Mostrando postagens com marcador Manoel de Barros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Manoel de Barros. Mostrar todas as postagens

19/11/2014

GORJEIOS


 
Gorjeio é mais bonito do que canto porque nele se
inclui a sedução.
É quando a pássara está enamorada que ela gorjeia.
Ela se enfeita e bota novos meneios na voz.
Seria como perfumar-se a moça para ver o namorado.
É por isso que as árvores ficam loucas se estão gorjeadas.
É por isso que as árvores deliram.
Sob o efeito da sedução da pássara as árvores deliram.
E se orgulham de terem sido escolhidas para o concerto.
As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.
 
Manoel de Barros  
In Poesia Completa

XXV ( lembrança)


Perto do rio tenho sete anos.
(Penso que o rio me aprimorava)
Acho vestígios de uma voz de pássaro nas
águas.
Viajo de trem para o Internato.
Vou conversando passarinhos pela janela do
trem.
Um bedel raspou a cabeça de meu irmão no
internato.
Havia um muro cheio de ofendículos.
Liberdade havia de se pular aquele muro.
Do outro lado havia um guaviral onde os
moços e as moças se encontravam e se filhavam. 
A gente manuseava os pichitos.
Na Igreja os padres reuniam os alunos e
tentavam falar a sério.
Mas eu sempre achei muita graça quando as
pessoas estão falando sério.
Acho que isso é um defeito alimentar.
 
Manoel de Barros
In Poesia Completa
 

9




De noite passarinho é órfão
para  voar. Não enxerga
nem o pai das vacas
nem o adágio dos arroios.
Seu olho de ovo emaranha com folhas.
No escuro não sabe medir direção e trompa nos paus.
Passarinho é poeta de arrebol.
 
Manoel de Barros
In Poesia Completa
arte  Zou Chuan

04/10/2014

ZONA HERMÉTICA




De repente, intrometem-se uns nacos de sonhos;
Uma remembrança de mil novecentos e onze;
Um rosto de moça cuspido no capim de borco;
Um cheiro de magnólias secas.O poeta 
Procura compor esse inconsútil jorro;
Arrumá-lo num poema; e o faz.E ao cabo  
Reluz com a sua obra.Que aconteceu? Isto:
O homem não se desvendou, nem foi atingido:
Na zona onde repousa em limos
Aquele rosto cuspido e aquele 
Seco perfume de magnólias,
Fez-se um silêncio branco...E aquele
Que não morou nunca em seus próprios abismos 
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas
Não foi marcado.Não será marcado.Nunca  será exposto
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.

Manoel de Barros
In Poesia Completa    

14/09/2014

RETRATO DO ARTISTA QUANDO COISA


10

A gente se negava corromper-se aos bons 
costumes.
A gente examinava a racha dura das lagartixas
Só para  brincar de ciência.
A gente grosava a peça dos morcegos com o 
lado cego das facas
Só para vê-los chiar com mais entusiasmo.
Fazíamos meninagem com  as priminhas à 
sombra das bananeiras, debaixo dos laranjais
Só de homenagem ao nosso Casimiro de Abreu.
Não era mister de ser versado em Kant pra se
saber que os passarinhos da mesma plumagem
voam juntos.
Nem era preciso ser versado em Darwin pra se 
saber que os carrapichos não pregam no vento.
Que, apois:
Sábio não é o homem que inventou a primeira 
bomba atômica.
Sábio é o menino que inventou a primeira 
lagartixa.

Manoel de Barros
In Poesia Completa

RETRATO DO ARTISTA QUANDO COISA


I

Retrato do artista quando coisa: borboletas
Já trocam as árvores por mim.
Insetos me desempenham.
Já posso amar as moscas como a mim mesmo.
Os silêncios me praticam.
De tarde um dom de latas velhas se atraca
em meu olho
Mas eu tenho predomínio por lírios.
Plantas desejam a minha boca para crescer
por  de cima.
Sou livre para o desfrute das aves.
Dou meiguice aos urubus.
Sapos desejam ser-me.
Quero cristianizar as águas.
Já enxergo o cheiro do sol.

Manoel de Barros
In Poesia Completa

13/09/2014

OS DOIS




Eu sou dois seres.
O primeiro é fruto do amor de João e Alice.
O segundo é letral:
É fruto de uma natureza que pensa por imagens,
Como diria Paul Valery.
O primeiro está aqui de unha, roupa,chapéu
e vaidades.
O segundo está aqui em letras, sílabas,vaidades
frases.
E aceitamos que você empregue o seu amor em nós.

Manoel de Barros
In Poesia Completa 

O ANDARILHO




Eu já disse que sou Ele.
Meu desnome é Andaleço.
Andando devagar eu atraso o final do dia.
Caminho por beiras de rios conchosos.
Para as crianças da estrada eu sou o Homem do Saco.
Carrego latas furadas, pregos, papéis usados.
(Ouço harpejos de mim nas latas tortas.)
Não tenho pretensões de conquistar a inglória perfeita.
Os loucos me interpretam.
A minha direção é a pessoa do vento.
Meus rumos não têm termômetro.
De tarde arborizo pássaros.
De noite os sapos me pulam.
Não tenho carne de água.
Eu conheço as ciências que analfabetam.
Todas as coisas têm ser?
Sou um sujeito remoto.
Aromas de jacintos me infinitam.
E estes ermos me somam. 

Manoel de Barros 
In Poesia completa

***



9

A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um 
sabiá
mas não pode medir seus encantos.
A ciência não pode calcular quantos cavalos de força
existem
nos encantos de um sabiá.

Quem acumula muita informação perde o condão de 
adivinhar: divinare.

Os sabiás divinam.

Manoel de Barros 
In Poesia Completa
imagem Helenallustra

15/07/2013

OS GIRASSÓIS DE VAN GOGH




Hoje eu vi
Soldados cantando por estradas de sangue
Frescura de manhãs em olhos de crianças
Mulheres mastigando as esperanças mortas
 
Hoje eu vi homens ao crepúsculo
Recebendo o amor no peito.
Hoje eu vi homens recebendo a guerra
Recebendo o pranto como balas no peito.
 
E, como a dor me abaixasse a cabeça,
Eu vi os girassóis ardentes de Van Gogh.
 
Manoel de Barros
In Poesia  Completa
tela Vincent Van Gogh

25/05/2013

SOBRE IMPORTÂNCIAS



Uma rã se achava importante
Porque o rio passava nas suas margens.
O rio não teria grande importância para a rã
Porque era o rio que estava ao pé dela.
Pois Pois.
Para um artista aquele ramo de luz sobre uma lata
desterrado no canto de uma rua, talvez para um
fotógrafo, aquele pingo de sol na lata seja mais
importante do que o esplendor do sol nos oceanos.
Pois Pois.
Em roma, o que mais me chamou atenção  foi um
prédio que ficava em frente das pombas.
O prédio era de estilo bizantino  do século IX.
Colosso!
Mas eu achei as pombas mais importantes do que o
 prédio.
Agora, hoje, eu vi um sabiá pousado na Cordilheira 
dos Andes.
Achei o sabiá mais importante do que a Cordilheira 
dos Andes.
O pessoal falou: seu olhar é distorcido.
Eu, por certo, não saberei medir a importância das 
coisas: alguém sabe?
Eu só queria construir nadeiras para botar  nas
minhas palavras.

Manoel de Barros
In Poesia Completa
tela Damião Martins

12/05/2013

POEMA




A poesia está guardada nas palavras - é tudo que
eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre as
insignificâncias (do mundo e as nossas)
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei. 
Sou fraco para elogios.

Manoel de Barros
In Poesias 

O POETA




Vão dizer que não existo propriamente dito.
Que sou um ente de sílabas.
Vão dizer que eu tenho vocação pra ninguém.
Meu pai costumava me alertar:
Quem acha bonito e pode passar a vida a ouvir o som
das palavras.
Ou é ninguém ou zoró.
Eu teria treze anos.
De tarde fui olhar a Cordilheira dos Andes que
se perdia nos longes da Bolívia
E veio uma iluminura em mim.
Foi a primeira iluminura.
Daí botei meu primeiro verso: 
Aquele morro bom que entorta a bunda da paisagem.
Mostrei  a obra para minha mãe. 
A mãe falou:
Agora você vai ter que assumir as suas
irresponsabilidades.
Eu assumi: entrei no mundo das imagens.

Manoel de Barros
In Poesia Completa
tela Jacques Laurent Agasse

10/04/2013




Quisera o canto jubiloso
que corresse por dentro de minhas palavras.
Como  um rio destampado corresse para os
campos.
 
Manoel de Barros
In Menino do mato
tela Prohorov Semen

23/04/2012

ÁRVORE



Um passarinho pediu a meu irmão para ser a sua árvore.
Meu irmão aceitou de ser árvore daquele passarinho.
No estágio de ser esta árvore meu irmão aprendeu de
sol, céu e de lua mais do que na escola.
No estágio de ser árvore meu  irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhes ensinavam no internato.
Aprendeu com a natureza o perfume de Deus.
Seu olho no estágio de ser árvore aprendeu melhor
o azul.
E descobriu que uma casca vazia de cigarra esquecida
no tronco das árvores só presta para a poesia.
No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as
árvores são vaidosas.
Que justamente aquela árvore na qual meu irmão se
transforma, envaidecia-se quando era nomeada para
o entardecer dos pássaros.
E tinha ciúmes da brancura que os lírios deixavam nos
brejos. Meu irmão agradeceu a Deus aquela
permanência em árvore porque fez amizade com muitas
borboletas.
Manoel de Barros
In Ensaios Fotográficos
tela Oleg Shuplyak
http://marialaterza.blogspot.com/

24/07/2011

NINGUÉM


 

Falar a partir de ninguém faz comunhão com as árvores
Faz comunhão com as aves
Faz comunhão com as chuvas
Falar a partir de ninguém faz comunhão com os rios,
com os ventos, com o sol, com os sapos.
Falar a partir de ninguém
Faz comunhão com os seres que incidem por andrajos.
Falar a partir de ninguém
Ensina a ver o sexo das nuvens
E ensina ao sentido sonoro das palavras.
Falar a partir de ninguém
Faz comunhão com o começo do verbo.

 

Manoel de Barros
In Ensaios Fotográficos
tela Duy
 

COMPARAMENTO


Os rios recebem, no seu percurso, pedaços de pau,
folhas secas, pena de urubu
E demais trombolhos.
Seria como o percurso de uma palavra antes de 
chegar ao poema.
As palavras,na viagem para o poema, recebem
nossas torpezas, nossas demências, nossas vaidades,
E demais escorralhas.
As palavras se sujam de nós na viagem.
Mas desembarcam no poema escorreitas: como que
filtradas.
E livres das tripas do nosso espírito.

Manoel de Barros
In Ensaios Fotográficos
foto por maya238

28/10/2010

MIRÓ



Para atingir sua expressão fontana
Miró precisava de esquecer os traços e as doutrinas
que aprendera nos livros.
Desejava atingir a pureza de não saber mais nada.
Fazia um ritual para atingir essa pureza: ia ao fundo
do quintal à busca de uma árvore.
E ali, ao pé da árvore, enterrava de vez tudo aquilo
que havia aprendido nos livros.
Depois depositava sobre o enterro uma nobre
mijada florestal.
Sobre o enterro nasciam borboletas , restos de
insetos, cascas de cigarra etc.
A partir dos restos Miró iniciava a sua engenharia
de cores.
Muitas vezes chegava a iluminuras a apartir de um
dejeto de mosca deixado na tela.
Sua expressão fontana se iniciava naquela mancha
escura.
O escuro o iluminava.

Manoel de Barros
In Ensaios Fotográficos
Tela de Miró

O PROVEDOR



Andar à toa é coisa de ave.
Meu avô andava à toa.
Não prestava pra quase nunca.
Mas sabia o nome dos ventos
E todos os assobios para chamar passarinhos.
Certas pombas tomavam ele por telhado e passavam
as tardes frequentando o seu ombro.
Falava coisas pouco sisudas: que fora escolhido para
ser uma árvore.
Lírios o meditavam.
Meu avô era tomado por leso porque de manhã dava
bom-dia aos sapos ,ao sol,às águas.
Só tinha receio de amanhecer normal.
Penso que ele era provedor de poesia como as aves
e os lírios do campo.

Manoel de Barros
In Ensaios Fotográficos

19/09/2010

O ROCEIRO



No clarear do dia vou para o roçado
A capinar.
Até de tarde tiro o meu eito: arranco inços tranqueiras,
joás e bosta de bugiu que não serve nem pra esterco.
Abro a terra e boto as sementes.
Deixo as sementes para a chuva enternecer.
Dou um tempo.
Retiro de novo as pragas: dejetos de aves, adjetivos.
( Retiro os adjetivos porque eles enfraquecem as plantas)
E deixo o texto a germinar sobre o branco do papel
No maior masturbação com as pedras e as rãs.

Manoel de Barros
In Ensaios Fotográficos