Futebol se joga no estádio? Futebol se joga na praia, futebol se joga na rua, ...
futebol se joga na alma. A bola é a mesma: forma sacra para craques e pernas-de-pau. Mesma a volúpia de chutar na delirante copa-mundo ou no árido espaço do morro. São voos de estátuas súbitas, desenhos feéricos, bailados de pés e troncos entrançados. Instantes lúdicos: flutua o jogador, gravado no ar — afinal, o corpo triunfante da triste lei da gravidade.
Carlos Drummond de Andrade ( De Poesia errante, 1988)
A dor habita em nós, o cravo a ignora.
A vida, uma gavota? Pura dança
o amor? No minueto de Lully
cabe a dificuldade de existir?
Quinta-essência do angélico, no caos,
paira a graça de Mozart sobre o abismo,
sem devassá-lo - pássaro de nuvem.
O tempo é outro metal, a comburir-nos.
Urge romper o gosto, a norma límpida,
e sangrentas estilhas do momento
passar à forma nobre da sonata.
Urge extrair do piano o som dramático.
E suscitar o diálogo patético
entre piano e violino, qual se escuta,
na penumbra da alma, a duas vozes,
um rumor de paixão se entretecendo.
Eis que a música deixa de ser pura.
Os serafins e os elfos se despedem.
A terra é lar dos homens, não dos mitos.
Há de desmascarar nosso destino.
Em tatear incessante, no conflito
corpo a corpo entre o ser e a contingência,
nova música, ungida de tristeza
mas radiante de força, vem ao mundo.
Luta o homem na área desolada
de sua solidão; luta no palco
fremente de contrastes, percebendo
que pouco a pouco cerram-se os espaços
da percepção, e tudo se limita
à captação interna, de sinais
silentes, impalpáveis, invisíveis,
nunca porém tão vivos se captados.
Á proporção que a dor aumenta, e em volta
nega-lhe o amor seus bálsamos terrestres,
ganha requinte a fábrica sonora
de eternizar a vida breve em arte.
Es nuss sein! É preciso! Na amargura,
na derrota do corpo, sublimada,
a canção do heroísmo e da alegria
resgatam nossa mísera passagem.
E entreabre a sinfonia suas palmas
imensas, a conter todo o rebanho
de perplexos irmãos, de angustiados
prospectores de rumo e de sentido
para a sorte geral. O homem revela-se
na torrente melódica, suplanta
seu escuro nascer, sua insegura
visão do além, turva de morte e medo.
Ó Beethoven, tu nos mostraste o alvorecer.
Carlos Drummond de Andrade
In Discurso de Primavera e Algumas sombras
foto de Christian Revival Network
O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventre te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura,promoção,glória,doce morte com
[sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.
O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...
Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo.Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles...e nenhum resolve.
Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está emtupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa,mortal,sub-reptícia.
É talvez o menino
suspenso na memória.
Duas velas acesas
no fundo do quarto.
E o rosto judaico
na estampa, talvez.
O cheiro do fogão
vário a cada panela.
São pés caminhando
na neve, no sertão
ou na imaginação.
A boneca partida
antes de brincada,
também uma roda
rodando no jardim,
e o trem de ferro
passado sobre mim
tão leve: não me esmaga,
antes me recorda.
É a carta escrita
com letras difíceis,
posta no correio
sem selos e censura.
A janela aberta
onde se debruçam
olhos caminhantes,
olhos que te pedem
e não sabes dar.
O velho dormindo
na cadeira imprópria.
O jornal rasgado.
O cão farejando.
A barba andando.
O vento soprando.
E o relógio inerte.
O cântico de missa
mais do que abafado,
numa rua branca
o vestido branco
revoando ao frio
O doce escondido,
o livro proibido,
o banho frustrado,
o sonho do baile
sobre chão de água
ou aquela viagem
ao sem-fim do tempo
lá onde não chega
a lei dos mais velhos.
É o isolamento
entre às castanhas,
a zona de pasmo
na bola de som,
a mancha de vinho
na toalha bêbeda,
desgosto de quinhentas
bocas engolindo
falsos caramelos
ainda orvalhados
do pranto das ruas.
A cabana oca
na terra sem música.
O silêncio interessado
no país das formigas.
Sono de lagartos
que não ouvem o sino.
Conversa de peixes
sobre coisas líquidas.
São casos de aranha
em luta com mosquitos.
Manchas na madeira
cortada e apodrecida.
Usura da pedra
em lento solilóquio.
A mina de mica
e esse caramujo.
A noite natural
e não encantada.
Algo irredutível
ao sopro das lendas
mas incorporado
ao coração do mito.
É o menino em nós
ou fora de nós
recolhendo o mito.
Carlos Drummond de Andrade
In A Rosa do Povo
tela de Lavinia Hamer
Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo
[nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certezas e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.
Diálogo com o ser amado
o semelhante
o diferente
o indiferente
o oposto
o adversário
o surdo-mudo
o possesso
o irracional
o vegetal
o mineral
o inominado
Diálogo consigo mesmo
com a noite
os astros
os mortos
as ideias
o sonho
o passado
o mais que futuro
Escolhe o teu diálogo
e
tua melhor palavra
ou
teu melhor silêncio
Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.
Carlos Drummond de Andrade
In Música de Fundo
foto de AlicePopkorn no Flickr
O ser busca o outro ser, e ao conhecê-lo
acha a razão de ser, já dividido.
São dois em um: amor, sublime selo
que à vida imprime cor, graça e sentido.
"Amor" - eu disse - e floriu uma rosa
embalsamando a tarde melodiosa
no canto mais oculto do jardim,
mas seu perfume não chegou a mim.
Carlos Drummond de Andrade
In Amar se Aprende Amando
tela by Claude Monet
06/03/2010
"Quero sentir tua mão amiga, junto a minha no prazer, na dor. Assim, mesmo entoada a última cantiga, um som há de restar do nosso amor."
"Que fiques boa depressa de alergia ou qualquer dor, mas que nunca sares dessa doença de amar-me,Amor!"
"Este longo caminho percorrido lado a lado, nos bons e maus momentos, faz de nós dois um ser unificado pelos mais fundos, ternos sentimentos"
"Flui a vida como água, como água se renova. Se a vida me foge, afogo-a em cada esperança nova."
Carlos Drummond de Andrade In Poesia Errante
03/02/2010
Foto de barandalla no Flickr
DEUS, BRASILEIRO?
Somos pecadores, porém Cristo perdoa, lá do alto da montanha, a escuridão de nossos pecados.
Somos pecadores, mas prostamo-nos ante a infinita benevolência de Deus, nosso criador e responsável.
E quando o sol de ouro irrompe na ressurreição do dia e da carne, sentimo-nos puros, pecadores privilegiados por Deus, que é brasileiro ou talvez carioca.
Carlos Drummond de Andrade In Blog Labirinto Perdido