19/11/2014

XXV ( lembrança)


Perto do rio tenho sete anos.
(Penso que o rio me aprimorava)
Acho vestígios de uma voz de pássaro nas
águas.
Viajo de trem para o Internato.
Vou conversando passarinhos pela janela do
trem.
Um bedel raspou a cabeça de meu irmão no
internato.
Havia um muro cheio de ofendículos.
Liberdade havia de se pular aquele muro.
Do outro lado havia um guaviral onde os
moços e as moças se encontravam e se filhavam. 
A gente manuseava os pichitos.
Na Igreja os padres reuniam os alunos e
tentavam falar a sério.
Mas eu sempre achei muita graça quando as
pessoas estão falando sério.
Acho que isso é um defeito alimentar.
 
Manoel de Barros
In Poesia Completa
 

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De noite passarinho é órfão
para  voar. Não enxerga
nem o pai das vacas
nem o adágio dos arroios.
Seu olho de ovo emaranha com folhas.
No escuro não sabe medir direção e trompa nos paus.
Passarinho é poeta de arrebol.
 
Manoel de Barros
In Poesia Completa
arte  Zou Chuan

18/11/2014

COISAS



HÁ COISAS QUE CAUSAM AGONIA:
abraço contido que não conforta,
mão fechada que não acaricia,
lábios emudecidos, verdade morta.
Há coisas que me causam pesar:
a mentira que só machuca,
o amor que não cria raízes,
a saudade que não queres falar.
Há coisas que me causam enlevo:
amor dito e correspondido,
boca disposta a beijar,
coração vibrando no peito
e a paixão espargida no ar.
 
Odenilde Nogueira Martins
In Letras da Confraria 
arte Romero Brito

VERBO AD VERBUM




PALAVRA É ÁGUA
que mata a sede,
brota da sombra.
 
Persigo a palavra
no vão da sombra
que me foge.
 
Colho a palavra
em estado de crise.
 
Ergo-a no escuro.
 
Ferida de luz
a poesia sangra.
 
Dúnia de Freitas
In Letras da Confraria
arte Donald Flather

16/11/2014

A SUCESSÃO DO SER



Nas embocaduras do tempo,
no momento do eterno dia
em que sobrar da noite o resto,
o mundo à cor dos olhos vaza
o branco inicial do mundo:
 
Emborcaremos sóis e luas
na cegueira de outro universo?
Como criá-lo, senão aos olhos,

como criá-lo, senão a um mundo
alheio e cego a nosso teto?
 
Quem renasce outra vez de novo
se enche de vida uma outra vez.
No sábado, gira o crepúsculo.
No domingo, que azul condômino
cobrará ao hóspede o instantâneo?
 
Nada haverá eternamente
exceto as coisas que serão
do tempo e do seu esquecimento.
Se renasço outra vez, de novo
me encho de morte para sempre.
 
Nauro Machado
In Opus da Agonia 
arte Aleksandrina Karadjova  

12/11/2014

PARCERIA


 
Ficamos assim:
você joga as queixas no telhado,
eu ponho as manias de lado;
você lava a escadaria,
eu rego o jardim
Podemos varrer juntos
as nódoas secas aderentes ao passado.
Se você se habilita, eu me disponho,
num desafio à desdita.
Você acende a luz,
eu desempeno o sonho;
eu troco a fita.
Na mesa torta, a toalha colorida.
O resto é fácil:
basta mandar flores ao futuro,
derrubar o muro e acreditar na vida.
 
Flora Figueiredo
In O Trem que traz a noite  
arte PARIS LOVE by Leonid Afremov

02/11/2014

DIA DE FINADOS



Tantos são os abandonados
e caminham ásperos no silêncio.
Há os que rezam, os que choram, os que  se mantêm
                                                              impenetráveis.
E todos depois retornam às casas, aos pequenos
mitos auxiliares de cada dia
sob o indiferente azul do céu.
 
As flores depositadas sobre as sepulturas
absolvem os mortos.
 
Ruy Espinheira Filho
In Julgado pelo Vento

15/10/2014

FELIZ COINCIDÊNCIA



qualquer coincidência
é mera semelhança
enquanto o quixote pensa
sancho coça a sancha  pança

todas as coisas sejam iguais
que  o vermelho seja verde
o azul seja amarelo
e sempre seja nunca mais

Paulo Leminski
In Toda Poesia
arte Candido Portinari

***


Antes que a tarde amanheça
e a noite vire dia
põe poesia no café
e café na poesia

Paulo Leminski
In Toda Poesia

05/10/2014

OUTONO PRECOCE


Odor picante já de folhas murchas,
trigais a abrir-se  vagos e sem vista:
sabe-se que das tempestades próximas
uma desnucará nosso exausto verão.

As vagens da giesta rangem. De repente 
avultam ante nós o distante e o lendário:
o que hoje imaginamos ter na mão
perde-se, e cada flor, misteriosamente.

Na alma assustada cresce um tímido desejo:
de não prender-se à  vida  em demasia,
de aceitar como as árvores o emurchecer,
de não deixar que ao seu outono faltem cores e alegria.

Hermann Hesse 
In Andares
Tradução Geir Campos 

PASSEIO NO FIM DO OUTONO


Chuva de outono esgravatou o bosque cinza,
ao vento da manhã o vale tem arrepios de frio,
caem do castanheiro os duros frutos
e racham-se e gargalham úmidos e pardos.

O outono tem esgravatado minha vida,
o vento puxa as folhas em frangalhos,
sacode galho por galho: onde está o fruto?

Dei flor de amor, o fruto foi de dor.
Dei flor de fé, o fruto foi de ódio.
O vento me repuxa os galhos secos:
rio-me dele e ainda resisto aos temporais.

Para mim, o que é fruto? O que é meta? - Eu dei flor,
e minha meta era florir.Agora eu murcho,
e minha meta é murchar: nada mais.
Escassas metas se propõe o coração...

Deus vive em mim, Deus morre em mim, Deus pena
no peito meu: para mim, é meta bastante.
Caminho e descaminho, flor ou fruto,
é tudo a mesma coisa: palavra apenas.

Ao vento da manhã o vale tem arrepios de frio,
caem do castanheiro os duros frutos
a rir em alto e bom som. E eu, com eles, me rio.

Hermann Hesse
In Andares
Tradução Geir Campos 

04/10/2014

ZONA HERMÉTICA




De repente, intrometem-se uns nacos de sonhos;
Uma remembrança de mil novecentos e onze;
Um rosto de moça cuspido no capim de borco;
Um cheiro de magnólias secas.O poeta 
Procura compor esse inconsútil jorro;
Arrumá-lo num poema; e o faz.E ao cabo  
Reluz com a sua obra.Que aconteceu? Isto:
O homem não se desvendou, nem foi atingido:
Na zona onde repousa em limos
Aquele rosto cuspido e aquele 
Seco perfume de magnólias,
Fez-se um silêncio branco...E aquele
Que não morou nunca em seus próprios abismos 
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas
Não foi marcado.Não será marcado.Nunca  será exposto
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.

Manoel de Barros
In Poesia Completa    

21/09/2014

INFÂNCIA




Viver era para sempre
e o tempo uma coisa
redonda
ondulando feito céu e mar
o tempo não era
perigoso mistério
entranhas de uma caverna
o tempo simplesmente 
não existia
do jeito que existe hoje
latejante urgente
irreversível.

Roseana Murray
arte Dima Dimitriev

20/09/2014

SONETO DA LUA ANTIGA


De repente ficamos muito antigos.
Em seu olhar ainda reluz a lua,
porém distante, sobre antiga rua
de onde me vêm farrapos de cantigas

antigas como nós. Um desabrigo
me ofende a alma ao pensar-te nua
agora, sob a luz dura da lua
que não é a outra lua, a lua antiga

que do teu corpo retirava o brilho
com que inundava o céu  e a minha vida
em vastidão de amor, cálida lua

que já não vem - ou só como esbatida
lembrança dos teus olhos, desde quando,
de repente, ficamos muito antigos.

Ruy Espinheira Filho
In Estação Infinita e Outras Estações
arte Chagall     

ENDEREÇOS


Vai rasgando lentamente
as fichas de endereços.
Aqui morava um poeta
que bebia como um
capitão de longo curso
de oceanos de rum
 - ou de outro álcool qualquer,
pois tudo valia a pena
àquela alma tão plena.

Nesta rua o amigo sério
levava vida de asceta,
buscando luzes à bordo
de tomos inavegáveis,
os quais, se luzes possuíam,
tornavam-nas inviáveis
por tanto embuçá-las em
argumentos tão noturnos
como se em luto fechado.

Aqui habitava um anjo.
Outro ali. E outros mais.Todos
com nomes que soavam suaves
lembrando flor e menina
como Rosa, Margarida,
Violeta,Flor de Lis
e as espécies Maria.
Nomes: só o que resta desses
doces animais extintos.

Vai rasgando lentamente
os retângulos que um dia
lhe ofereceram corretos
límpidos rumos de vida,
cálidos clarões de afeto
e se tornaram palavras 
inúteis, que os endereços
agora são outros e
só em lápides inscritos.

Ruy Espinheira Filho
In Estação Infinita e Outras Estações 
arte II roseto