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11/12/2012

REFÉM


 
 
Eu sempre quis requebrar
só me faltou poesia
eu nunca soube rimar
mas sempre tive ousadia
nunca joguei o destino
e nem matei a família
a minha sorte na vida
se escreve com C cedilha
Eu nunca tive ideal
nunca avancei o sinal
nem profanei minha filha
Eu me perdi muito além
sendo meu próprio refém
na solidão de uma ilha

Eu sempre quis acertar
só me faltou pontaria
eu nunca soube cantar
mas sempre tive mania
nunca brinquei carnaval
e nem saí da folia
nunca pulei a fogueira
e nem dancei a quadrilha
Eu nunca amei a ninguém
nunca devi um vintém
nem encontrei minha trilha
Eu me perdi muito além
sendo meu próprio refém
na solidão de uma ilha

Cacaso,
In Mar de mineiro
tela Amanda Cass

MEIO-TERMO


 
Ah como tenho me enganado
como tenho me matado
por ter demais confiado
nas evidências do amor

Como tenho andado certo
como tenho andado errado
por seu carinho inseguro
por meu caminho deserto

Como tenho me encontrado
como tenho descoberto
a sombra leve da morte
passando sempre por perto

E o sentimento mais breve
rola no ar e descreve
a eterna cicatriz
mais uma vez
mais de uma vez
quase que eu fui feliz

A barra do amor
é que ele é meio ermo
a barra da morte
é que ela não tem meio termo

Cacaso
In Mar Marinheiro
Tela Amanda Cass

21/09/2012

POEMAS BRANCOS




I
 
Com essas mesmas palavras
vejo a varanda secando
suas penugens ao sol. Vejo ainda
quanto é inútil o ser e o não-ser:
 
Minha perplexidade desiste de tudo
e mastiga violentamente
os primeiros sons
                            da
                        manhã.
 
II
 
Retorno da natureza
esta branca nostalgia.
Viajo pela matéria
                 de braços com satanás:
Ó anjo anunciador, levai-me ao passado
onde desmancharei a vida futura,
onde serei sinistro como
                             o coito
                   dos girassóis.
 
III
 
Com essas mesmas palavras
dirijo a revolta dos deuses.
 
Aqui plantei um violino,
refiz donzelas, dei de beber aos planetas.
Ó realidade,
há séculos eu te procuro!
Nas regiões do dia e da noite
sou uma lâmina que respira.
 
O tempo amordaçado
me espera.
 
IV
 
Quero a palavra que traduza
a medicina dos anjos,
a virgindade anterior  ao pensamento.
Quero a nuvem que habita,
                                    não
          sua forma profanada.
 
Desta pirâmide
assistirei o absoluto desfolhar-se
como as grinaldas da tarde.
 
V
 
Minha morada é o silêncio.
Esta notícia que levo
já não diz que houve  lutas
                        entre o bem e o mal.
 
Sete trombetas proclamaram
a união das sementes:
Essas bodas  que iniciam
os tempos de danação.
Tanto remorso me engasga.
 
Adeus, mundo, eu não sou daqui.
 
Rio, 1966
 
 
Cacaso
In A palavra Cerzida 

05/09/2012

EM TEMPO DE NOTÍCIA



Para Ovidio Carlos de Brito
 
Deitado ao frio espero
a transição que já vem:
Galo rompendo luas
galopando entre marcas
que não ousam assentar.
Onde a noite me recolhe
em silente nostalgia
mando notícia dos meus:
A família se dissolve
e transborda mansamente,
dispersante além do frasco:
Insônia ramo partido
medo, tortura, asco.
A cada passo uma pena
a cada traço uma cena
desafia os meus olhos
nem duo de contrição.
E vou de mim despedindo,
aceno ao largo, na volta,
em mim mesmo que prescrevo
sinuosa afeição.
Sou mapa e não me desvendo, 
sou ilha e não me abraço.
Sou chama na saliência
deste incontido amor.
Peixe parindo rios,
cristal de minha ambição
que se recua a si mesmo
entre vísceras latentes
retidas no alçapão.
Terra de peixe: magia.
Sangue de peixe: noção.
Não era sangue nem terra
adubo de fina hera
e alga também não era
convergindo na feição.
Não era sangue e tingia
não era amor e doía
pungia no coração.
Que sombra já me pressente
e me nomeia até mesmo
onde não mando cartão?
Indago apontamentos
e me censuro e cerco
o que de mim esvoaça
sem formas de contenção.
Estou partindo: para onde?
Viajo pelo deserto
e sinto que vou morrer.
E  sinto voar a pena
ao longo de meus cabelos.
Agora estou livre e deito
numa planície minada.
Entre rios  cresce a chama
buscando uniformidade,
uma orquídea entre as ramas.
Em meus olhos cravejados
constroí o peixe  o retiro:
Fluir além das escamas.
 
Rio,1964
 
Cacaso
In A Palavra Cerzida
tela Justyna Koparina

CHUVA


 
 
"Chove e eu penso: haverá coisa mais viúva
que a saudade possuir olhos de chuva
e eu ter o coração de girassol?"
Cassiano Ricardo


Mais chove. E se chover soubesse
da enorme paz que me empresta,
não mais o sol, ainda que me desse
a luz essencial de sua festa.
 
Não mais cintila a luz que me aquece,
eu que me exponho em cada fresta.
Parte de dentro a razão: calor e prece
esta chuva é tudo que me resta.
 
Cismo na sala o queixo rente
e raras frutas dão notícia deste vento.
Mais chove. E a solidão furtivamente
 
em gotas flui também no pensamento.
Quem sabe não serei parte da chuva,
líquida noiva transformada em viúva?
 
Cacaso
In A palavra Cerzida
tela Leonid Afremov

NOTURNO MADURO



Nesta hora os deuses pensam.
O tempo se desenvolve
a partir da integração.
O mundo aguarda: Que será?
 
Vêm os planos, a aspiração,
e a descoberta tristíssima
do  nada. No sangue
a noite tornou-se um vício.
 
Este mergulho na treva
ainda é meu consolo.
Vida, que sei de ti?
Talvez nada, talvez nem isso...
 
Janelas espiam seios
e Raquel ainda é virgem
Na elaboração do eterno
nem a morte se atreve
 
Num quarto longe do mundo
sou um homem,
 
dolorosamente 
 
Rio, 1965
 
Cacaso
In A Palavra Cerzida
tela Olga Gouskova 

01/09/2012

MADRIGAL PARA UM AMOR




"A maior pena que eu tenho,
punhal de prata,
não é de me ver morrendo,
mas de saber quem me mata."
Cecília Meireles
 
 
Luz da Noite Liz da Noite
meu destino é te adorar.
 
Serei cavalo marinho
quando a lua semi  fátua
emergir de meu canteiro
e tu tiveres saído
em meus trajes de luar.
 
Serei concha privativa,
turmalina, carruagem,
Mas só se tu, Luz da noite,
teu delírio nesta margem
já quiseres  desaguar.
 
(Não te faças tão ingrata
meu bem! Quedo ferido
e meus olhos são cantatas
que suplicam não me mates
em adunco anzol de prata!)
 
E quando nós nos amamos
em nossa vítrea viagem
de geada e de serragem
pelo meio continente!
 
Luz da noite Lis da Noite
meu destino é te seguir.
 
Meu inábil clavicórdio
soluça pela raiz,
e já pareces tão farta
que nem sequer onde filtra
meu lado bom te conduz:
Minha amiga  vou fremindo
embebido em tua luz.
 
Rio, 1964
 
Cacaso
In A Palavra Cerzida 
tela Yuri Krotov

MADRIGAL PARA CECÍLIA MEIRELES



Quando na brisa dormias,
não teu leito, teu lugar,
eu indaguei-te Cecília:
Que sabe o vento do mar?
Os anjos que enternecias
romperam liras ao mar.
Que sabem os anjos Cecília,
de tua rota lunar?
Muitas tranças  arredias,
um só extremo ao chegar:
Teu nome sugere ilha,
teu canto: um longo  mar.
Por onde as ondas fundias
a face deixou de estar.
Vida tão curta, Cecília
pra que então tanto mar?
Que música mais tranquila,
quem se dispos a cantar?
São tuas falas, Cecília,
a barco tragando o mar.
Que céu escuro havia
há tanto por te espreitar?
Que alma se perderia
na noite de teu olhar?
Sabemos pouco, Cecília,
temos pouco a contar:
Tua doce ladainha,
a fria estrela polar
a tarde tem funesta trilha,
a trilha por terminar
precipita  a profecia:
Tão curta a vida, Cecília,
tão longa a rota do mar.
Em te saber andorinha
cravei tua imagem no ar.
Estamos quites, Cecília:
Joguei a estátua no mar.
A face é mais sombria
quanto mais  se ensimesmar:
Tão curta a vida, Cecília,
tão negra a rota do mar.
Que anjos e pedrarias,
para erguer um altar?
Escuta o coral, Cecília:
O céu mandou te chamar.
Os anjos com tantas liras
precisam do teu cantar.
Com tua doce ladainha
(vida curta, longo mar)
proclames a maravilha.
 
Cacaso
In A Palavra Cerzida     

EXPLICAÇÃO DO AMOR




O amor em seu próprio corpo
recebe os cacos que lança:
Diálogo de briga ou rinha
em tom de magia branca.
 
O amor, o dos amantes
é sangue da cor de crista:
Coagula insensívelmente
nas polifaces de um prisma.
 
O amor nunca barganha,
que trocar não é seu fraco:
Recebe sempre entornado
como a concha de um prato.
 
Amor não mata: previne
o que vem depois do susto:
Modela o aço e o braço
que vão suportar o muro.
 
O amor desconhece amor
sem ter crueza por gosto:
contempla-se diante do espelho
sem nunca ver o outro rosto.
 
Rio, 1963
 
Cacaso
Arte Camille Claudel

O MITO


 As palavras me evitam.
Reduzido em gesto, destilo
                                   carne.
 
Tão próximo do mundo
te compreendo, alma,
e conhecer me atesta a musical
                                           traição:
 
Fundir semblante e voo
livre de nome e existência.
 
Meu braço é meu poema.
Duração furgaz ou o impenetrável
                  escarlate,
póstumamente sobrevivo.
 
Rio 1965

Cacaso 
In A Palavra Cerzida 
tela Irina Kotova

14/08/2011

E COM VOCÊS A MODERNIDADE


Meu verso é profundamente romântico.
Choram cavaquinhos luares se derramam e vai
 por aí a longa sombra de rumores ciganos.

Ai que saudade que tenho de meus negros
verdes anos!

Cacaso
In Gemina Literatura

AH!


Ah, se pelo menos o pensamento não sangrasse!
Ah, se pelo menos o coração não tivesse memória!
Como seria menos linda  e mais suave
 minha história.

Cacaso
In Gemina Literatura

07/11/2010

MEDITAÇÃO























Com meu amor eu me envolvo felizmente.
Mas também me des
envolvo
Infelizmente?

Cacaso
In Lero lero
foto de Kim Anderson

24/03/2010


Mensch und Vogel by Joan Miro

Sonhei com um general de ombros largos
que rangia
e que no sonho me apontava a poesia
enquanto um pássaro pensava suas penas
e já sem resitência resistia.
O general acordou e eu que sonhava
face a face deslizei à dura via:
vi seus olhos que tremiam, ombros largos,
vi seu queixo modelado a esquadria
vi que o tempo galopando evaporava
(deu pra ver qual a sua dinastia)
mas em tempo fixei no firmamento
esta imagem que rebenta em ponta fria:
poesia, esta química perversa,
este arco que revela e me repõe
nestes tempos de alquimia.

Cacaso

15/07/2009


Blue Monday by Gerry The Cat


Em que céu de azul celeste
o amor que tu me deste?

Em que ilha do pacífico
eu perdi o meu carinho?

Em que chão contaminado
meu amor está gravado?

Em que mar de água doce
o amor que a água trouxe?

Em que meio, em que cidade
ficou minha liberdade?

Em que mão de namorada
o meu tudo virou nada?

Em que curva da montanha
o amor que não se ganha?

Em que estrela, em que astro
não conduzo o meu rastro?

Em que sede, em que fome
a tristeza me consome?

Em que nódoa da distância
desfalece minha infância?

Em que tempo , em qual muro
se antecipa meu futuro?

Em que fruta sem semente
vou vivendo meu presente?

Cacaso
In Poesia Sempre

11/05/2009


Foto de Perfeições e Imperfeições

A FONTE

Fonte da saudade
toda essa água tão limpinha
toda canção que ninguém fez
coisa sem porquê e sem destino
não avisa quando vem
quando vai...
passou a vida inteira
a fonte não secou
pra que lugar, me diga
foi o meu amor, ah!
passou a noite inteira
essa noite serenou
o meu bem dormiu comigo
e a gente acordou
fonte da saudade
onde deságua tão limpinha
toda canção
que ninguém fez
coisa sem porquê e sem destino
não avisa quando vem
quando vai
deságua...

Cacaso
In Beijo na boca e outros poemas

24/09/2008


by Kin Anderson

AVE

Sei, muitas vezes sou aéreo
mas levo muito a sério
as razões do coração
sei que é difícil ser sincero
às vezes eu te quero
às vezes não sei não
ando tão pobre de carinho
revendo os caminhos
passando a solidão
passa, nem tudo dá no mesmo
ainda agora mesmo
não sei se pode ser

sei, você é tão suave
é a sombra de uma ave
deslizando pelo chão
sei, não sei se já é tarde
a flor da sua idade
é tanta sedução
sabe, até andei pensando
quem sabe até quando
quem sabe até por que
olha, não deixa eu ser covarde
eu dei dessa verdade
eu gosto de você
eu sei

Nelson Angelo e Cacaso

by Kim Anderson

GRUPO ESCOLAR

Sonhei com um general de ombros largos
que rangia
e que no sonho me apontava a poesia
enquanto um pássaro pensava suas penas
e já sem resistência resistia.
O general acordou e eu que sonhava
face a face deslizei à dura via:
vi seus olhos que tremiam, ombros largos,
vi seu queixo modelado a esquadria
vi que o tempo galopando evaporava
(deu pra ver qual a sua dinastia)
mas em tempo fixei no firmamento
esta imagem que rebenta em ponta fria:
poesia, esta química perversa,
este arco que revela e me repõe
nestes tempos de alquimia.

Cacaso

by Anderson Kim

TERCEIRO AMOR

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou
como passam os afluentes
como passam as correntes
que desencontram do mar
Como qualquer atitude
também passa a juventude
que nem findou de chegar

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou
como passam os espelhos
como passam os conselhos
ilusões de pedra e cal
Como passam os perigos
e tantos muitos amigos
sem deixar nenhum sinal

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou
como passam as gaivotas
as vitórias as derrotas
fantasias carnavais
as inocências perdidas
como passam avenidas
corredores temporais
A correnteza dos rios
como passam os navios
que a gente acena do cais

Cacaso

20/09/2008


Foto de Jorge Martínez

SE PORÉM FOSSE PORTANTO

Se trezentos fosse trinta
o fracasso era um portento
se bobeira fosse finta
e o pecado sacramento
se cuíca fosse banjo
água fresca era absinto
se centauro fosse anjo
e atalho labirinto
Se pernil fosse presunto
armadilha era ornamento
se rochedo fosse vento
cabra vivo era defunto
se porém fosse portanto
vinho branco era tinto
se marreco fosse pinto
alegria era quebranto
se projeto fosse planta
simpatia era instrumento
se almoço fosse janta
e descuido fosse tento
se punhado fosse penca
se duzentos fosse vinte
se tulipa fosse avenca
e assistente fosse ouvinte
se pudim fosse polenta
se São Bento fosse santo
dona Benta fosse benta
e o capeta sacrossanto
se a dezena fosse um cento
se cutia fosse anta
se São Bento fosse bento
e dona Benta fosse santa.

Cacaso