é tu partiste.
A febre é uma pira incompreensível como a aparição
da lua e a opacidade do mar.
No meu leito a lua vai tocar-me o rosto e a tua ausência é
um prisma, um girassol em panóplia.
Agora a lua chega devagar e o mar é leito de tu teres
partido, uma infrutescência de eu procurar a marca dos
teus passos por sobre o meu rosto.
A noite é eu procurar a marca dos teus passos.
Esta noite a lua terá um halo de concêntricas florações de
gotas do teu sangue
e a irisada sombra do meu leito é o teu rosto iminente.
A lua é uma seta.
Tu partiste é o silêncio em forma de lança.
Esta noite vou erguer-me do meu leito e quando a lua vier
tocar-me o rosto
vou uivar como um lobo.
Vou clamar pelo teu sangue extinto.
Vou desejar a tua carne viva, os teus membros esparsos,
a tua língua solta.
O teu ventre, lua.
Vou gritar e enterrar as unhas nos teus olhos até que o mar
se abra e a lua
possa vir tocar-me o rosto.
Esta noite vou arrancar um cabelo e com a tua ausência
faço um pêndulo parainterrogar a lua por tu teres partido
e a marca dos teus passos ser a razão mágica de a lua poder
surgir de noite e urtigas crescerem no meu leito.
E se encontrar a marca dos teus passos vou crivar-lhe o
coração de alfinetes
para que tu partiste seja a razão mágica de tu poderes morrer-te.
Quando a lua vier em forma de lança vai trespassar um pássaro
para lhe ler nas entranhas a direcção tu partiste e a marca dos
teus passos consiste nos olhos abertos de um
pássaro esventrado.
Ah, mas o luar é uma pluma do meu leito e a lua é o colo
de tu morreste para poderes enfim tocar-me o rosto.

Ana Hatherly
In Sigma,1965

26/12/2008


Foto de r.moreira32

QUANDO BEBEU O ELIXIR PERDEU A DIMENSÃO

III

O sonho é a ponte
Que vai do infinito ao infinito,
É a medida sem comparação,
É a presença do que se imagina.

Sonhar talvez só seja
Reconhecer o que já nem a alma sinta
Nem o próprio pensamento veja.

Ana Hatherly
In Um Ritmo Perdido

Foto de r.moreira32

A minha vida é poética:
Paira entre a vaga mentira e a realidade.
O amor me acontece
Como as folhas às árvores,
E tão singularmente,
Que já nem sei se é natural à árvore ter folhas
Ou estar nua...

Ana Hatherly
In Um Ritmo Perdido