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23/12/2011

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Caminho devagar nas minhas sandálias,
pouco mais desejo,
mas não sei se caminho devagar
nas minhas sandálias. Ontem foi
dia de temporal, montes ruiram
sobre casas de cartão, famílias ficaram
soterradas.Por um momento
a água recuperou
as suas veias - Poderei olhar
e ouvir como se fosse apenas
um poeta? Poeta sou apenas quando, raramente,
escrevo - no resto do tempo arrasto-me
nas minhas patas de pobre cão desamparado
em busca de um osso, uma pedra
que ensine
a arte da queda.Caminho devagar
entre as ruínas de um deus
que ficou sentado. Talvez possa
encostar-me um pouco
ao milénio que vai nascer.Enquanto começo
a cair, a resvalar
sobre os meus irmãos que ficaram
pelo caminho.

Casimiro de Brito
In Música do Mundo
foto por Butterfly Psyche

31/03/2011


















Se o mundo não tivesse palavras
a palavra do mar, com toda a sua paixão,
bastava. Não lhe falta
nada: nem o enigma nem
a obsessão. Entregue ao seu ofício
de grande hospitaleiro
o mar é um animal que se refaz
em cada momento.
O amor também. Um mar
de poucas palavras.

Casimiro de Brito
In Livro das Quedas
foto por dgaponenko
















Quando livros já não tiver
lerei as estrelas -
quando elas se cansarem
da minha solidão
lerei a palma
da mão.

Casimiro de Brito
In Arte Pobre
foto de Don Briggs

26/08/2010

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Escrevo pássaros e  nada sei
do corpo deles nem das suas
inclinações - nada sei do amor
tão pleno de falsificações. Se canto,
se escrevo assim às escuras na noite
do meu lençol
é porque não sei incorporar
os ruídos, os buracos da casa
nem olhar para o lado
e ver por dentro
o rosto amado, o sono
da filha - o sabor
da passagem do tempo.

Casimiro de Brito
In Música do Mundo
tela by Wilfred Bailey 

28/02/2010


Sea Breeze by L. Lombardo

APENAS AREIA

Sou o pó
E vou no vento

Através de rios
E montes
Vou no vento

E talvez eu pouse
Talvez encontre

O mel as areias
Do teu corpo
Trazidas pelo vento.

Casimiro de Brito
In Blog Fogo Maduro

21/12/2009


1911 by John William Waterhouse

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Na terra em que tudo dorme
o sonho é a única matéria
que separa os dias das noites -

une e separa.

O tema é simples quem espera
que o barco do sono seja na vida
o melhor veículo verá que em breve

o fruto cai.

Os frutos visíveis e os invisíveis
que nada sabem da velha árvore
onde nasceram e de onde caíram

para nunca mais.

Pois o acaso é mãe das coisas
e multiplica-se em dez mil quedas
como se houvesse um espécie de luz

na cascata escura.

Casimiro de Brito
In Música do Mundo

06/10/2009


Foto de 阿剑 no Flickr

NÃO ESCOLHO NADA DEIXO-ME VESTIR

Não escolho nada deixo-me vestir
Pela música discreta que tacteia
Meu corpo em sua breve caminhada.

Não desejo nada consinto apenas
Que a dor me visite e a jovem ceifeira,
Mãe das coisas todas, me seduza.

Não escolho nada nem sequer o vaso
Onde me derramo devagar
Como se fosse água, ou leve lume.

Casimiro de Brito
Na Via Do Mestre

28/07/2009


Foto de heylover

REVELAÇÃO

Há certos instantes do corpo em que tudo
Se revela subitamente: Na ruga em que nunca
Reparaste; no ladrar de um cão na noite branca
Da infância; na jarra de estanho onde se reflectem
As águas do rosto: Um rosto, um olhar que se detém
Um longo instante: Como se a história de um homem
Ficasse escrita de um momento para o outro;como
Se um sinal definitivo se tivesse inscrito
Num écran imaginário; e tudo ficasse confundido,
O corpo e a terra toda, nessa pedra detentora
Do sabor e da morte: O que vejo é um espelho
Onde se acolhem as aves do silêncio.

Casimiro de Brito
In Música do Mundo

26/07/2009


by Pablo Picasso » Guernica

Os príncipes fazem a guerra
Mas é o povo quem atravessa
O deserto, e tábuas desamigas.
A quem prometeram ouro & ébano
Restam apenas o cisco & a cólera.
Quando a guerra findar outra doença
Nascerá, flor púrpura, quando
Em caves de pedra a palavra
Hibernar.Quem vive tapa os ouvidos
Aos carros que levantam a poeira
Nos campos do meio-dia.Arde o ar.
Ardem árvores no meio do caminho.

Casimiro de Brito
In Música do Mundo

12/05/2009


Foto de land.nick

Houve um tempo em que eu dizia
em versos gravados na boa pedra,
A morte não existe.Existia.
À sombra do pó acumula-se
o reflexo dos espelhos
tantas vezes quebrados, estilhaçados
no chão dos dias.Leio
o pálido fogo
na pele das coisas que me tocam
leves - partículas
de chumbo que se vão instalando
na flor dos ossos. Houve um tempo
em que eu dizia,
lírica filosofia,
que a morte vai com as aves e vem
com os rios.Não sabia
que tambémn os meus olhos partem tristes.

Casimiro de Brito
In Música do Mundo

Foto de land.nick

SIM.JÁ É TARDE

Adeus, amiga, já é tarde,
estou cansado
e não tenho mais poemas
nas gavetas da alma.
Enquanto a loba não vem
vou sentar-me o sol
e ver a relva crescer
no rosto da minha filha
para quem um bago de arroz
é uma pequena maravilha.Mais doce do que versos
são as tardes de inverno quando o sol
anuncia a primavera -
ah mas eu também ouço
a outra menina
que devagar, muito devagar,
já se aproxima.

Casimiro de Brito
In Música do Mundo

Foto de land.nick

UM SORRISO TRANQUILO

Um sorriso tranquilo e subitamente
a casa cai
pólen arrastado
por ventos em sobressalto e raízes
no ar. Um sorriso de linho
pois não sei reunir os sentidos
a febre das abelhas
recém-nascidas. O corpo reproduz
o bolor da água
cantata desprendida
do chão onde pousam
os pássaros da ternura. Ou
o vento, a asa do vento,
um pouco de sono imitando
as aves que passaram.

Casimiro de Brito
In Música do Mundo

04/02/2009


Foto de Andre Adeodato / Mendes Jr

Amo em ti o medo
de morrer, folha
que vai caindo
no meu olhar, entre a luz
e o pó
o pó e a cal
da minha morte.Nua
e acolhida
à sombra da árvore que passa.

Casimiro de Brito
In Intensidades

Foto de Andre Adeodato / Mendes Jr

Cuidado.O amor
é um pequeno animal
desprevenido , uma teia
que se desfia
pouco a pouco.Guardo
silêncio
para que possam ouvi-lo
desfazer-se.

Casimiro de Brito
In Intensidades

Foto de aroldo_golinelhi

Meus pensamentos são nómadas
e vagarosos
como a água que vem da montanha
e não sabe nada
do coração dos homens.O meu, por exemplo,
tem a leveza do vento
e corre para casa como se fosse
um cão que precede
os passos do dono.

Casimiro de Brito
In Intensidades

05/01/2009


foto de Giovanni88Ant

OS OUTROS

Os outros que vivem comigo
Estão cheios de carências e têm medo
Do dia que vai nascer

Os outros que vivem comigo
Compram e vendem coisas idéias sentimentos
Como quem muda de pele todos os dias

Só eu estou tranquilo e não digo nada
Porque não estou numa festa num campo de batalha
E não preciso de sorrir a ninguém de morder
Ninguém de fazer sinais
Que me prendam aos outros

Os outros que vivem comigo
Correm de um lado para o outro agitam-se
E não encontram o caminho
Mas eu não corro para lado nenhum
Ouço a carne viva das águas o cerne
Que vem do fundo o caminho que nunca
Me abandona

Talvez eu seja ignorante
Talvez a minha mente seja como a mente
De um louco
Talvez eu seja apenas um espelho
Que nada recusa nem aprisiona
Mas os outros que vivem comigo
Estão cheios de carências e vão morrer
Porque não sabem que transportam em si
O vaso e a semente.

Casimiro de Brito
In Música do Mundo

20/12/2008


Foto de JustABigGeek

FUGA

Alto estou a teu lado
no verão deitado
Alto no esplendor de possuir-te

e trocarmos silenciosamente
os frutos mais fundos da morte

Como se navegasse um rio
por dentro
e na tua fragilidade encontrasse
a minha força

Um caminho rigoroso de silêncio

Casimiro de Brito
In Ode & Ceia (Poesia 1955-1984)

04/10/2008


Foto de Luigi

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A contemplação da morte salva os homens,
dizia Epicuro. Ainda não sei
o que fazer, vou contemplando
os campos em volta, os vinhedos, os
moinhos e trago-te minha amiga
um ramo de orégãos — coisa melhor não tiveram os deuses
quando deuses houve. Orégãos
e cristais coloridos
nestas mãos que detêm o segredo
do ar bravio. Com elas te acaricio
antes que a terra me ofereça
outros tesouros. Cair assim
é uma espécie de flutuação que salva
quem não espera salvação nenhuma.
Quando os corpos se amam
eleva-se um templo invisível
onde a fúria se instala —
nem só de vinho
se embriaga um homem.

Casimiro de Brito

26/09/2008


Ocean's Edge by David Schock

APENAS PAIXÃO

A voz que se levanta o ruído
Hasteado na brisa
Que me toca nos ombros
A tua boca as tuas mãos de água
Ora deslizante ora íntima sedentária
O vento breve que me esculpe em músculos
Cada vez mais sensíveis
A onda que no ar se acende
Entre o rumor da história e o cheiro das tílias
A carne que vai morrer mas também
O suor o sabor de quem amo
E bebo
E canto
Para que não se perca nada
Para que nada se perca enquanto
O meu sexo amaciado nas tuas águas
Se ajuste à curva do céu
E o meu dorso esmagado pelo dorso do mundo
Encontre no chão da casa o repouso
De quem não tem repouso apenas
Paixão.

Casimiro de Brito

25/09/2008



Quem amou ainda ama,
vai ouvir a vida inteira a canção furtiva.
vai ouvi-la e cantá-la
ao acaso dos ventos que trazem
do Ocidente e do Oriente
árvores e respirações animais
que supuram a febre do mundo - quem amou
ainda ama, vai cantar a vida inteira
o ninho de mulheres onde se reúnem
a terra e o céu, vai aceitar
o domínio das águas sedentas
sobre o osso e a pedra: o grande ofício
é transformar a terra em osso
e o osso em carne
desamparada. Quem amou
não sabe nada, vai cair
a vida inteira. Mas que força é essa, se não é
um saber? Um saber de bocas invisíveis
e do enigma das águas que são álcool
da carne e pássaro que regressa
ao ninho da mãe. Quem amou
vai amar a vida inteira.

Casimiro de Brito