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31/12/2014

SONETO DO SONO


A tarde é tão serena que parece
vir do hálito que  sobe do teu sono.
Vejo-te ir nas nuvens do abandono,
comovido de calma. A tarde desce

ao longe , sobre o mar.Mas lenta e leve,
como a exala o sonho desse sono.
E tudo, enfim, é o sopro do abandonado
e o seu sussurrar na mão que escreve.

Dormes como num voo. Como se fosse

quando o tempo era jovem. E então me sinto
pleno de mar e luz e céu - e sou
soberbo e claro por estar absorto
no abandono desse pó de estrelas 
que se juntou para inventar teu corpo.

Ruy Espinheira Filho
In Estação Infinita e Outros Poemas

  

31 DE DEZEMBRO


Diremos outra vez as mesmas palavras
e elas serão novas,
                             embora
tenha havido o que houve
e saibamos o que sabemos.

Porque assim é. E assim será, 
                                             enquanto
aqui estivermos.
                              Enquanto
janeiro acender em nós 
a sua luz de além dos calendários
mortos.

Rui Espinheira Filho
In Estação Infinita e Outras Estações.
arte Evgeny Kouznetsov

29/12/2014

SONETO DO ANO-NOVO



Sob as primeiras luzes de janeiro,
sente ainda enfunar-se a alma rota
de cinquenta e oito anos nas derrotas
que vai singrando, rude aventureiro.

Medita, nesta praia de janeiro,
sonhando nas espumas novas rotas.
Sua alma é ainda a mesma: essas derrotas,
e os oceanos, e os ventos, e o veleiro.

Alma rota, porém ainda capaz 
de respirar palmares e areias
virgens, e ir à sua busca, até que a paz

pouse nas velas e acenda no mar
- doce de azuis abismos e sereias -
um dia lindo para naufragar.

Ruy Espinheira Filho
In Estação Infinita e Outras Estações
arte Elizabeth Blaylock

ANTES DE TUDO




Antes de tudo, não é nada disso
Não te amo: é um amor de outrora
que te ama
como se diante de um espelho

Talvez não me entendas.Mas isto
não importa: ainda  que me
entendesses
eu sofreria igual.

Nem mesmo existes como existes
em mim.Que não existo
senão
quando sonhas em mim.

Ruy Espinheira Filho
In Estação Infinita
arte Alexei Lashkevitch

02/11/2014

DIA DE FINADOS



Tantos são os abandonados
e caminham ásperos no silêncio.
Há os que rezam, os que choram, os que  se mantêm
                                                              impenetráveis.
E todos depois retornam às casas, aos pequenos
mitos auxiliares de cada dia
sob o indiferente azul do céu.
 
As flores depositadas sobre as sepulturas
absolvem os mortos.
 
Ruy Espinheira Filho
In Julgado pelo Vento

20/09/2014

SONETO DA LUA ANTIGA


De repente ficamos muito antigos.
Em seu olhar ainda reluz a lua,
porém distante, sobre antiga rua
de onde me vêm farrapos de cantigas

antigas como nós. Um desabrigo
me ofende a alma ao pensar-te nua
agora, sob a luz dura da lua
que não é a outra lua, a lua antiga

que do teu corpo retirava o brilho
com que inundava o céu  e a minha vida
em vastidão de amor, cálida lua

que já não vem - ou só como esbatida
lembrança dos teus olhos, desde quando,
de repente, ficamos muito antigos.

Ruy Espinheira Filho
In Estação Infinita e Outras Estações
arte Chagall     

ENDEREÇOS


Vai rasgando lentamente
as fichas de endereços.
Aqui morava um poeta
que bebia como um
capitão de longo curso
de oceanos de rum
 - ou de outro álcool qualquer,
pois tudo valia a pena
àquela alma tão plena.

Nesta rua o amigo sério
levava vida de asceta,
buscando luzes à bordo
de tomos inavegáveis,
os quais, se luzes possuíam,
tornavam-nas inviáveis
por tanto embuçá-las em
argumentos tão noturnos
como se em luto fechado.

Aqui habitava um anjo.
Outro ali. E outros mais.Todos
com nomes que soavam suaves
lembrando flor e menina
como Rosa, Margarida,
Violeta,Flor de Lis
e as espécies Maria.
Nomes: só o que resta desses
doces animais extintos.

Vai rasgando lentamente
os retângulos que um dia
lhe ofereceram corretos
límpidos rumos de vida,
cálidos clarões de afeto
e se tornaram palavras 
inúteis, que os endereços
agora são outros e
só em lápides inscritos.

Ruy Espinheira Filho
In Estação Infinita e Outras Estações 
arte II roseto 

   

01/09/2014

CANÇÃO DA ALMA MEDITATIVA



O vento sopra nas telhas
lembranças de um vento antigo.
Há um frio de horas velhas
na alma que se medita.
 
Sopra o vento, sopra o tempo
- e o que se medita a alma?
Não diz. Mas, seja  o que for,
será, como tudo, nada.
 
Ruy Espinheira Filho
In Estação Infinita e Outros Poemas  
arte Elen Zelin 

22/06/2014

EPÍGRAFE



Sonha que escreve;
escreve que sonha;
quando sonha, escreve;
 
quando escreve, sonha;
tudo é o mesmo sonho;
fala em sonho: escreve.
 
Escreve em papel;
escreve no chão
do quintal, nos pássaros;
 
escreve nas nuvens;
escreve na água,
nos risos, nas mágoas;
 
escreve na lua,
no sol, no horizonte,
nas pedras, nos ramos;
 
escreve nos muros;
na fala de rumos;
escreve no escuro,
 
no claro; desperto
ou dormindo, escreve;
e escreve no vento.
 
Tudo escreve, escreve;
tudo e sobre tudo
escreve, escreve; e
 
depois ainda escreve
mais; escreve ( e até
escreve que escreve )
 
para que a vida
seja um pouco  menos
obscura e breve.
 
Ruy Espinheira Filho
In Estação infinita e Outras  Estações

20/06/2014

PALAVRAS AO VENTO



Talvez tivesse morrido de tédio em pleno azul da tarde
se não fosse o vento
vir subitamente e dizer
o que disse às suas orelhas pendidas.
Que logo não estavam pendidas: altas, escutavam
o vento,
um vento de setembro com qualquer coisa
dos janeiros limpos pelas chuvas
que jamais cessam de cintilar
na memória.
E o vento falou, depois enovelou-se no capim e
dormiu.
Merecidamente, deve ter pensado o que escutara
e, escutando-o, sentira novo gosto pela vida.
Foi o que concluí, olhando disfarçadamente o velho
caçador
ergue-se e distanciar-se pelo campo verde,
soprado assim por um vento que todos nós
gostaríamos
de ouvir,
agora jovem perdigueiro
indo-se como, digamos, um barco branco
de orelhas pandas,
leve e cada vez mais longínquo,
até se desfazer azul na tarde
azul.

Ruy Espinheira Filho
In Estação Infinita e Outras Estações
arte Renoir       

18/05/2014

SONETO DE UM AMOR




Quando chegou, nem parecia ser.
Agora é isto, este pulsar violento
a rir à toa, a crepitar no vento,
e este oceano, e este amanhecer,
 
mais estas comoções de anoitecer,
mais estes girassóis no pensamento,
raio fendendo a alma (lento,lento...),
e esta estranheza de dizer e crer,
 
e este ácido pássaro no peito,
e uma ternura ardendo na ferida,
e um silêncio, e um fragor, e o céu desfeito
 
por sobre tudo, e a lua comovida
chorando um choro cândido, perfeito
a esta tortura do esplendor da vida!
 
Ruy Espinheira Filho  
In Estação Infinita  e Outras Estações
Imagem Carlos A.Quintero

08/01/2014

O AVESSO E O ESPESSO


Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.
João Cabral de Melo Neto "O Cão sem plumas"


Desconforta-me o poeta
escrever em tom avesso
à vida - dizendo o sangue
ser, mais do que o sonho, espesso.
 
Sucedeu que preferira
pedras, coisas, linha reta,
o que o levara a exilar
de si um outro poeta,
 
o seu avesso: um do verso
sem pudor de ser poesia
feita de coisas do homem
além da pele do dia.
 
Perdido aquele no exílio,
mais se perdeu o avesso,
a ponto de ver o sangue
ser, mais do que o sonho, espesso;
 
pois, se dele se partira,
assim, seu avesso poeta,
já ninguém lhe iluminava
as curvas da linha reta;
 
já não havia qualquer
para romper esse espesso
em que se fechava o poeta
nesse mundo pelo avesso;
 
para ensinar-lhe que o sonho
é que faz o sangue espesso,
e a pedra. e  a coisa, e a lâmina,
e de tudo isso o avesso;
 
que nada há mais do que o sonho,
até mesmo em seu avesso,
pois tudo é um sonho num sonho
que sonha - sem fim, de espesso -
 
sonhos de Mundo e de Vida,
e o espesso mais espesso
em que - vastos, abraçados -
sonham Deus e Seu avesso.
 
Ruy Espinheira Filho
In Estação Infinita e Outras Estações 

05/01/2014

CIRCO



Raia o sol, suspende a lua,
o palhaço está na rua.
 
Tremula a lona na praça,
tempos de assombro e de graça.
 
Ah, que gente tão risonha
nesse cidade que  sonha
 
tigres, grifos, leões de oiro
mulheres em voo loiro,
 
vindas de rússias e franças
- e acima das esperanças ...
 
Nunca além de uma semana
permanece essa profana
 
prova de que Deus existe
e nem sempre a vida é triste.
 
Baixa o sol, se esconde a lua,
não há mais nada na rua,
 
caminho de pó e vento,
formigas, cão sonolento...
 
Porém já nada é tristonho,
pois fica um sabor de sonho
 
- inferno a tempo e distância -
a nos sonhar essa infância.
 
Ruy Espinheira Filho
In Estação Infinita e Outras estações
Arte Marc Chagall

14/10/2013

AS JANELAS


Essas janelas de vidros
coloridos
são remotas.Muito
mais antigas, por exemplo, que
a mulher suave
que me  fita de teus olhos. 
 
Vejo-as
filtrar o sol
 e encantar
o chão: magos ladrilhos
azuis   vermelhos   verdes  amarelos;
até
eu me fugir por entre as telhas
e subir
aos cintilantes unicórnios.
 
Já não sei alcançar
essas janelas. Apenas em sonho
às vezes
me abençoam e logo
se evaporam
e o que resta é a
noite
em meu peito, pulsando.  
 
Na casa quieta, à luz do pátio,
elas me esperam, as janela.
Em vão, que já não posso
ir, que aquele que sabia
ir
era outro, muito mais
antigo,
por exemplo, que o homem triste
que te fita dos meus olhos.
 
Ruy Espinheira Filho
In As Sombras Luminosas
tela Willen Haenraets 

15/07/2013

A INELUTÁVEL CANÇÃO




Há pouco chovia
e não chove mais.
Há pouco sorria,
na lua do espelho,
teu corpo: centelha
deflagrando anjos
que a tarde soprava
por sobre os quintais.
 
Há pouco esplendia
ao sol o regato.
Esplendia e ia
entre os nossos sonhos,
pelos nossos corpos,
atiçando mais
a flama dos sexos
em flor nos quintais.
 
Há pouco era dia
- e já não é mais!
Faz escuro e ouvimos
um silêncio podre
que sobe de nós
- e das sombras dos
extintos quintais.
 
Ruy Espinheira Filho
In Poesia Reunida
tela Delphin Enjolras

15/04/2013

O QUE LER NO POEMA




a Jacinto Prisco
 
O elfo insubmisso
em seu Grifo embruxado;
Pégaso nascendo
 
Entre meninos  cegos;
 
o vento soprando
janelas demolidas,
regendo uma orquestra
 
que ficou no mar;
 
o pássaro Sempre
inscrito no peito;
as tranças desfeitas
 
nos ombros curvados;
 
Lysis, a estrela,
ungindo a súplica
além da palavra;
 
a fonte secreta
 
perdida em si mesma,
como se perde a
areia na areia.
 
Ruy Espinheira Filho 
In Poesia Reunida e Inéditos
tela  Andrew Ferez

26/03/2013

CANÇÃO DE UMA BRISA




Visito teu corpo
no mesmo jardim
da cálida noite
que não cessa em mim
 
e em que agora e sempre
te enlaço assim
e te beijo a boca
e não tenho fim
 
na alma e no mais
que me seja a vida,
ainda que apenas
brisa comovida
 
que aquele jardim,
sob estrelas pasmas,
sopra para mim
de nossos fantasmas.
 
Ruy Espinheira Filho
In Sob o Céu de Samarcanda
tela Willem Haenraets

03/01/2013

CARTA



O vento da noite
soprando as cortinas

ele embalado por um
cabernet sauvignon
escreve para ela

mesmo sabendo que se perderá
a carta
logo que a lançar no tempo
mesmo assim
escreve

porque não importa
que não chegue
porque só importa que ele
escreva
escreva escreva  escreva
para decantar um pouco
não a alma do vinho
mas a sua própria
que 
embora em corpo antigo
não se suaviza
e ainda esculpe em nuvens
traça caminhos na espuma
como se nada estivesse
morto.

Porque na verdade
não está
nada está morto.

por isso ele escreve
porque só importa
que ele escreva
por causa do que em si
arde
ainda que num corpo 
cálido apenas como 
cinzas.

Por isso escreve
sabendo que
nada podem as palavras
(essa vela rota lançada
do tempo)
porque tudo referve ainda
a muito mais que os graus 
do vinho

por isso escreve
como se rezasse a si mesmo
numa era extinta

porque não é a ela
é a si mesmo que escreve
(porque nele é que ela habita
a luminosa)
frases como cilícios
flagelos
escreve escreve escreve

porque os sinos não param
de dobrar
por ele
e a memória se contorce
e assim é
e não de outro modo

ele então rasgará as folhas escritas
e recomeçará
incapaz de uma pausa
mesmo
sem caneta sangrando
sobre o papel
escreverá
acordado ou dormindo
lançando a vela rota
tão longe como o que não foi
não chegou a ser
inflando
essas tramas fulgurantes
mesmo sabendo que são
indiferentes aos deuses

como cortinas sopradas
pelo vento da noite.

Ruy Espinheira Filho
In Sob o Céu de Samarcanda

28/12/2012

CANÇÃO DE SONHO E LEMBRANÇA




Esta tarde lembra um sonho
que é um sonho que me lembra
céus rasgados de janeiro,
velhas canções de dezembro.
 
Esta tarde lembra sonho,
o sonho relembra um rio,
o rio sonha um menino
feito de água e de frio.
 
Feito nuvens, campinas
anterior ao adeus,
cintilando de si mesmo,
brincando de espuma e Deus.
 
Menino, rio, nuvens, tarde
cheirando a terra e jasmim:
sonho que cintila e arde
no azul de lembrar-se em mim.
 
Ruy Espinheira Filho
In Sob o Céu de Samarcanda
 

21/12/2012

PALAVRAS DO VENTO



Talvez tivesse morrido de tédio em pleno azul da tarde
se não fosse o vento
vir subidamente e dizer
o que disse às suas orelhas pendidas.
Que logo não estavam pendidas: altas, escutavam 
o vento,
um vento de setembro com qualquer coisa
dos janeiros limpos pelas chuvas
que jamais cessam de cintilar 
na memória.

E o vento falou, depois enovelou-se no capim e dormiu.
Merecidamente, deve  ter pensado o que o escutara
e, escutando-o, sentira novo gosto pela vida.
Foi o que concluí, olhando disfarçadamente o velho caçador
erguer-se e distanciar-se pelo campo verde,
soprado assim por um vento que todos nós gostaríamos 
de ouvir,
agora jovem perdigueiro
indo-se como, digamos, um barco branco
de orelhas pandas,
leve e cada vez mais longínquo,
até se desfazer azul na tarde
 azul.

Ruy Espinheira Filho
In Poemas Reunidos
tela Vicent Van Gogh