by Francisco Hayez - II Bacio, 1859
CONHECIMENTO DO AMOR
Amor, como o compreendo agora, é mais
renúncia que desejo. Outrora hostil,
agressivo, hoje súplica, murmúrio
íntimo,cinzas em silêncio, amor,
à morte assemelhando-se , besouro
em agonia, dor de perda, o sonho
estraçalhado, renunciar, renunciar sempre,
e sem espera, ao corpo amado.
A vida me consente essa amargura
e é preciso vivê-la sem demora,
abrir os olhos, aceitar a sombra,
meditar sem rancor a decepção -
instante em que a mulher se distancia
e a voz ao telefone ri tranqüila
anunciando a partida: outros braços,
agora, amor, mesclado de impotência
e irrisão, lágrimas que não se mostram.
Toda renúncia compõe jogo amargo
de desespero e morte. Renunciar,
ainda que de joelhos, deitado, o corpo
ansiando pelo teu amor, se fira,
e o coração, tumulto, empalideça
e nada reste enfim que a vida mesma,
percorrida com calma e indiferença.
Assim amor, te compreendo agora:
- devoção malquerida a toda hora.
Fernando Py
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