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12/06/2009


by Camille Jacob Pissarro » The Pond at Montfoucault

QUASE

Quase não sei esperar o inesperado,
a rede que se parte e a outra rede
que se reparte: o não saber esperar
com a paciência antiga do silêncio
sentado mansamente ao nosso lado.

Quase não sei sonhar o amargo espanto
de estar aqui à porta de uma lua
que dá para um jardim que deu outrora
para um caminho que não finda nunca
tão pura e simplesmente ao fim da rua.

Maria Alberta Meneres

26/12/2008


Foto de r.moreira32

Verte rosas teu rosto vês mudado
no tempo rasto de tecíveis horas
teu sentido ou cuidado tido dado
por ti de quem não sabe como foras

Amor porque no circo só ferência
alguém de algum não disse lei nem quando?
Mata-me tanta vez quanta violência
é violeta ou é a letra desviolando.

Luminados assombros sombras íveis
por onde Amor? por onde que remorsos
nascem dos dedos harpas retangíveis?

Verte rosas teu rosto vês possíveis
uma a uma tuas lágrimas dos nossos
dias mal soletrados e ilegíveis.

Maria Alberta Menéres Melo e Castro
In Os Mosquitos de Suburna

Foto de r.moreira32

ENTRE A SOMBRA E A NOITE

Entre a sombra e a noite há um submisso instante
de preparação.
Aberto espaço onde as aves não cantam,
imaculado, instantâneo refúgio.
Entre a sombra e a noite, único passo!

- E é serena e frágil a presença
dos nossos vultos passageiros
isolados na própria condição.

Onde nada se move, uma estrela suspensa.

E tão inutilmente despedaço do encanto,
e tão súbita me vem uma tristeza antiga,
que entre a sombra e a noite encontro o meu refúgio
- o intocável, único espaço.

Maria Alberta Menéres Melo e Castro
In Cântico de Barros

15/09/2008


by Edward Atkinson Hornel

CONSTRÓI O DIA OLHANDO AQUELA PEDRA

Constrói o dia olhando aquela pedra:
do meu olhar em ti se constrói o meu dia.
Que mundos sucessivos se encadeiam nos homens?
Que mar de ondas inquietas sob o tranqüilo mar?

Ao nosso olhar apenas se decompõe o mundo,
se decompõe a pedra em fantástico gestos,
insuspeitados seres, insuspeitada angústia
arrancando de si o mágico sentido.

Constróis o dia olhando a beleza escondida:
da mesma solidão se constrói o meu dia.
Que harmonia se inventa dos meus olhos no ar?
Para a pedra desfeita, que harmonia se inventa?

Maria Alberta Menéris Melo e Castro