09/11/2021

PEQUENO COSMOS




Ah, rosas, não, nem frutos, nem rebentos. 
Horta e jardim sobejam nestes versos
De consonâncias velhas e bordões.

Navegante dum espaço que rodeio
(Noutra hora diria que infinito),
É por fome de frutos e de rosas
Que a frouxidão da pele ao osso chega.

Assim árido, e leve, me transformo:
Matéria combustível na caldeira
Que as estrelas ateiam onde passo.

Talvez, enfim, o aço apure e faça

Do espelho em que me veja e redefina.

- José Saramago 
 de "Os poemas possíveis". 

BALANÇA





Com pesos duvidosos me sujeito
À balança até hoje recusada.
É tempo de saber o que mais vale:
Se julgar, assistir, ou ser julgado.
Ponho no prato raso quanto sou,
Matérias, outras não, que me fizeram,
O sonho fugidiço, o desespero
De prender violento ou descuidar
A sombra que me vai medindo os dias;
Ponho a vida tão pouca, o ruim corpo,
Traições naturais e relutâncias,
Ponho o que há de amor, a sua urgência,
O gosto de passar entre as estrelas,
A certeza de ser que só teria
Se viesses pesar-me, poesia.

 José Saramago,
 de Os poemas possíveis 
arte Dorina Costras

05/11/2021

DESENCONTRO II



No avesso das palavras
na contrária face
da minha solidão
eu te amei
e acariciei
o teu impercetível crescer
como carne da lua
nos noturnos lábios entreabertos

E amei-te sem saberes
amei-te sem saber
amando de te procurar
amando de te inventar

No contorno do fogo
desenhei o teu rosto
e para te reconhecer
mudei de corpo
troquei de noites
juntei crepúsculo e alvorada

Para me acostumar
à tua intermitente ausência
ensinei às timbilas
a espera do silêncio.

Mia Couto
de Poemas Escolhidos
arte Abdullah Evindar

DESENCONTRO I

 

Não ter morada
habitar
como um beijo
entre os lábios
fingir-se ausente
e suspirar
(o meu corpo
não se reconhece na espera)
percorrer com um só gesto
o teu corpo
e beber toda a ternura
para refazer
o rosto em que desapareces
o abraço em que me desobedeces.

Mia Couto
de Poemas Escolhidos
arte Matteo Arfanotti

04/11/2021

TERRAS DE INFÂNCIA


Quando revemos as terras de nossa infância,
certo enlevo, uma ternura nos envolve 
e perdemos a  noção dos passos no chão.
É um pouco assim como se fossemos levados por uma
                                                                           nuvem,

ou se deslizássemos sobre as águas,
talvez transportados por um grande e belo cisne, -
um sentimento indefinível, afinal, como um sonho.
É o passado que volta, à infância,
a inocente e sagrada infância que não devemos 
                                                                   afastar,
pois enquanto a tivermos em nós,
é uma possibilidade de salvação que possuímos.

Harry Laus
de O Jardim de Judith
arte Edward Henry Potthast
 


31/10/2021

DE UM SEGREDO


Do interior, quero
um vestido semeado de flores
a repetir nos botões de vidro,
em suave reticência:
o musgo do beco,
a luz pungente do meio-dia,
a praça,
a poesia de um cemitério pequeno...
Quero do meu interior
o caminho sombrio das entranhas
e seus quentes humores...
Do interior do interior,
quero
a intensidade do fogo,
o sangue,
e deles,
a coragem para os abismos.


Elizabeth Gontijo
arte Dorina Costras

30/10/2021

ATENÇÃO

 

Aos jovens aficionados
A cortejar garotas de boa índole
Nos jardins dos monastérios
Informo com toda a franqueza
Que no amor
                                           por mais casto 
por mais inocente que pareça no começo
é comum surgirem complicações.

Estou totalmente de acordo
Que o amor é mais doce que o mel.

Porém adverte-se
Que no jardim há luzes e sombras
Além de sorrisos
No jardim há desgostos e lágrimas
No jardim há não só verdade
Mas também um pouco de mentira.

Nicanor Parra
de Só Para Maiores de Cem Anos
Arte Amanda Cass


NO QUILO

 


Aproveito a hora do almoço
Para fazer um exame de consciência
Quantos braços me restam por abrir?
Quantas pétalas negras  por fechar?
Sou quando muito um sobrevivente!

O aparelho de rádio me recorda
Dos meus deveres, aulas, poemas
Com uma voz que parece saída
Do mais profundo sepulcro.

O coração não sabe o que pensar.

Faço como se olhasse os espelhos
Um cliente espirra sua mulher
Outro acende um cigarro
Outro lê as últimas Notícias.

Que podemos fazer, árvore sem folhas
Além de dar uma última espiada
Na direção do paraíso perdido!

Responde, sol escuro 
Ilumina um instante
Mesmo que depois te apagues para sempre.

Nicanor Parra
de Só Para Maiores de Cem Anos
Arte Irina Kotova

TEMPOS MODERNOS



Atravessamos tempos calamitosos
impossível falar sem incorrer em crime de contradição
impossível calar sem se ter tornado cúmplice do Pentágono.
Sabe-se perfeitamente que não há  alternativa possível
todos os caminhos levam a Cuba
mas o ar está sujo
e respirar é um ato falho.
O inimigo diz
que o país tem toda a culpa
como se os países fossem homens.
Nuvens malditas revoluteiam em torno de vulcões malditos
embarcações malditas empreendem expedições malditas
árvores malditas se desfazem em pássaros malditos:
tudo contaminado de antemão.

Nicanor  Parra 
de Só Para Maiores de Cem Anos.
Arte Andrius Kavoliunas


O DESTINO DA FOLHA


 Irás... eu ficarei folha, sem dono,
Dispersa e então levada pelo vento,
Tu verás que ainda mesmo ao abandono
eu saberei calar o meu tormento.

E quando a folha morta, tão sem dono,
For levada daqui, num desalento,
Há de levar para velar-lhe o sono 
A saudade de ti  - único alento - 

Hei de sonhar um turbilhão de versos...
E hei de juntar os que já estão dispersos
Como cinzas desfeitas sem calor...

E quando a  primavera trouxer lírios,
Acenderei dois sonolentos círios.
E rezarei por ti, por nosso amor!

Lausimar Laus
de A Décima Carta - Laus.Apenas.
arte Dorina Costras

29/10/2021

ANO NOVO




 Prepara-se o jardim.
Há um movimento do botão à flor
em câmara lenta.
O rosto pequeno das violetas
esconde seu perfume nas folhas
sussurrando segredos 
                              salta o sabiá na aragem
e suplica à rosa de ontem
que não desfolhe seu rubor.

Promete a nova noite
a estrela que quisermos.
O CISNE - constelação que amamos - 
cintila noutro céu.
                             Entre ar e folhagem
o pedido calado alcança
um pássaro estelar.

Dora Ferreira da Silva
de Poemas da Estrangeira
arte Bill Inman

28/10/2021

À PORTA



Pessoas há
       
                  que têm surtos incontroláveis:
- as mais ousadas.

Outras
passam a vida inteira 
com a mão aflita
na maçaneta da porta

                                  - trancada.


Affonso Romano de Sant'Anna
de Sísifo desce a montanha
arte Dorina Costras
          

DIANTE DA TV



 Nos anúncios na tevê
somos lindos, sorridentes,
cabelos longos e radiosos
provamos saborosos alimentos
matamos todas as impurezas
compramos velozes carros
e tranquilos bebemos
os melhores drinques.

Mas aí cessa o intervalo, o recreio:
irrompem filmes e notícias, jorra
a tempestade de sangue
no sofá, estantes, paredes e tapetes.


Mas isto é rápido

                                 de novo
                                  novo anúncio

e a utopia do consumo
nos entorpece os sonhos
nos fazendo esquecer
onde estamos 

                           - e quem somos

Affonso Romano de Sant'Anna
de Sísifo desce a montanha
arte Alexandrina Karadjova

SILÊNCIO

 

O silêncio da noite ergueu-se, agora,
Como fantasma que surgiu da bruma:
Silêncio  enorme que se esfuma...
A vida é outra, agora;
A noite a idealiza...
A noite elege a calma Poesia,
Como um gesto de Deus, acaricia...
Tudo se abranda e purifica...
Minha alma é toda branca:
Sobre o negro da noite, ela aparece 
Como gema de luz, 
Que, em estojo de sonho, resplandece...

Maria de Santa Isabel
de Flor de Esteva
arte Leonid Afremov


BONECOS DE ESTREMOZ



 Bonequinhos de barro de Estremoz!
 Floridas cantarinhas! Primaveras!
 Figuras dum presépio de quimeras!
Quem foi que lhes deu vida no meu sonho?
Eterna fantasia cor de luz,
Milagre suavíssimo, risonho,
Do Menino Jesus...

Horas de minha infância, luminosas,
Da  minha crença infinda...
Que até mesmo nas sombras dolorosas
Me iluminam ainda!

- Pelos campos de musgo vão subindo,
Em marcha vagarosa,
Pastores e rebanhos! Sonho lindo,
De quando a nossa vida é cor de rosa!
Um mundo de brinquedos, de alvo encanto,
O mundo em que eu vivi,
De quando sempre em nós  é dia santo
E tudo nos sorrir!

Lá vão os Reis Magos,
De olhos fitos na estrela que rebrilha,
Reflectindo no espelho azul dos lagos,
A sua luz, doirada maravilha!
Estrelinha anunciando milagrosa
A vida do Menino...
No céu da tela, vibra, luminosa,
Com um fulgor divino!
E, no presépio, além,
O nosso Bom Jesus de olhar profundo...
São José...Sua mãe:
Eis o poder do Mundo!

Cenário de ilusões! Ainda, agora,
De olhos ardentes, vou fitar-te em vão...
Não sinto em mim aquela paz outrora...
Mas deixa-me sonhar o coração!

Maria de Santa Isabel
de Flor de Esteva
foto de Jorge da  Conceição