Mostrando postagens com marcador Renata Pallottini. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Renata Pallottini. Mostrar todas as postagens

22/12/2012

ESSA ESTRANHA DOENÇA DE SER DOIS

 
 
1

Quem partiu não foi gente
Só um tempo
Um modo de sentir
Uma inocência

Não falo de saudade
Só de perdas
Imagens amputadas
Um momento

Essa estranha doença  de ser dois
Que ninguém sabe 
E que eu invento

2

Quem ficou não foi gente
Só imagem
Movimento

Um voo para frente
Um atrevimento

Um adeus para se acaso
(Vai que se morre
de repente)

Um pranto interrompido
Eternamente

Renata Pallottini
In Chocolate Amargo
tela Oreste Bouzon

30/10/2012

VIAGEM DE AVIÃO




Há estrelas esparsas ao redor da lua
E nem um vinho e nem deus aclaram o mistério

Sei tanto como ontem e o amor está quieto

Os ares se conturbam
A ausência do medo me assusta e me comove

Estou lúcida e quieta e escrevo em meio às trevas
Estou lúcida e só em meio ao sono
Ninguém me busca e uma criança chora

Sua voz renova o ar pesado de incertezas
Sei tanto como ontem e fora é o universo
Onde tudo se sabe
E a lua olha as coisas
Indiferente.

Renata Pallottini
In Chocolate Amargo

06/06/2012

UM SONETO DE AMOR




Amor, antes que a tarde se detenha
em mim, como uma rosa prematura,
antes que a melodia sobrevenha
às mãos pousadas sobre a tecla escura
ouve, que este é o momento de dizermos
das coisas imutáveis e perdidas;
que as mãos, como dois pássaros enfermos,
sustado o voo, as asas recolhidas,
demorem-se em seu sono imperturbado,
fanadas em silêncio, lírios gastos,
feitos de luz cansada e de passado.
Em teu olhar, que de horizontes vastos,
     que de tristeza a boca que perdura...
  ...em mim, como uma rosa prematura.

Renata Pollottini

POEMA DO ELEMENTAR



Minha alma é a alma dos objetos,
a alma dos alfinetes e dos lápis
e desses estranhos instrumentos vivos
que são as facas inânimes.

Essa é a minha alma. Me transfiro,
estou profundamente imersa no concreto
como uma esponja impregnada de insensibilidade.

Minha alma é a alma dos bichos,
não a de todos os bichos
mas a dos animais nobres flamantes,
dos cavalos e dos cães e também dos pequenos ratos do
                                                                          [campo
que lutam pela vida.

É assim que sou humana. Somente assim. Como se a nobreza
                                                                    [ de ser humana
apenas no sentir os animais se encontrasse; ou em amar os
                                                               [humildes objetos
que sentimos sob os dedos quando queremos ser servidos.

É assim que sou humana. E,
visto que a minha alma é a alma dos objetos,
a alma dos animais, é assim que tenho alma.

Sem nada de dogmático. Sejamos elementares.

Renata Pallottini
                                                         
                                                 

03/01/2012

MEU ANJO



Ele chega amplamente de manhã.
Vem falando, e ao chegar boceja e diz verdades
acerca de Pedrão, do céu e da ambrosia
de que não gosta: prefere pão de queijo.
Vai comigo ao trabalho mas não entra na Escola
prefere ficar voando sobre a Raia
porque diz que esses jovens então sempre em perigo.
Quando voltamos ele vem flutuando
ou se agarra no teto do carro, de carona,
e chega com as penas despenteadas.

Come junto comigo e o meu amor é o seu.
Diz que ama São Paulo a despeito de tudo
cuida de mim e (ele também) lê fernando Pessoa.

Não sei o que faria sem meu Anjo.
Às vezes eu o empresto (com seu consentimento)
às pessoas que amo. Mas ele sempre volta.

Antes eu o supunha uma criança
porém muito mais sábia.Depois vi que ele pensa
e acho até que sofre.

Mal comparando,ele parece uma coisa muito fiel,
assim, um cão divino
só que muito melhor.

Renata  Pallottini
                   tela Lorenzo Lotto