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28/12/2014

OS MENINOS E A MENINA



A mata de olhos úmidos
refletia a manhã.
Crianças escalam pedras
escorregam no limo
                              e ao lado
o riso da cascata.
 
Revoada de borboletas.
Restou uma fotografia.
 
Alguém leu certo dia
num autor apócrifo:
                              Os meninos se chamavam
                              André
                               Braz
                               Olavo...
                                            e havia uma menina. Seu nome: 
                                            Elizabeth
 
Mas Amor que nome tem quando completo?
Eram outros também. Sabe-se que a menina
desembaraçara as crinas do Unicórnio
nas espumas do Lago.
 
Formas estranhas de pedras.
A mata as lambia (como a suas crias)
num colo de musgos.
 
                                Perto
lírios de gosma e perfume:
                                reis coroados -
                                Salomão e a Rainha de Sabá
                                 em fascinado colóquio.
 
As crianças se foram
ficou  a fotografia
                           irradiando:
é um sorriso só
                         imagem
                         sem conceito algum
 
Dizei-me: o  que se resgata desse instante?
Que fulgor não se apaga para lá 
no momento que somos?
                                      Com seu dedo leve
                                      o eterno caça-nos além
                                       do tempo breve.
 
Dora Ferreira da Silva
In Poemas da Estrangeira 
arte  Diane Leonard
 

27/01/2014

MANDALA




Um poliedro (dizem) de cristal
oculta o múltiplo mutável
enigma da simplicidade.
De si mesmo feito como a vida:
origem matéria forma
reflexos de água
luz
lembranças de ar e terra
inverno e primavera.
Pássaros nele cantam
flores nascem
                     frutos amadurecem
e o poliedro ( de um todo imaginado)
é de arestas finas
                            transparentes
o vento nele se instila
constante
               desvela-o a madrugada somente
móvel
fluente
               debatendo-se no Nada.
Eis o cristal tranquilo
claríssimo
               onisciente
pura obediência do gota a gota
enfim configurado.
 
Dora Ferreira da Silva
In Poemas da Estrangeira  
arte Beatriz Milhazes  

24/01/2014

O AROMA...



O aroma circunda pessegueiros
em meio à chuva. Lembranças
sopram mais que o vento 
e a Criança desata os cabelos.
Rostos esparsos sorrisos afagos
de mãos tão leves que a neblina
pesada parece e tudo se avizinha
de um espaço talvez sonhado.
 
Os nomes revoam pássaros;
pareciam esquecidos
mas em curvas aéreas se revelam
tão belos e lembrados.
 
(Itatiaia, inverno 1993)
 
Dora Ferreira da Silva
In Poemas da Estrangeira
arte william mason brown bounty of peaches painting
 

09/01/2014

MELANCOLIA





Porque aí estás - mendiga -
na soleira da porta
olho-te nos olhos.
São belos mas turvos de tristeza
rio passando e em sua correnteza
a lembrança de outros dias.
Atira essas moedas
apagaram-se as efígies que amavas
olha o que te cerca a proximidade
de uma criança de um cão
não estás onde estavas
esquece a casa as escadas a voz
que te chamava e ama esse bosque adormecido
de sonhos que não se afastam
de aparentemente perdido.
 
1994
 
Dora Ferreira da Silva
In Poemas da Estrangeira 
arte Dorina Costras

FRAGMENTO I




Mar de corais antigos
em ti adormeço
enquanto bardos murmuram em meu ouvido
uma história de sangue e papoulas:
deuses desferem arcos de prata
no ar de violetas.
 
Nada sei do mundo e suas ágoras
nem do palrar dos sábios em seus jardins.
Basta-me este mar em que vicejo
e as púrpuras de que me visto em sonhos
e sou completa.
 
(Talhamar)
1982
 
Dora Ferreira da Silva
In Poemas da Estrangeira 

25/12/2013

ORAÇÃO CORAÇÃO AÇÃO




Palavras-abelhas, provo do vosso mel.
Em letras de ouro e terra
digo escrevo
oração
coração
ação.
A palavra parte (sem destino?)
levando pólen que emprestou-lhe a flor.
Voa com asas de coração; e outra, mais outra, enxames.
Operação tão limpa e delicada
abrindo celas oclusivas -
alvéolos de transformação.
Que movimento é esse, que voo tão parado,
que decisiva ação?
Já não sou eu quem diz nem ouve e escreve
subindo o teto da manhã:
no alto vértice
o único a colhe
e dá sentido à ação.
 
(Uma via de ver as coisas)
              (1973) 
 
Dora Ferreira da Silva
In Poemas da Estrangeira

27/03/2012

PLENO CORAÇÃO...



Pleno o coração
na noite fria.
O que me aqueceu
mais que o verão?
Quem - invisível visível -
navegou no mar
de minhas veias
de meu sangue
com sua canção?
Quem desferiu cordas
com a minha mão?
Infiltrou-se (deus ou ladrão)
no aposento fechado
na ordem do habituado
pondo santa desordem
no meu coração.

Se faltar-me Poesia
e ao mundo
resta o sono profundo
e sua invenção.

Dora Ferreira da Silva
In Cartografia do Imaginário
 tela Lucien Levy- Dhurmer

ESTAÇÕES (OUTONO)



Azul no céu o outono;
nas folhas, vermelho
e incerto o coração.
Misturam-se as cores da música
brilhantes no piano
ocres no violoncelo
entre o sim e o não.
Tão longe as cores ficaram
nada ao alcance da mão
esquecidos os nomes, timbres de voz
somos duas a sós:
minha alma no corpo estrangeiro;
passa um vento ligeiro
(leva a minha inspiração?)
Não sei se ouves a tristeza
das pálpebras fechadas
da abandonada beleza
em sendas escondidas
onde andamos. E era vida.
Veio o pasmo e a brandura
desses lábios tão cerrados
sepultura
em seu outono calado.

Dora Ferreira da Silva
In Cartografia do Imaginário
tela Исаак Левитан - Осенний день. Сокольники

13/02/2012

ENTRE OS PÁSSAROS...



Entre os pássaros se esgueiram
como se deixassem na sombra

Os perfis de seda
não de aves, mas de anjos:
não anjos expulsos por perfídia
mas desejosos de caminhar pelos caminhos
a modo de homens  isentos de cansaço.
Anjos que crianças veriam
sem medo, a elas semelhantes.
Mulheres sonhadoras os julgariam
amados ausentes enfim reencontrados

Não se despedem, sussuram melodiosamente:
- Junto à fonte estarei e tu, comigo.
Há que esperar. Tal beleza os reveste nesse instante
que desviamos  o olhar.

Dora Ferreira da Silva

02/11/2011

TARDE DE PRIMAVERA


No céu da tarde - revoada de andorinhas.
De que sala do espaço vês
a primavera e o calor dos peitos brandos?
Canta o silêncio além do ouvido
uma nuvem perpassa tules
por entre pássaros.
O amor se lembra: beijos foram dados -
colar de pérolas desprendidas
nenhuma delas foi perdida
e um coração pulsou mais forte.
Revoada de andorinhas no céu da tarde
arde a nuvem agora e se transmuda
em canção: pássaros escutam
Voa coração, para a distância
e lembra ao distante
esta presença feita de vida e dança:
o que foi e o que é na mesma trança.

Dora Ferreira da Silva
In Cartografia do Imaginário
foto  Lula Espírito Santo

01/11/2011

NÃO ME DESPEÇO...


Não me despeço de ti, Poesia,
mais fácil seria despedir-me de mim
se me deixasses.
És a  semente.Continuas
indiferente a tudo o que não seja
a fome de teus frutos.Eles erigem
múltiplos mundos e neles te transformas.
Devolvida à luz, a semente morta
é árvore tenra.
Dizer-te adeus: imperdoável mentira.
Encontro-me contigo em mil variantes do dia
em mil disfarces te reconheço.
Que importa o nome escolhido, a língua
o homem a mulher que cinges amorosamente?
Eu te amo, é tudo.Nessa unidade
o que muda persiste.Zenon e Parmênides
nela se encontram, ambos tinham razão.
É o voo parado a música liberta
de suas partituras.É o Deus sem insígnia,
o que é sem querer: um súbito riso
contatos de amor voando nas sementes
da chuva primaveril.

Dora Ferreira da Silva
In Cartografia do Imaginário
   

NÃO ATRAVESSES...


Não, não atravesses a rua
no raio pálido da lua.
A Menina te espera
só na Primavera
disfarçada em flor.
Sabes? O amor está do outro lado
não me olhes com teu olhar rasgado
de índio ou mongol:
pareces disfarçado
pescando sem anzol
um anjo olheado...
Chegas a mim
como o cheiro de jasmins
mas sou  a foragida
desta precária vida
e só me alcançarás ,amado -
do outro lado.

Dora Ferreira da Silva
In Cartografia do Imaginário

ANJO MÚSICO III


Toca um anjo na floresta
(Lê o pássaro mais próximo
a partitura oculta)
A túnica vermelha
detém o voo das asas
desdobradas no leve pousar
e permitem o parêntese aberto
à celeste música
entre a ramagem atônita -
súbita aparição
de natureza e espírito
em seu limiar.

Dora Ferreira Da Silva
In Cartografia do Imaginário
tela Charles Sims  

ANJO MÚSICO II


Sonha-se a música
em tuas pálpebras descidas.
Violino e arco fremem
entre asas abertas
sombra e incandescências
céu e terra.
A mão tange o arco suavemente
a cabeça e sua auréola
de brancura
não se movem. Sonha-se a música
e há um pássaro à escuta.

Dora Ferreira da Silva
In Cartografia do Imaginário

30/10/2011

SEGUE-ME O RIO...



Segue-me o rio
seus murmúrios.
Não sei seu nome.Apenas escamas de luz o fazem
meu rio perseguidor.
Atirou-se a nudez nas águas
- seixo que o sol irisa - 
Calmo ou caudoloso
sem nome
não tem afluentes;
é além da geografia
não tem mesmo nenhum lugar
para correr
um leito para dormir.
A menina o seguia.
Seduzida perdeu-o
na imaginação.
Era o rio que a seguia
ou ela seguia o rio?
Quem enlouquecia no verdor das ravinas
mãos líquidas espalhando
longos cabelos - de qual dos dois?
E aquele fragor de palavras
inacabadas, sem sentido?
A quem perguntar que rio é  esse
Apenas direi: é o meu rio perseguidor.

Dora Ferreira da Silva
In Cartografia do Imaginário
tela  Ernest Walbourne

ANJO MÚSICO


Apoiando as asas
no meio do tronco
toca uma ária em violino celeste:
Anjo músico.
Escuta-o pássaro atento.
Ser da floresta
eu também te escuto
Anjo de branca auréola
túnica magenta;
apenas pousas - tu e tua música -
no entrançado da mata
com rombos de sol claríssimo.
Crucifica-te a música
na árvore escolhida
e teus olhos fechados
leem a partitura.

Dora Ferreira da Silva
In Cartografia do Imaginário

26/09/2010

VIDA (SEM ESQUECER A MORTE DE CADA DIA)





Escoam-se
areias na ampulheta
pranto
riso quase sereno.
Um destino ressoa
alada música
Appassionata.

É preciso tempo
o vagar dos crepúsculos
o começo
a promessa
o findar das estações
um olhar calmo sobre a vida
formas
contornam sensações
o céu infinito
explode cósmica
ternura.
Nada indiferente
sob a lua seus enigmas -
naufrágio das coisas
no azul.
Vivos e mortos
perambulam nas estradas
um sorriso nos lábios.
O que dizem
no silêncio
agora pleno
da alma?
Appassionata.

O gesto preserva a
emoção e o brusco
perpassar de folhas mortas.
Gemem pássaros noturnos
fiéis da madrugada
até que o horizonte desperte
em sua luz dourada.

Dedos da memória
afagam e são cruéis
tudo ressurge e se transfigura
no que poderia ser
se a chuva desabasse.
Só os relâmpagos
ao longe
de raios mudos.
A noite se expandia
se expande
ou tudo invadirá
com seus negros andrajos?
Olho sem ver
a paisagem
árvores dobradas pelo vento
ouço uma voz distante
não sei o que diz.
Apenas um manto me aquece
na noite gélida
mas pulsa o coração
da trêmula
Appassionata.

É preciso desdobrar
asas de amor conhecimento
liberar o tato
de todas as coisas
que esperam.
Pois o eco fugiria
das palavras vãs
sem pólen
os pássaros voltariam
aos ninhos de sombra
se teu coração
recuasse
e os cabelos
não soltasses
Appassionata.

A nudez do sono
frêmitos do vento
um perfil vizinho
jamais decifrado
carícias da alma
aquecendo o corpo
o poema lembrado
na neblina do outrora
os lábios unidos
no mais leve dos beijos
a flama e o desejo
a carne fremente
Appassionata.

O tempo findando
e agora tão próximos
corpo e alma
num limiar
agônico.
Silêncio esvaecido
de uma vida inteira
de busca
e o achado se perdendo
na mais fria madrugada
mas o grito irrompendo
tudo resume
Appassionata.

Vida longa
atenta aos sinais
rente aos vestígios de deuses forasteiros
é preciso
ser viva e morta
rolar nos gramados
amar as flores
nada aprisionar
retendo na avareza.
Amar em silêncio
com a maior leveza
sem pedir em troca o amor.
É preciso ter um corpo
é preciso ter alma
Appassionata.

Dora Ferreira da Silva
In Rascunho - Jornal da Literatura Brasileira
foto de ours polaire valloire no Flickr