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09/11/2019

ENQUANTO SE MOVE A LUA



À noite não dormem
as cerejeiras em flor.
Seu breve tempo de vida
não lhes permite sono.
Ausentes os beija-flores que as cortejam de dia
distantes os besouros e abelhas
agora recolhidos em seus ninhos,
somente as pétalas velam no silêncio
avançando rumo ao pleno esplendor
que marcará o início do seu fim.

Marina Colasanti
In Passageira em trânsito


20/07/2014

ENQUANTO O RESPIRAR




O amor morreu
diz quem não sabe amar,
morreu a arte
o romance se foi
o autor está defunto.
Aninham-se os coveiros nas suas frases
enquanto o respirar das coisas mortas
ergue
sereno
o peito do mundo.
 
Marina Colasanti
In Passageira em Trânsito
arte Angela Loenning

26/08/2013

SE ELE APENAS



Diz a lenda que o poeta
Li Po
afogou-se na noite em que
embriagado
quis agarrar a Lua
sobre o lago.
É lenda, bem se vê.
Pois a verdade é que
a Lua
teria seguido o poeta
a qualquer canto
se ele apenas a  tivesse chamado.
 
Marina Colasanti
In Rota de Colisão

LÁ FORA, A NOITE


 
É quando a família dorme
- inertes as mãos nas dobras dos lençóis
pesados os corpos sob a viva mortalha -
que a mulher se exerce.
Na casa quieta
onde ninguém lhe cobra
ninguém lhe exige
ninguém lhe pede
                            nada
caminha enfim rainha
nos cômodos vazios
demora-se no escuro.
E descalços os pés
aberta a blusa
pode entregar-se
plácida
ao silêncio.
 
Marina Colasanti
In Rota de Colisão
tela  R.D.Roy

15/07/2013

VINCENT




Ciprestes de Van Gogh
imóveis labaredas
verdes incêndios sobre a tela
verdes mulheres nuas
em seus cabelos.
 
Ciprestes de Van Gogh
bizantinas colunas
da paisagem
vórtice
remoinho erguido
como o grito
o fallus
o arremesso de gozo
do pintor.
 
Marina Colasanti
In Rota de Colisão
tela Vincent Van Gogh

08/01/2013

ROTA DE COLISÃO



De quem é esta pele
que cobre a minha mão
como uma luva?
Que vento é este
que sopra sem soprar
encrespando a sensível superfície?
Por fora a alheia casca
e a distância entre as duas
que me atropela.
Pensei entrar na velhice
por inteiro
como um barco
ou um cavalo.
Mas me surpreendo
jovem velha e madura
ao mesmo tempo.
E ainda aprendo a viver
enquanto avanço
na rota em cujo fim
a vida
colide com a morte.

Marina Colasanti
In Rota de Colisão
Tela Giovanni Dalessi 

28/12/2012

PASSANDO DOS CINQUENTA




Meu pescoço se enruga.
Imagino que seja
de mover a cabeça
para observar a vida.
E se enrugam as mãos
cansadas dos seus gestos.
E as pálpebras
apertadas no sol.
Só da boca não sei
o sentido das rugas
se dos sorrisos tantos
ou de trancar os dentes
sobre caladas coisas.

Marina Colasanti
In Rota de Colisão
tela de Catherine Alexandre

VERÃO EM CAMPO GRANDE




É o tempo em que as mangueiras
se vestem de vermelho.
Folhas de fulva seda
cintilar de cetim.
Redondas como seios
ou ventres
as copas brotam
cor de carne nova.
E nos troncos,
espesso como sangue,
escorre
o cantar das cigarras.
 
Marina Colasanti
In Rota de Colisão

A ALMA É VÃ CONSELHEIRA


Minha alma me diz
que meu amado
já não me ama hoje
como ontem.
Nada foi dito
nada foi mudado
e no entanto
uma fresta se abriu
por onde o vento
me estremece as carnes.
Olho seu rosto
à procura daquilo
que não quero saber
e nem deixa sinais.
Mas seus lábios me dizem
que me  adora
e seus olhos me dizem
que me trai.
 
Marina Colasanti
In Rota de Colisão
tela Victor Ostrovsky

SEM CANTO DE CIGARRAS



Roxa flor de alecrim
perfume de tomilho.
O sol da horta pastoreia couves
repica salsas.
A aranha cerze
o espaço entre duas folhas.
Mas nas mimosas
negros insetos
de afiados dentes
serram decepam
guilhotinam galhos.
E quando defrontados
entre si
lutam à morte
cortando as patas
uns dos outros
como se fossem galhos
ou tivessem flores. 
 
Marina Colasanti
In Rota de Colisão
foto de Sonia Gonçalves 

23/12/2012

É QUANDO A CHUVA CAI




É quando a chuva cai
e os pássaros se calam
que meus mortos 
passeiam no jardim.
Vejo a amiga esgueirar-se 
atrás do tronco
há um parente no galho empoleirado
outro goteja quieto
sobre a pedra.
E os mais moços
ainda presos à vida
percorrem os caminhos.

Protegido meu rosto
na toca do capuz
tento ouvir-lhes as vozes.
mas por mais que me esforce
ouço apenas a chuva.
E me deixo ficar
sentada na neblina
como um buda de capa amarela.

Marina Colasanti
In Rota de Colisão
tela  Leonid Afremovic

21/10/2012

ANTES DE VIRAR GIGANTE


No tempo d'eu menina
os corredores eram longos
as mesas altas
as camas enormes.
A colher não cabia
na minha boca
e a tigela de sopa
era sempre mais funda
do que a fome.
No tempo d'eu menina
só gigantes moravam
lá em casa.
Menos meu irmão e eu
que éramos gente grande
vinda de Lilliput.
 
 
Marina Colasanti
In Rota de Colisão
tela Mollie Kellogg

01/04/2012

PASSADO E COLHER DE PAU



Ameixas fervem no açucar,
geléia cor de sangue
que borbulha
deitando um cheiro rubro pela casa.
Eu remexo a panela
sobre o fogo
mas no redemoinho que se abre
não é o ponto que busco.
É o sabor primeiro da palavra ameixa
aquele que me beijava a língua
e me dizia:
o verão chegou.

Marina Colasanti
Poesias em 4 Tempos

29/05/2011

BATALHA, AO FIM



















Os dedos do meu homem percorrem o cachorro
coçando carrapatos.
Pequenos sanguívoros
escondidos na floresta dos pelos
acabarão mortos por água ou fogo
lançados na lareira ou na privada
quando apenas buscavam alimento.
Este é o destino do ser vivo
ser caçado e caçar na luta por comida
batalha
ao fim, sempre
perdida.

Marina Colasanti
In Passageira em Trânsito
foto http://asbemcasadas.blogspot.com/

DÚVIDA HISTÓRICA



















Diz Montale que se estava apertado
no ventre do Cavalo de Tróia
uns contra os outros como sardinha em lata.
E eu me pergunto se teriam
os de Ulisses
esculpido conspícuos testículos e
um membro no seu histórico equino
para melhor burlar os inimigos.
Pois não era cavalo
o que deixaram
como presente fosse
frente à porta.
Sob seu duplo disfarce, era uma égua
que à noite
na solidão silente entre muralhas
lhes pariu uma ninhada
de assassinos.

Marina Colasanti
In Passageira em Trânsito
tela de Olga Beltrão

17/05/2011

SOBRE FUNDO AZUL


















Estridor de pássaros
retalhando os choupos
no céu da tarde?
Ou folhas que cantam
ao vento que vem do Tejo?

Marina Colasanti
In Passageira em Trânsito
foto de  Rosa Gambóias

A CABEÇA É O MELHOR



















Do peixe frito
come-se a cabeça
sem qualquer repugnância.
Não se tritura
um cérebro
não se mastiga
o nobre pensamento
a ideia
o medo.
Sequer se suga
o centro dos reflexos
a óssea e escura moradia do instinto.

Estalam-se sabores
entre os dentes
saboreia-se o sal
por sobre a língua.
Mas é o sal da fritura
tão-somente.
Que o sal do sentimento
bem se sabe
é  humano privilégio.

Marina Colasanti
In Passageira em Trânsito
tela de  Van Gogh / Still Life: Bloaters on a Piece of Yellow Paper

10/04/2011

JARDINAGEM ABAIXO DO EQUADOR



















Deve ser erro meu
querer jardim lá onde a natureza
só pretende selva.
Gramados, convenhamos,
são coisas de europeu
com galgos, gamos
e um castelo ao fundo
erva aparada em
séculos de cascos
coturnos e
sapatinhos de damas,
séculos de batalhas
e sangue nas raízes.
Aqui a batalha que travo
é muito outra,
luta contra as daninhas
contra as pragas
sempre mais fortes do que grama
ou flores.
Arranco e arranco
despedaçando em vão as pobres unhas.
Onças, tamanduás, serpentes e gambás
riem de mim
no escuro não distante.
E me pergunto se não sou eu
a praga
nessa insistência cega em extirpar
quem aqui nasce e vive
de direito.

Marina Colasanti
In Poesia em 4 Tempos
tela de Vincent Van Gogh

09/04/2011

PASSANDO DOS CINQUENTA























Meu pescoço se enruga
Imagino que seja
de mover a cabeça
para observar a vida.
E se enrugam as mãos
cansadas dos seus gestos.
E as pálpebras
apertadas no sol.
Só da boca não sei
o sentido das rugas
se dos sorrisos tantos
ou de trancar os dentes
sobre caladas coisas.

Marina Colasante
In http://www.aindamelhor.com/poesia/poesias20-marina-colasanti.php
tela de Francois Boucher

01/09/2010

CINCO CASUARINAS



















Cinco casuarinas
à beira da estrada

Cinco troncos
cinco copas
cinco fundas raízes
e uma única sombra
entrecortada.

Cinco casuarinas
à beira da estrada.

Cinco casuarinas
não são um bosque
mas quando o vento canta
entre as agulhas
já formam um coral.

Cinco casuarinas
à beira da estrada.

Cinco ramas
cinco fadas
sobre o abismo debruçadas
cinco damas condenadas
a não sair do lugar.

Marina Colasanti
In Poesia em 4 Tempos
foto by  Andricongirl no Flickr