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26/03/2015

CESTA DE PÁSSAROS



A manhã é uma cesta trançada
com fios de luz.
Nota por nota,
o canto dos pássaros
constrói a cidade sonhada.

Caminharemos todos,
como se pisássemos
em uma sonata azul,
e nossas mãos inventarão
novos gestos, novos mapas
onde o amor será sempre possível.

Nenhum homem matará outro homem.
Então a terra sairá
de sua órbita bem comportada
e, livres da força da gravidade,
seremos ao mesmo tempo 
gente e pássaro. 

Roseana Murray
In Rene Magritte

21/09/2014

INFÂNCIA




Viver era para sempre
e o tempo uma coisa
redonda
ondulando feito céu e mar
o tempo não era
perigoso mistério
entranhas de uma caverna
o tempo simplesmente 
não existia
do jeito que existe hoje
latejante urgente
irreversível.

Roseana Murray
arte Dima Dimitriev

26/08/2014

CHAMADO



De sinos e borboletas brancas
é feita essa tarde.
Ouço o chamado do mar,
seu cheiro e luz
atravessam a porta da casa,
tingem minhas mãos de espuma,
deixam em minha boca
o desejo de antigas rotas.
Então me debruço sobre mapas,
costuro velas, invento bússolas.

Roseana Murray
In Recados do Corpo e da  Alma
arte Alexandrina Karadjova 

11/08/2014

ESPELHO



Espelho, espelho meu:
diga a verdade,
quem sou eu?
 
Se às vezes me estilhaço,
se às vezes viro mil,
se quero mudar o mundo,
se quero mudar o rosto,
se tenho sempre na boca
um gosto de água e de céu,
se às vezes sou tão só
quando me viro do avesso,
se ás vezes anoiteço
em plena luz do sol
ou então amanheço
com vontade de voar,
 
espelho, espelho meu:
diga a verdade,
quem sou seu?
 
Roseana Murray
In Recados do Corpo e da Alma
arte Dorina Costras

25/01/2014

TERRA MUSICAL




Para onde vai a Terra
dentro do céu,
imenso barco carregando
nossas tristezas e alegrias,
pequenas felicidades azuis,
nosso coração, nosso hálito,
nossas esperanças?
 
Da Terra escapam os suspiros
e os gritos de todos os que nascem,
e tudo isso se junta à música silenciosa
do cosmos,
e vamos todos, mãos e pés entrelaçados.
 
Para onde vamos embarcados
com nossas vidas transitórias?
Embarcados na Terra Musical,
esse pássaro imenso
ondulando pelo céu,
do silêncio,
até que um dia se encontre,
pequena estrela perdida,
a partitura da paz.
 
Roseana Murray
de Rios de Alegria
arte Dorina Costras
 

MERGULHO




Para encontrar o amor
há que mergulhar o corpo
na tinta dos sonhos,
atravessar o canto das baleias
como se fosse uma ponte,
adivinhar a rota dos que sempre
partiram com meia dúzia
de panos e pertences, em busca
de uma água escondida.

Para encontrar o amor
é preciso lavar as mãos
com o fogo das estrelas
e ao entardecer tocar a harpa
do arco-íris.

Roseana Murray
de Rios de Alegria
arte Dorina Costras

PEIXES AZUIS




Varrer a casa,
varrer o pátio,
a calçada,
arrancar do jardim
as ervas daninhas,
abrir espaço,
limpar as águas
por onde irão passar
os peixes azuis da vida.
 
Roseana Murray
de  Rios de Alegria

07/11/2013

POEMA-ORAÇÃO



A todos os ventos
eu peço coragem.
A cada estrela e estrada
Ao mar que não morre nunca
eu peço coragem...

E ao sol e à lua
E a todo o firmamento.
A cada pássaro
A cada pedra
A cada bicho da terra e do ar.

Peço coragem a tudo o que vive agora
E ainda viverá
Coragem para cavalgar os dias
Navegar nas horas
E a cada minuto e segundo, sonhar.
 
Roseana Murray
Imagem André Lucero
 
 

 

07/08/2013

NAS NUVENS


Tem gente que faz
uma casa nas nuvens:
casa sem portas ou janelas,
aberta para o infinito.
Em dias cinzentos ou tristes ,
basta uma escada de vento
para que se alcance a varanda.
Aí não existe nem passado
nem futuro,
e o tempo é uma teia azul
feita com a linha dos sonhos.
 
Roseana Murray
In Rios de Alegria
tela Christian Schloe

SOM DO UNIVERSO


 

De pé, no parapeito da janela,
à frente o mar e um céu
de lua nova,
mergulho o corpo nas estrelas.
É  noite.
Talvez, em algum lugar muito
distante,
num planeta recém-descoberto,
numa galáxia desconhecida,
uma mulher com o coração
cheio de flores
misture, como eu, os seus anseios
ao som do Universo.
 
Roseana Murray
In Rios de Alegria
tela Christian Schloe

30/10/2012

PARA LEMBRAR



Quando eu morrer
me amarre em teu corpo
com as vigorosas cordas
da palavra,
quando eu for só palavra
me amarre em teus olhos
com as frágeis cordas
da memória,
quando eu for apenas
uma fragrância longínqua,
toque os sinos
da minha poesia 
para lembrar,

Roseana Murray
In Poemas para ler na escola. 

VERÃO




Acordo e nem chegou a primavera
o verão já se instala, explode,
atropelando as estações
com suas patas de fogo,
arfa o céu e a pele,
cigarras estalam.

Ainda nem é verão
e o ar, carregado de frutas,
esparrama um perfume doce
e denso pelos telhados.

Se o poema fosse um quadro
usaria óleo vermelho.

Roseana Murray
In Poemas para ler na escola

FELICIDADES



Pequenas felicidades 
passeiam por nossos dias
como joaninhas na palma
da mão,
como um desenho de orquídea
trazido pelo vento.
Para não desperdiçá-las 
há que estar sempre atento,
caminhar vagarosamente
pelos contornos da tarde,
encher os bolsos com a areia
dourada do tempo.

Roseana Murray
In Poemas para ler na escola

21/10/2012

LEMBRANÇAS



Lembro, o fogo aceso
no fundo da caverna
ou na clareira da mata,
o chamado das estrelas,
a lua errante, ensanguentada.
Lembro das palavras murmuradas.
Lembro, enquanto viro as páginas
do livro, da vida, toda  lembrança
da humanidade é minha.

Roseana Murray
In Poemas para ler na escola

28/07/2012

ESTRELA NOVA



Estrela nova
com cheiro de tarde lavada
amor é porta abrindo suave
para uma paisagem estranha
onde vivem juntos
o sol e a chuva
o sal e o açúcar.

Roseana Murray
In Lições de Astronomia
tela Dorina Costras

01/07/2012

ESPERANÇA POUSADA NO UMBRAL DA PORTA



A manhã começa verde:
pulo da cama,
estendo os braços
para apagar os últimos
vestígios de um sonho,
mordo a maçã,
arrumo o mapa
do meu coração
e parto como um barco
de madeira antiga
para as surpresas do dia.

Pousada no umbral da porta,
a Esperança me olha
como folha verde na água,
como esmeralda encantada.

Roseana Murray 
In Poemas para ler na escola
tela Irina Kotova

17/06/2012

PÂNICO E LUAR



as noites e os dias
vestem o mundo
com navalhas macias

para sempre perdidas
as horas vão caindo
orquídeas num abismo

entre grutas e navios
oblíquas sombras
sempre por um fio

no cais  à espreita
velas içadas
com pânico e luar.

Roseana Murray
In Paredes Vazadas

16/06/2012

FENO




Sou andarilha navegante
enquanto em minha pele
a vida escreve seus espelhos
e o universo faz pouso
com seu barulho grave de universo

sou o cântaro onde a noite
deposita seus duendes
deposita seus leiteiros
cuidadosamente
como vagos habitantes de um mistério

sou estrada esquina encruzilhada
onde os rios desaguam seus segredos
e a lua se derrama em duas faces
dando de comer ao coração
feito um cavalo a quem se dá feno

Roseana Murray
In Paredes Vazadas
tela John Jude Palencar 1999

MAGNÓLIAS



Esse tempo que tempo
é esse
escorrendo pelo ralo
da pia
junto com os restos
do século
junto com cabelos
e silêncios
e magnólias mortas?

os homens tiram as almas
durante o dia
e guardam nos bolsos
e a noite
elas não cabem mais
no corpo
e ficam assim
inúteis
feito velas esburacadas
de barco
flutuando entre
tantos outros desejos
que já não cabem.

Roseana Murray
in Paredes Vazadas
tela Márcio Melo 

10/06/2012

FLORES


Minhas mãos tão antigas
e mortais
que já tocaram
a harpa do horror
e do mel
já tatearam a madrugada
suas sombras na parede
até o fundo do abismo
arrumam essas flores

elas traduzem a casa
indicam o caminho
parecem dizer é por aqui
por aqui o sol e a lua
o amor

em cima da mesa flutuam
e com o seu voo
tiram a casa do chão.

Roseana Murray
In Poesia Essencial