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06/06/2009


foto de kaycatt*

NOÇÕES

Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.

Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.

Virei-me sobre a minha própria experiência, e contemplei-a.
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.

Ó meu Deus, isto é minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera...

Cecília Meireles

30/05/2009


Foto de  Murilo78

Ó NOITE, negro piano,
- os sonhos soam longe,
num teclado caído
pelo fundo horizonte.

À música se inclina
o pensamento insone:
em que clave se escreve
o itinerário do homem?

(Mas as brisas celestes
que se abraçam na noite
põem folhas de silêncio
na vaporosa fronte...)

Ó música sonhada,
- por que não corresponde
o desenho que vives
à vida que te sonhe...?

Cecília Meireles
In Canções

Foto de magrufloriano

A MINHA PRINCESA BRANCA

ESTENDO os olhos aos mares:
Elas anda pelas espumas...
- Serenidades lunares,
Tristezas suaves de brumas...

Ela anda nos céus vazios,
Em brancas noites morosas:
Mira-se na água dos rios,
Dorme na seda das rosas...

Passa em tudo, grave e mansa...
E,do seu gesto profundo,
Solta-se a grande esperança
De coisas fora do mundo...

Por sobre as almas vagueia:
Almas santas... Almas boas...
É um palor de lua cheia,
Na água morta das lagoas...

Quando contemplo as encostas,
De alma ansiosa por vencê-las,
Vejo-a no alto, de mãos postas,
Muda e coroada de estrelas...

E vou, sofrendo degredos,
A dominar os espaços...
Só quero beijar-lhe os dedos
E adormecer-lhe nos braços!

Cecília Meireles
In Poemas dos poemas

16/05/2009


Foto de Marcos Fontes

MARCHA

As ordens da madrugada
romperam por sobre os montes,
nosso caminho se alarga
sem campos verdes nem fontes.
Apenas o sol redondo
e alguma esmola de vento
quebram as formas do sono
com a idéia do movimento.

Vamos a passo e de longe;
entre nós dois anda o mundo,
com alguns vivos pela tona,
com alguns mortos pelo fundo.
As aves trazem mentiras
de países sem sofrimento.
Por mais que alargue as pupilas,
mais minha dúvida aumento.

Também não pretendo nada
senão ir andando à toa,
como um número que se arma
e em seguida se esboroa,
- e cair no mesmo poço
de inércia e de esquecimento,
onde o fim do tempo soma
pedras,águas,pensamento.

Gosto da minha palavra
pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando é linda, amarga
como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga, é tudo
que tenho, entre o sol e o vento:
meu vestido, minha música,
meu sonho e meu alimento.

Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudade;
tenha visto muita coisa,
menos felicidade.
Soltam-se os meus dedos tristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
já me dá contentamento.

Como tudo sempre acaba,
oxalá seja bem cedo!
A esperança que falava
tem lábios brancos de medo.
O horizonte corta a vida
isento de tudo, isento ...
Não há lágrima nem grito:
apenas consentimento.

Cecília Meireles
In Melohores Poemas

12/05/2009


Foto de land.nick

LINHA RETA
A Cassiano Ricardo

Não tenteis interromper o pássaro que voa em linha reta
de leste a oeste. Alto e só.

Não lhe pergunteis se avista cidades, mares, pessoas
ou se tudo é um liso deserto.Vasto e só.

Ele não passa para contemplar essas coisas do mundo.
Ele vem de leste, ele vai para oeste. Alto e só.

Ele vai com sua música dentro dos olhos fechados.
Quando chegar ao fim, abrirá os olhos e cantará sua música.
Vasta é só.

Cecília Meireles
In Melhores Poemas

30/03/2009


Foto de juliobombarda

HOJE DESAPREENDO O QUE TINHA APRENDIDO ATÉ ONTEM

Hoje desapreendo o que tinha aprendido até ontem
e que amanhã recomeçarei a aprender.
Todos os dias desfaleço-me em cinza efêmera
todos os dias,reconstruo minhas edificações, em sonho eternas.

Esta frágil escola que somos, levanto-a com paciência
dos alicerces às torres,sabendo que é trabalho sem termo.

E do alto avisto os que folgam e assaltam, donos
do riso e pedras.

Cada um de nós tem sua verdade, pela qual deve morrer.

De um lugar que não se alcança, e que é , no entanto claro,
minha verdade, sem troca,sem equivalência nem desengano.

Permanece constante, obrigatória, livre:
enquanto aprendo, desaprendo e torno a reaprender.

Cecília Meireles
In O Estudante Empírico

15/02/2009


Foto de TELPortfolio

ADEUSES

Dia de cristal
cercado de vultos brancos:
pés descalços,
finas barbas,
longas vestimentas pregueadas.

Mulheres com olhos de deusas
transbordando um majestoso silêncio.

Luz em copos azuis.
Lábios em oração.
Mãos postas.

Dia de cristal
claro, dourado,
e óleo.

Foi muito longe,
num palácio de inúmeras varandas,
com árvores cheias de flores pela colina.

O vento subia dos jardins para as salas
com a fluidez de um visitante jovial.
E com que leveza dançava,
abraçado às cortinas, às sedas,
aos véus, à luz!...

Sabíamos que os encontros jamais se repetem,
nem a emoção do alto amor.

Éramos todos de cristal e vento,
de cristal ao vento.

E andavam nuvens de saudade por cima dos jardins.

Tão grande, o mundo!
Tão curta, a vida!
Os países tão distantes!

E alma.
E adeuses.

Cecilia Meireles

27/01/2009


Foto de nikhari/ Krishna

MÚSICA

Ia tão longe aquela música,Bhai!
E o luar brilhava.Mas por mais que o luar brilhasse,
não se sabia quem tocava e em que lugar.

Pelos degraus daquela música,Bhai,
podia-se ir além do mundo, além das formas,
e do arabesco das estrelas pelo céu.

Quem tocaria pela solidão,Bhai,
na clara noite - toda azul como o deus Krishna -
alheio a tudo, reclinado contra o mar!

Ia tão longe a tênue música,Bhai!
E era no entanto uma pequena melodia
tímida,triste, em dois ou três límpidos sons.

Tão frágil sopro em flauta rústica, Bhai!
- como o da vida em nossos lábios provisórios...
- amor? queixume, pensamento? - nomes no ar...

Ele tocava sem saber que o ouvido,Bhai,
podia haver acompanhado esse momento
da sua rápida presença em frágil voz.

E ia tão longe aquela música,Bhai!
Com quem falava, entre a água e a noite? e que dizia?
(Da vida à morte, que dizemos, Bhai, e a quem?)

Cecília Meireles
In Poemas Escritos na Índia

Foto de yoshiko314

De longe te hei de amar,
- da tranquila distância
em que o amor é saudade
e o desejo,constância.

Do divino lugar
onde o bem da existência
é ser eternidade
e parecer ausência.

Quem precisa explicar
o momento e a fragrância
da Rosa, que persuade
sem nenhuma arrogância

E, no fundo do mar,
a Estrela, sem violência,
cumpre a sua verdade,
alheia à transparência.

Cecília Meireles
In Canções

Foto de izanette

O SOL ESTÁ NUMA TAL POSIÇÃO

O sol está numa tal posição,
que de todos os lados se vê o mesmo.

Ah, que amor incontestado
podemos dar e ser,
que esfera impecável, impoluta,
de sempre adiado horizonte,
continuando-se interminável,
na sucessão de si mesma,
afirmando sua duração,

ah, que esfera podemos ser, em sonho,
talvez,
em alma,
quem sabe,
que sol, que totalidade sem arestas,
que evidência inegável,
em que lugar, em que posição?

Cecília Meireles
In O Estudante Empírico

23/12/2008


by Michelangelo Merisi da Caravaggio
» The Stigmatization of Saint Francis

ECO

Cantara ao longe Francisco,
jogral de Deus deslumbrado.
Quem se mirava em seus olhos,
seguira atrás de seu passo!
(Um filho de mercadores
pode ser mais que um fidalgo,
se Deus o espera
com seu comovido abraço...)
Ah! Que celeste destino,
ser pobre e andar a seu lado!
Só de perfeita alegria
levar repleto o regaço!
Beijar leprosos,
sem se sentir enojado!
converter homens e bichos!
Falar com os anjos do espaço!...
(Ah!Que fora a sombra, ao menos, desse jogral deslumbrado!)

Cecília Meireles
In Pequeno Oratório de Santa Clara

20/12/2008


Foto de JustABigGeek

CHEGA O VERÃO

Vamos abrir as janelas ao vento salgado do mar.
Chega o verão, vagarosa nau, de um trêmulo horizonte,
com seu andar de floresta e seus odores enevoados
de resinas espesas e tormentas no alto da tarde.

Nuvens de cupins jorram da sombra, girando em cegueira.
Asas sem peso chovem o arco-íris, semeiam nácar pelos meus dedos.
Oh, por que serão feitas mínimas vidas
com tanta perfeição para instantâneas se desfazerem?

Vamos fechar as janelas sobre a noite, com seu vento de fogo.
Aqui vêm, despojados, os cupins pelas mesas,
arrastando-se por entre as próprias asas caídas.
Aqui vêm, num cortejo de desvalidos, de sentenciados...

Oh, dizei-me, dizei-me, que anjos, que santos, que potências
se ocupam desse silêncio movediço, do apressado
itinerário dos morimbundos frágeis que passam!

Cecília Meireles
In Poemas I

Foto de floricultura

LEI

O que é preciso é entender a solidão!
O que é preciso é aceitar, mesmo, a onda amarga
que leva os mortos.

O que é preciso é esperar pela estrela
que ainda não está completa.

O que é preciso é que os olhos sejam cristal sem névoa,
e os lábios de ouro puro.

O que é preciso é que a alma vá e venha;
e ouça a notícia do tempo,
e, entre os assombros da vida e da morte,
estenda suas diáfanas asas,
isenta por igual,
de desejo e de desespero.

Cecília Meireles
In Poesias II

19/12/2008


Foto de Dario Sanches

INTERPRETAÇÃO

As palavras aí estão, uma por uma:
porém minh'alma sabe mais.

De muito inverossímil se perfuma
o lábio fatigado de ais.

Falai! que estou distante e distraída,
com meu tédio sem voz.

Falai! meu mundo é feito de outra vida.
Talvez nós não sejamos nós.

Cecília Meireles
In Mar Absoluto e Outros Poemas

04/12/2008


Foto de Hada

INCLINA O PERFIL

Inclina o perfil amado
nos veludos do silêncio
e apaga sobre esse quadro
as velas do pensamento

E fecha a porta da sala
e desce a escada profunda
e sai pela rua clara
onde não façam perguntas

E vai por praias desertas
desmanchando os teus caminhos,
cortando o fio às conversas
dos teus próprios labirintos.

E ao chão dize: Sou de areia.
E às ondas dize: Sou de água.
E em valas de ausência deita
a alma de outroras magoada.

Sem propósito de sonho
nem de alvoradas seguintes,
esquece teus olhos tontos
e teu coração tão triste.

Talvez nem a sobre-humana
mão que tece o ar e a floresta
perturbe alguém que descansa
de tão duras controvérsias.

Talvez fiques tão tranquila,
ó vida, entre o mar e o vento,
como o que ninguém divisa
de uma lágrima num lenço.

Cecília Meireles
In Retrato Natural,

Foto de Hada

SUSPENSAS FUGAS

Para pensar em ti todas as horas fogem:
o tempo humano expira em lágrima e cegueira.
Tudo são praias onde o mar afoga o amor.

Quero a insônia, a vigília, uma clarividência
deste instante que habito - ai, meu domínio triste!,
ilha onde eu mesma nada sei fazer por mim.

Vejo a flor; vejo no ar a mensagem das nuvens
- e na minha memória és imortalidade -
vejo as datas, escuto o próprio coração.

E depois o silêncio. E teus olhos abertos
nos meus fechados. E esta ausência em minha boca:
pois bem sei que falar é o mesmo que morrer:

Da vida à Vida, suspensas fugas.

Cecília Meireles
In Solombra

12/11/2008


Foto de agueda_galimany

ACEITAÇÃO

É mais fácil pousar o ouvido nas nuvens
e sentir passar as estrelas
do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos.

É mais fácil, também, debruçar os olhos no oceano
e assistir, lá no fundo, ao nascimento mudo das formas,
que desejar que apareças, criando com teu simples gesto
o sinal de uma eterna esperança.

Não me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar,
nem tu.

Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:
não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar.

Cécilia Meireles
In Viagem

Foto de Aljaba

POEMA DA FASCINAÇÃO

Vou a ti
Como quem vai,
Antes e depois da Morte,
Para onde lhe ordena o Destino...
Vou a Ti,
Seguindo a luz dos teus olhos,
Subindo por ela,
Caminhando pelo teu olhar
Como por uma escadaria d'astros...
O teu vulto,
Lá em cima,
É um palácio branco a atrair-me...
Quando chegarei,
Ó eleito,
Diante de Ti?
Quando descerrarás
As tuas portas de luz,
Para receberes
Os lírios e as rosas odorantes
Que andei colhendo
Para te ofertar?
Não demores,não tardes,
Ó eleito
Que eu vou a Ti
Como quem vai,
Antes e depois da Morte,
Para onde lhe ordena o Destino...

Cecília Meireles
in Poesia Completa

24/10/2008


Foto de Curlgirl1

CANÇÃO

Não te fies do tempo nem da eternidade
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!

Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te escuto!

Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te digo...

Cecília Meireles
In Melhores Poemas

09/10/2008


Dormeuse, 1931-32 by Tamara de Lempicka

Para pensar em ti todas as horas fogem:
o tempo humano expira em lágrima e cegueira.
Tudo são praias onde o mar afoga o amor.

Quero a insônia, a vigília, uma clarividência
deste instante que habito - ai, meu domínio triste!,
ilha onde eu mesma nada sei fazer por mim.

Vejo a flor; vejo no ar a mensagem das nuvens
- e na minha memória és imortalidade -
vejo as datas, escuto o próprio coração.

E depois o silêncio. E teus olhos abertos
nos meus fechados. E esta ausência em minha boca:
pois bem sei que falar é o mesmo que morrer:

Da vida à Vida, suspensas fugas.

Cecília Meireles
In Solombra, 1963.