Foto de nikhari/ Krishna
MÚSICA
Ia tão longe aquela música,Bhai!
E o luar brilhava.Mas por mais que o luar brilhasse,
não se sabia quem tocava e em que lugar.
Pelos degraus daquela música,Bhai,
podia-se ir além do mundo, além das formas,
e do arabesco das estrelas pelo céu.
Quem tocaria pela solidão,Bhai,
na clara noite - toda azul como o deus Krishna -
alheio a tudo, reclinado contra o mar!
Ia tão longe a tênue música,Bhai!
E era no entanto uma pequena melodia
tímida,triste, em dois ou três límpidos sons.
Tão frágil sopro em flauta rústica, Bhai!
- como o da vida em nossos lábios provisórios...
- amor? queixume, pensamento? - nomes no ar...
Ele tocava sem saber que o ouvido,Bhai,
podia haver acompanhado esse momento
da sua rápida presença em frágil voz.
E ia tão longe aquela música,Bhai!
Com quem falava, entre a água e a noite? e que dizia?
(Da vida à morte, que dizemos, Bhai, e a quem?)
Cecília Meireles
In Poemas Escritos na Índia
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