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02/01/2015

TELHA DE MENOS


Minha casa tem uma telha de menos
e uns macaquinhos brincando no sótão.

Quando há chuva,
            cai um pouco de chuva na varanda;
quando há sol,
            passa um feixe de luz nos remansos da  sala;
e quando há vento,
            a música se esparrama pelo quarto
            embalando alguns sonhos e pesadelos.

Ás vezes passa rápido a figura de um pássaro,
outras vezes apenas um riso de borboleta,
uma nesga de nuvem e o brilho de um avião
nos rumos do Brasil.

Mas é a noite que uma das três Marias
se debruça no espaço azul da minha casa.

Gilberto Mendonça Teles
In Plural de Nuvens
arte Laurent Parcelier

30/03/2013

CHÁ DAS CINCO



Para
Jorge Amado      

Chá de poejo para o teu desejo
chá de alfavaca já que a carne é fraca
chá de poaia e rabo-de-saia
chá de erva-cidreira se ela for solteira
chá de beldroega se ela foge ou nega
chá de panela para as coisas dela
chá de alegrim se ela for ruim
chá de losna se ela late ou rosna
chá de abacate se ela rosna e late
 chá de sabugueiro para ser ligeiro
chá de funcho quando houver caruncho
chá de trepadeira para a noite inteira
chá de boldo se ela pedir soldo
chá de confrei se ela for de lei
chá de macela se não for donzela
chá de alho para um ato falho
chá de bico quando houver fuxico
chá de sumiço quando houver enguiço
chá de estrada se ela for casada
chá de marmelo quando houver duelo
chá de douradinha se ela for gordinha
chá de fedegoso para mijar gostoso
chá de cadeira para a vez primeira
chá de jalapa quando for no tapa
chá de  catuaba quando não se acaba
chá de jurema se exigir poema
chá de hortelã e até amanhã
chá de erva-doce e acabou-se 

( pelo sim pelo não
                             chá de barbatimão)

Gilberto Mendonça Teles
In Plural de Nuvens
tela Mary Cassatt

17/06/2012

CANTIGA



Pergunto ao mar por que foge
e ao vento por que não vem.
O tempo levou a vida
para outra praia no além.
Há tanto pássaro voando,
meu sonho voou também.
Pousou nas cristas das vagas,
tornou-se espuma salgada
e veio dar nesta praia
onde não há mais ninguém.

E o mar que foge retorna,
retorna o vento também.
Só a vida que foi não volta,
só o tempo que foi não vem.

Gilberto M. Teles
In Poemas Reunidos
tela Steve Hanks 'Pacific Sanctuary' watercolor c.1992

07/06/2012

CAMINHOS



Se caminhamos juntos,
se juntos dividimos,
quem sabe da renúncia
que nos  vai conduzindo?

Quem sabe dos intentos
tão distantes, tão próximos,
que amamos em silêncio
como um segredo nosso?

Quem sabe do caminho,
se tudo é tão noturno
e o sonho é como um sino
além, além do mundo?

Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos
tela http://ndg.gallery.ru/watch?ph=2OC-c8Fh4

06/06/2012

SERENIDADE




Teus gestos são estranhos, mas a tua alma
tem a beleza ingênua das estrelas.
És bela como o sol, pela constância;
e simples como o luar, pela incerteza.
O bucolismo canta nos teus olhos
e ri no amanhecer dos teus cabelos.
Tudo em ti é tão simples e tão belo.
Tudo canta e sorri. És a alegria.

Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos 
tela http://data4.gallery.ru/albums/gallery/210084-9da5b-43971924-m750x740-u5d1de.jpg 

CANÇÃO



As horas dançam no tempo
e o tempo, na madrugada.

Do cimo da vida, apenas
vejo a poeira na estrada.

Meus rastros viraram pedras
na terra do antigamente.

E as horas morrem no tempo
como o tempo, no poente.

Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos 

03/06/2012

HINO À NOITE





Ó noite, eu te desejo, e anseio o teu abraço
macio como o luar, quieto como o jazigo.
A fadiga me esvai, domina-me o cansaço,
como um boêmio feliz eu vim dormir contigo.
De sonho em sonho andei.Fui poeta, fui mendigo.
Corri atrás do tempo e me perdi no espaço
e vi se desfazer meu pensamento antigo
e em sangue transformar-se a sombra do meu passo.
Um dia, a procurar-te, olhei para o poente:
na estrada solidão da tarde, impertinente,
um pássaro de sol crepusculava a esmo.
Então eu te encontrei e, em meu triste abandono,
meus olhos disfarcei na volúpia do sono
e caminhei cantigo em busca de mim mesmo.

Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos

02/06/2012

EVO



Mesmo quando a manhã festiva de minh'alma
não mais acontecer, crestando até a palma
da esperança ideal; mesmo quando o crespúsculo
do sonho inútil vier enrijecer o músculo
das horas sempre iguais; mesmo quando, diluído,
meu corpo se encontrar na planície do olvido;
bilaqueanamente, em caule, em folha, em flor,
eu nunca deixarei de celebrar o Amor.

Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos
tela Stan Moeller

06/05/2012

FOZ




Na foz do rio, o vento  desenrola
a linha  de um discurso nunca dantes:
a eloquência das ondas numa escola,
o silêncio dos astros nos sextantes.

(Na foz do rio aquela voz premente
também se desdobrou pelo oceano:
seguiu o rumo incerto da corrente,
foi como a espuma de um desgosto humano.)

Na foz do rio, a rede que se lança
tem a forma da  imagem que não trinca:
esta linguagem cheia de esperança,
esta saudade que se faz longínqua. 

(Na foz do rio aquela voz não finda,
se mistura à folhagem e algo espreita:
talvez a cena de uma história  linda,
alguma arte de amar, sempre imperfeita.)

Gilberto Mendonça Teles
In Plural de Nuvens
tela Yuri Dubinin 

DESCOBRIMENTO


PALAVRA

Pego a palavra amor e dentro
dela semeio o meu sigilo:
este rumor de mar batendo,
esta paixão, este suspiro.

Repara como vai ficando
densa a estrutura desse termo:
é como se as coisas que planto
contivessem ossos e nervos.

É como se houvesse no fundo
alguma luz, um pouco de alma,
como se o pouco fosse muito
e muito tudo o que me falta.

Daí ser preciso ir ao ponto
interior do que a contorna:
o espesso que se vai compondo
no corpo vivo que se forma.

E bem devagar ir abrindo
não a palavra - o seu caroço:
a essência mesma do recinto
que sabe a mel, de saboroso.

E só depois, além do grito,
sobre a beleza do momento,
ver no percurso acontecido
o que ficou acontecendo.

Gilberto Mendonça Teles
In Plural de Nuvens
tela Yuri Dubini

24/04/2012

PERCEPÇÃO



O mundo te rodeia de cercas e desejos,
te comprime no refúgio de teu quarto
e te restringe à lamina das coisas
no seu fino acontecer.

Todavia o amor é para toda a vida,
é para sempre e um dia e mais talvez:
o amor te prende às palavras e te liberta
na invenção de alguns códigos e silêncios.
É possível que a tua cota de realidade
seja agora por demais excessiva
e apenas te deixe perceber os possíveis
de outros planos e subversões.

Vê como as cortinas disfarçam o teu olhar,
como as ruas se enrodilham aos teus pés
e como algumas veredas vão desaparecendo
nos teus desertos e viagens.
Que seria de ti sem os teus espelhos?
sem a jarra de flores que guarnece
o espaço dessa mesa de pernas para o ar,
com velhas catacreses na gaveta?

É para ti que as águas vão polindo
os sentidos desse único sentido
ainda vulnerável, mas perdido na cena,
no espetáculo obsceno de ti mesmo.

Gilberto Mendes Teles
In Plural de Nuvens

MUSA



Nos ladrilhos da noite, quando os ermos se curvam
na linha da partida e o volume das águas
aumenta a sonolência dos ventos e marés,
eu sei que te levantas e passeias na praia
acendendo fogueiras e tentando o mais íntimo
das coisas recolhidas.
                                  É como se dançasses
nas espumas do rio, como se retomasses
o diálogo das naus e fosses decifrando
o sentido das nuvens no curso do ocidente.

Mas quando dás notícias de ti, das tuas ilhas,
e descreves o fascínio das coisas memoráveis
no outeiro que te guarda inteira nas manhãs,
eu sei que te debruças sobre os signos da areia
e cavas o teu silêncio até nos últimos
navios da viagem.
                                  E é como se teu gesto
fundasse a monarquia de outro descobrimento,
como se um novo périplo se abrisse no horizonte
das coisas na memória.

Gilberto Mendonça Teles
In Plural de nuvens
tela Joaquin Sorolla y Bastida

23/04/2012

SIGNO



Ainda existe a rosa nos cabelos
vermelhos da poesia.

Ainda há força
no azul do seu mistério, no seu canto,
no eixo de sua aérea encruzilhada.

Ainda, a sua origem, seu mais íntimo
silêncio: o veludoso ardor das pétalas,
o aroma das amoras no políndromo,
das palavras de aladas peripécias.

Ainda, esta morada, o seu precioso
espaço interior, o alumbramento
da forma em desatino, a descontínua
perspectiva do ser na travessia.

Ainda, a sua angústia, o novo tempo
se exaurindo nas coisas, lapidando
os favos da romã e consumindo
seu avesso de fogo e sutilezas.

E ainda a sua imagem:
lago, espelho,
alma e corpo submerso, o indelével
estribilho do amor e seu disfarce,
e seus pontos de cruz na superfície.

Gilberto Mendonça Teles
In Plural de Nuvens 
tela Brenda Burke

26/02/2012

TELHA DE MENOS



Minha casa tem uma telha de menos
e uns macaquinhos brincando no sotão.

Quando há chuva,
cai um pouco de chuva na varanda;
quando há sol,
passa um peixe de luz nos remansos da sala;
e quando há vento,
a música se esparrama pelo quarto
embalando alguns sonhos e pesadelos.

Às vezes passa rápido a figura de um pássaro,
outras vezes apenas um risco de borboleta,
uma nesga de nuvem e o brilho de um avião
nos rumos do Brasil.

Mas é à noite que uma das três Marias
se debruça no espaço azul de minha casa.

Gilberto Mendonça Teles
In Plural de Nuvens
tela   Duy huyhn

19/02/2012

COMPOSIÇÃO


O  amor põe suas mágicas
em funcionamento.
O amor compõe, propõe, supõe,
indispõe e interpõe,
sua adaga entre o ser
e o vazio do vício
(a ser-viço do amor).

O amor compõe seus acídos
na linha mais ambígua
da mão, entre o desejo
e o tato, neste incêndio
propagante e terrível.

O amor dispõe seus plácidos
novelos enredados
e fio a fio supõe
sua mosca, seu tédio
e sua deslizante
atração de suicídio
e adultério.

O amor
propõe enigmas.Trans-
põe montanhas de sombras,
interpõe-se entre os seres
e apenas se indispõe
para compor de novo
sua casca e seu ovo.

Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos
tela Second Embrace - Oliver Ray

04/01/2012

MELODIAS


Ternas melodias de longínquas plagas,
nas manhãs da vida fascinando a gente,
sois o desafio de revoltas vagas
pela alma ecoando como um som ausente.

Ternas melodias, de que mundo ignoto,
de que estranhas terras vindes me encontrar?
Sois a transparência que no sonho noto?
Sois a ressonância  do poema, no ar?

Ou vindes dos astros - de uma Sírius? Vênus?
De que firmamento, de que céus surgistes?
Quérulos gemidos de amarguras plenos
só podem ser ecos de meus sonhos tristes.

Essas melodias cheias de tristeza
são talvez saudades que em meu peito eu tinha;
são as confidências dessa natureza
de milhares de almas que possuo na minha

Essas melodias que a minh'alma douram ,
que a meus sonhos beijam com tamanho ardor,
essas melodias tão sonoras foram
de remotos tempos vibrações de amor.

Gilberto M. Teles
In Poemas Reunidos
tela Alfred Siefert (Czech, 1850-1901)

HINO AO SONO


À noite, quando sinto o meu corpo sentindo
a fadiga, o cansaço e o tédio do trabalho,
tu vens, ó sono bom, vens lentamente vindo
enrolar-me na lã do teu fluido agasalho.

E, como uma flor branca embebida de orvalho,
a suave languidez de tua alma se diluindo
cobre todo o meu ser e no teu ser me espalho
como um som que se escuta a ampliar-se, sumindo...

Em ti, como num mar distante, cujas águas
refletissem a dor , as tristezas e as mágoas
de quem de cedo tivesse o desprezo da sorte,

todo o meu ser se abisma, ansioso, e se evapora!
Porque tu és, ó sono, essa essência sonora
tranquilizante a vida poetizando a morte.


Gilberto M.Teles
In Poemas Reunidos 
tela Vasily Alexandrovich Kotarbinsky, (Russian,1849-1921)

POEMA

 
 
 
De ti me vem esta alegria pura,
singela como o som de flauta rústica,
irradiante como o sol
na manhã rumorosa,
cheia de orvalhos,
cheia de pássaros,
cheia de luz
e da ansiedade imensa
de completar
o amor!

De ti me vem esta alegria silenciosa
e inexplicável de saber que vivo
na cadência feliz da sintonia
universal dos elementos.
De ti me vem
o sussuro das vozes sonorosas
e a linguagem inefável
deste amor.

De ti me vem esta alegria
de ser livre e de estar sozinho te esperando
nalgumas dessas ilhas afastadas,
perdidas no Pacífico do Sonho.


Gilberto M. Teles
In Poemas Reunidos

CANTIGA III


Soprei na esquina do vento
a condição do meu canto:
- "Que os homens todos me entendam!"
Mas, como um rio em silêncio,
fui-me no tempo ocultando.

Era preciso, e falei.
Gritei as minhas palavras.
Tinha esperança, e de lei.
E hoje, cansado, nem sei
se alguém, de longe, escutava.

Surpreendo agora na curva
repentina do planalto
a noite que vem na chuva
de uma tristeza tão muda
que nem sei mais o que faço.

Gilberto M. Teles
In Poemas Reunidos
tela Annie French (1872-1965), "The Lilac Veil"    

21/12/2011

CANTIGA


Se vives dentro da noite
como uma estrela , a brilhar,
eu vou pela noite a dentro
no meu silêncio, a sonhar.

(Alguém haverá que impeça
um sonhador de sonhar?
E essas palavras comuns,
não são também para usar?)

Estendo as mãos: a distância
se interpõe.Fico a pensar:
por que as estrelas são tantas?
Por que não posso voar?

Gilberto M. Teles
In Poemas
foto Silvane Bueno