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09/01/2011

BARCOS É O QUE SOMOS























A teu lado viajo.
Contigo navego.
Remos são as palavras
que te digo e escrevo.

Âncoras de ternura
com elas compomos
e mastros de espuma.

Barcos é o que somos.

Albano Martins
In Complementos de Lugar
tela de Michel Rauscher

SILÊNCIO INTACTO























Sobe até ao cimo da manhã.
É lá que deves esperar-me,
grande intervalo de silêncio
musicado e fresco,
até que eu me liberte
do terror das palavras sedentárias
e aprenda, irmão mais novo dos insetos,
a linguagem perfumada das flores.

Albano Martins
In Antologia Poética
foto de venetia 27

26/10/2010

A POETISA
























Já sabíamos
que na poesia cabem
todas as cores e todos
os disfarces. Ou não fosse ela
feminina.Mas lá
também cabem, como agora
sabemos, todos
os timbres
do solfejo. No corpo
da poesia há sempre
uma partitura: é esse
o sexo
do poema.Feminino,
como o da música
e das abelhas
que dão substância
ao quadro. Masculino,
só o pólen na vulva
do poema. Ou da poetisa,
neste caso.

Albano Martins
In Antologia Poética
tela de Assaf Frank

OFÍCIO E MORADA



















Im
puro sou.Escavo
com minhas mãos a lama
do silêncio. Não
conheço outro ofício.
*
Cubro-te a face
de sombras. Sou
o teu e  meu eclipse.
*
Busco
a flor do cálcio
na
luz da madrepérola.
*
Moro
na orla
marítima do sangue.

Albano Martins
In Antologia Poética
tela de Claude Monet

PARALELO AO VENTO























Esguio
lento

paralelo
ao vento

o corpo
o sangue

a rutilante
esfera

o dia
ador

mecido
sobre

colinas e
crateras.

Albano Martins
In Antologia Poética
tela de Joy Scherger

24/07/2010

PEQUENAS COISAS
























Falar do trigo e não dizer
o joio.Percorrer
em voo rasos os campos
sem pousar
os pés no chão.Abrir
um fruto e sentir
no ar o cheiro
a alfazena.Pequenas coisas,
dirás, que nada
significam perante
esta outra, maior: dizer
o indizível.Ou esta:
entrar sem bússola
na floresta e não perder
o rumo.Ou essa outra, maior
que todas e cujo
nome por precaução
omites.Que é preciso,
às vezes,
não acordar o silêncio.

Albano Martins
In Escrito a Vermelho
Tela by Danita Delimont

29/01/2009


Foto de haberlea

BARCOS É QUE SOMOS

A teu lado viajo.
Contigo navego.
Remos são palavras
que te digo e escrevo.

Âncoras de ternura
com elas compomos
e mastros de espuma.

Barcos é que somos.

Albano Martins
In Complementos de lugar

10/10/2008


Alex Kneeling by Mark Demsteader

ESPAÇO DISPONÍVEL

Deito-me no teu corpo
como se fosses
a minha última cama
no meu quarto de hóspede dos dias.
Deito-me e velo
a criança lúcida
que dorme reclinada
na orla marítima do silêncio.
Ali onde o tempo
se anula e renova
na substância palpável
dum gesto ou dum olhar
colhidos sobre a água
construo a minha casa,
habito o espaço inteiro
disponível para a vida,
necessário para a morte.

Albano Martins
In Em Tempo e Memória(1974)

Foto de love_child_kyoto

POEMA PARA HABITAR

A casa desabitada que nós somos
pede que a venham habitar,
que lhe abram as portas e as janelas
e deixem passear o vento pelos corredores.
Que lhe limpem os vidros da alma
e ponham a flutuar as cortinas do sangue
– até que uma aurora simples nos visite
com o seu corpo de sol desgrenhado e quente.
Até que uma flor de incêndio rompa
o solo das lágrimas carbonizadas e férteis.
Até que as palavras de pedra que arrancamos da língua
sejam aproveitadas para apedrejarmos a morte.

Albano Martins

25/09/2008


by John Willian Waterhouse

Tu choravas e eu ia apagando
com os meus beijos os rastos das tuas lágrimas
- riscos na areia mole e quente do teu rosto.
Choravas como quem se procura.
E eu descobria mundos, inventava nomes,
enquanto ia espremendo com as mãos
o meu sangue todo no teu sangue.

Não sei se o mundo existia e nós
existiamos realmente.
Sei que tudo estava suspenso,
esperando não sei que grave acontecimento,
e que milhares de insectos paravam e
zumbiam nos meus sentidos.
Só a minha boca era uma abelha inquieta
percorrendo e picando o teu corpo de beijos.

Depois só dei pela manhã,
a manhã atrevida,
entrando devagar, muito devagar e
acordando-me.
Desviei os meus olhos para ti:
ao longo do teu corpo morriam as estrelas.
A noite partira. E, lentamente,
o sol rompeu no céu da tua boca.

Albano Martins