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25/09/2008


Titanic

Acredito em Deus no seu enigma
solar embora o negue
todos os dias. Acredito na dor
difusa do nada: ascese
e nervura de faca. Acredito na aura
do amor e nela
me perco e teço: um deus
por conhecer
que reside no corpo desabrigado
da minha amada.

Casimiro de Brito
In Música do mundo

17/09/2008


Foto de Jose Ferreira Jr.

AMOR SOLAR

Cansado dos homens afasto as nuvens
Em busca de uma árvore onde eu possa
Beber em paz e em paz
Construir o meu ninho. Ali
No tronco mais silencioso da grande casa
Não sou cidadão de país nenhum
Pai de nenhuma família
Sou apenas o cão mais humilde
Do mundo que há para além do mundo
Onde se medem ao milímetro
O bem e o mal. Nesse pátio
já não estou afastei-me
Quando perdi o sentido do peso
E das medidas - quando alguém me disse
e eu vi
Que numa gota de vinho há dez mil anos
De amor solar.

Casimiro de Brito

Foto de dav_riveroll

LIÇÃO DE BUDA

Não creias em nada
Não creias em nada seja qual for o livro
Que tenhas lido a pedra
Onde esteja gravado
Não creias em nada seja quem for
Que te tenha dito

Não creias em nada
Ainda que eu próprio o tenha dito
Não creias em nada
A não ser que a tua mente a tua razão
Em vazio desfeita
Tenha dissolvido o sim e o não

Não creias em nada
Sequer no vaso onde se fundem a noite
As estrelas e as águas do mar
Que nada são nada sabem
Porque não há nada
Que se possa segurar.

Casimiro de Brito

16/09/2008


by Philip Leslie Hale

Eu não sei o que faço aqui
sei que faço alguma coisa
pequenas coisas sem importância
às vezes aborreço-me não é grave
fico apenas um pouco mais triste
depois levanto a cabeça
os ombros vacilam
transporto uma loba mas não sei até quando
uma loba que vai deixando o pelo
na casa do poema na cave acumulada
por um sábio que não sabe nada
nem cuidar de si nem cuidar
dos homens —
aparentemente foi tudo morrendo
neste reino de pequenos casamentos
de conveniência: ficaram
a insânia sem garganta e figuras de musgo
que não conhecem a separação entre o ser
e as nuvens
as nuvens que envolvem
os caminhos do corpo
as pegadas de um vírus que não cessa de
cantar o pó, tão fácil
de soprar. Chove. A chuva
pede que me cale.

Casimiro de Brito

15/09/2008


by Gustav Klimt (1862 – 1918)

6

Entro no teu corpo árvore
felina
como quem visita um templo
vegetal uma ilha impregnada
pelas especiarias mais raras
do sol e do mar. Ascendo em bocas
que bebem a minha seiva em dunas
que me lavam e queimam
humildes. Armas tão frágeis
as que temos: o mel a saliva o
sémen. Caminho
na luz obscura
com as mãos vazias
de quem nasce de novo.

Casimiro de Brito
In Opus Affettuoso
1997

by Zhiwei Tu

1

Amo-te porque não me amo
inteiramente. O que me falta
é infinito
mas tu és do bem que me falta
o enigma onde se condensam
a terra e o sol o ar as águas
invioladas
e tenho a boca cheia
de música ondulação
do teu silêncio.

Casimiro de Brito
In Opus Affettuoso
1997

by Zhiwei Tu

DO POEMA

O problema não é
meter o mundo no poema; alimentá-lo
de luz, planetas, vegetação. Nem
tão-pouco
enriquecê-lo, ornamentá-lo
com palavras delicadas, abertas
ao amor e à morte, ao sol, ao vício,
aos corpos nus dos amantes —

o problema é torná-lo habitável, indispensável
a quem seja mais pobre, a quem esteja
mais só
do que as palavras
acompanhadas
no poema.

Casimiro de Brito
In Canto Adolescente

13/09/2008


Herbert Thomas Dicksee

14

Quantas vezes caminhei pela praia
à espera que viesses. Luas
inteiras. Praias de cinza invadidas
pelo vento. Quantas estações quantas noites
indormidas. Embranqueceram-me
os cabelos. E só hoje
quando exausto me deitei em mim
reparei
que sempre estiveste a meu lado.Na cal frágil
dos meus ossos.Nas hastes do mar
infiltradas no sangue. Na película
dos meus olhos quase cegos.

Casimiro de Brito
In Música do Mundo

07/09/2008


Foto de Eduardo Azeredo

241

Quando me aproximo do mar
tudo me parece aceitável.
As ondas são folhas que vão
a caminho da perfeição.
Perfeito é pois quem do tempo
tem a longa paciência —
também a tenho quando escuto
a nervura mágica de tudo,
um tudo feito de sombras
que amaciam a pedra luminosa
que todas as coisas são.
Saltando de estação para estação
como se o caminho se fizesse,
sereno, entre o mar e o céu.
As ondas que vejo cair
também as sinto nas areias de mim
como se tudo, na barca deste mundo,
fosse mar e luz.
Por isso a minha vida é intensa
e velha como a paciência
que não cessa de se renovar
no sangue da pedra, e das aves.

Casimiro de Brito

Foto de aninhadaguiar

18

Toco a fonte
como um vento que separa as flores secas
das raízes humildes dos últimos
jardins – como as lágrimas felizes
bebo o teu perfume, minha promessa
de vinho. Procuro nos caminhos secretos
o fim do luto, o silêncio dos abismos tranquilos
onde a sombra do lago é uma metáfora
esquecida. Entro
na ardência oculta
saboreando a migração das noites brancas.
O meu sangue converte-se em laranja.
E tu, meu amor, o que esperas tu,
do navegador das trevas?

Casimiro de Brito

Foto de Eduardo Azeredo

26

Entraste na casa do meu corpo,
desarrumaste as salas todas
e já não sei quem sou, onde estou.
O amor sabe. O amor é um pássaro cego
que nunca se perde no seu voo.

Casimiro de Brito

Just the Two of Us by Selime

322

Só quem sofreu durante muito tempo
poderá escrever um poema de amor.
Chega o dia em que o som do vento
e a febre das folhas que vão caindo
já não trazem desgraça, apenas o sussurro,
a perdição amável de quem vive
a sombra e o verão. Assim viajo
até ao voo derradeiro
para dentro da pedra — um ovo!
E voar de novo, “à barca, à barca (…) oh, que maré
tão de prata!” — e cantar de novo,
de pedra em pedra, de ovo em ovo.
Faça-se então
o ofício da dor. Talvez me seja dado
um poema de amor.

Casimiro de Brito

Thoughtful by Selime

13

Quando ele te acenar, segue-o”, diz Khalil Gibran sobre o amor. Outra coisa não faço sabendo embora (entre ruínas) que os outros, os que dependem de nós, não podem ser arrastados na cheia desta paixão. Há um coração despedaçado que paira sobre umas montanhas distantes debruçadas sobre um mar antigo. Lá de cima, quando estive na cabana de Khalil, via apenas o azul mediterrânico e a complacência dos montes. A dor ainda não se havia misturado com o desejo.

Casimiro de Brito

by villiard - amour-pandas

32

A paixão amorosa é uma amizade (uma conciliação a dois) levada até à loucura. É mais do que viver o instante sem porém deixar de gozar e de sofrer cada nuance do instante. Amor é o desejo que me causa a tua beleza total, sempre movendo-se, e que respeito. Quero dizer: se a mulher que amo já não me ama com igual intensidade devo partir porque na minha concepção amor é o que se vive entre iguais, ao mesmo tempo, ainda que lhes seja imposta uma separação. Se me dizes que o amor é irreal e fantasmagórico e que tens medo ao mesmo tempo que te abres, tudo bem; se te fechas também estará bem pois o amor é um pássaro, ou devia ser, só preso à sua liberdade. Por isso estou sempre a dizer-te adeus, e tu a mim.

Casimiro de Brito

25/08/2008


Foto de Hélder Cotrim

33

As gaivotas da manhã acordaram-me. O canto
é delas ou foi recolhido
nas águas? Um raio
de sol atravessa o quarto e trepa hesitante
pela cama; deita-se conosco
como se fosse um gato. Estendo a árvore
flexível do corpo
e penso como é bom esquecer-me da idade
e dos outros e do mundo
que felizmente se esquece muitas vezes
de mim. Não sei de que lado estou se
me deitei
à direita ou à esquerda
da minha amiga. Agrada-me
o rumor dela
quando se aconchega ao meu corpo
sem ter ouvido ainda o piar das gaivotas
nem as patas perfumadas do sola nosso lado.

Casimiro de Brito
In Opus Affettuoso