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17/10/2009


by Isidore Verheyden

POEMETO

Caia sobre mim
Teu desdém de ouro.
O sol que adivinho
Nas marés do olho.

Caiam sobre mim
Teus claros assomos.
Teus seios de trigo
Teu sabor de gnomos.

Teus olhos são líquidos
Como a flor dum poço.
De esperanças vivo

De incertezas morro.
Caia sobre mim
Teu desdém de ouro.

Francisco Carvalho
In Dimensão das Coisas

10/08/2009


Foto de augray

POEMA DO ABSURDO

Para mim, um dos absurdos da vida
é a ordem aparente das coisas.
(O poema traz prisioneiro
no bôjo desse paradoxo.)

Todo homem precisa morrer,
para selar um pacto de amizade
com o Deus Imóvel.Todo homem
precisa restaurar o segredo.

Todo homem precisa esquecer
seu latifúndio de coisas.
Ter a alma no tempo, como
quem só tivesse de partir

depois de perdida a esperança.
Todo homem precisa esbarrar
em Deus, quando já não houver
para a sua dor pátria no mundo.

Francisco Carvalho
In Dimensão das Coisas

10/03/2009


Foto de o.dirce

SONETO TRIUNFAL

A morte esmago aos pés, reino em palavras.
O coração da metáfora atravesso.
De espera e assombro fiz minha oficina
de pastorais. À amarga eternidade.

retornarei com lentidão,maduro
talvez de cavalgadas e de assomos.
Golpeio-me no bosque dos antúrios,
que faunos se libertam dos meus ombros.

Sou tecido de sol, pedra e parábola.
Ávido estou à espera do equilíbrio.
Anjo não sou, mas lúcido me abismo.

em Deus - flor da grande árvore do limbo.
Estou no madrigal como no fogo:
ou bem purifico ou mal me morro.

Francisco Carvalho
in Dimensão das Coisas

09/03/2009


The Thinker by Auguste Rodin

POEMA DA VERDADE INCOLOR

A verdade não é verde
Vermelha não é a verdade.
Também não é cor-de-rosa.
A verdade é da cor do Homem.

A verdade é o homem e o seu olho,
o homem dentro e fora dele.
O homem com a sua máquina
de fabricar ilusões.

A verdade é a mão larga do homem
e o seu coração de raiz
modelando a imagem da esperança.
A verdade é o homem só.

O homem despido de túnicas.
O homem incolor. O homem correndo
para a volição. O homem partindo
a cada instante do seu osso.

A verdade é haver o homem
sem outra verdade que não ele-mesmo.
A verdade é estar o homem sorrindo
de dentro do seu olho.

Se a verdade fosse verde,
a verdade seria incolor.
Porém, como a verdade não é verde,
a verdade é da cor do Homem.

Francisco Carvalho
In Dimensão das Coisas

Picking Daisies by Hermann Seeger

SONETO

Quando eu morrer a morte dos sentidos,
a morte que não ouve e que não fala,
põe sobre mim a paz dos teus vestidos
de algodão, a secreta paz de palha

dos teus seios amados e esquecidos.
Ouvirei os teus passos pela sala,
deserta de esperança e de zumbidos.
Tu me amarás na insólida mortalha,

vendo-me só, na grande noite mansa.
Quando eu morrer a morte dos mais belos
pensamentos que homem algum já teve,

a morte do Desejo e da Esperança,
põe sobre mim a paz dos teus cabelos
e o sol do teu adeus profundo e breve.

Francisco Carvalho
In Dimensão das Coisas

25/02/2009


by Sorolla Joaquin

ESTROFES II

Súbito, como o verão, também o amor se escoa.
Cresce em meu peito a fera solidão
da hora monumental. Soam as trombetas

do Juízo Final. O arcanjo de olhar metálico
retém em sua nudez o poderio flamejante
de Deus. O vingador sacode a fulva cabeça

à altura do entardecer no zodíaco.
João, a rosa decapitada, flui do limbo
da morte. Fulge-lhe o cenho intrépido.

Súbito, como o verão, também o amor se escoa.
Meu coração, quando irás pascer às praias
do esquecimento, ao fim da tarde, às súbitas?
Quando te consumirás, flamívomo, no espaço?

Francisco Carvalho
In Dimensão das Coisas

by Gerhartz

ESTROFES

Reatarei o meu diálogo de silêncio
com Deus, ou tomarei vencido pela morte?
Para além da possibilidade do tempo,

não basta ser Homem, nem ostentar na alma
os estigmas da solidão e do combate.
É preciso ser puro com o sal da lágrima.

E íntegro e só. E galgar a meditação.
E os seus degraus de treva a fluir da concha
fulva do nada. E os frios esquecimentos

lacustres, onde o coração desfaz sua ígnea
cabeça, semelhante a uma flor de fogo.
Para além da possibilidade do tempo,
é preciso ser puro como o sal da lágrima.

Francisco Carvalho
In Dimensão das Coisas

21/01/2009


Foto de yoshiko314

CANTAR DA AMIGA

Quando o verão tiver passado e sobre
nós verter a noite paz infinita,
regarei uma rosa à tua espera.
Grande, pura, incomparável amiga.

Quando a minha obscura sombra de homem
visitar teu silêncio, comovida,
colherei um estrela em teus cabelos.
Grande, pura , imcomparável amiga.

Adivinho o teu corpo, a farta messe
de solidões que oculta, apetecida,
o arfar do seio, pássaro assustado.
Grande, pura, incomparável amiga.

Meu canto te arrebata ao deus da morte
e te põe sobre o vértice invisível
das árvores, dos ventos e das águas.
Grande, pura, incomparável amiga.

Vinda a noite, te darei uma rosa,
vinda a manhã, te darei minha vida,
de tarde te darei a eternidade.
Grande, pura,incomparável amiga.

Francisco de Carvalho
In Dimensão das Coisas

Foto de ale.SUN.dro

CANÇÃO DA VISITA

Na escuridão te visito.
Te visito sobre a nuvem
que corre alta e solene
para o crepúsculo.

Na rosa que sai da rosa
cálida do teu sorriso.
Na estrela que cai da noite
eu te visito.

No vento que semeia
na pálpebra o sono antigo.
Na ternura e na lágrima
eu te visito.

Na morna semeadura
dos teus cabelos marítimos.
No peixe que assusta as águas
eu te visito.

Na sombra que cai das altas
árvores sobre os caminhos.
No fruto que amadurece
eu te visito.

Na lâmpada que afaga
a noite imensa do morto.
No sol que doura o trigo
eu te visito.

Na flauta do pastor,
na estrela da tarde sobre o amigo
que se cansou do mundo
eu te visito.

Na concha da mão de Deus
suspensa sobre os abismos.
No tempo e na liberdade
eu te visito.

Francisco Carvalho
In Na Dimensão das Coisas

04/01/2009


Foto de Giovanni88Ant

SONETO DO MAR IMEMORIAL

Teu coração é a ilha em que me movo
para a canção,o trigo e o madrigal.
Vaga esquecida, o mar imemorial
de que flui o infinito e o sempre novo.

Como na água do mar a concha e o sal,
teu coração é a ilha em que me movo
entre gnomos, centauros de coral.
Ó flor que abriu nas têmporas do povo.

Teu coração é a ilha em que estou,
silente e enternecido, ermo e total,
para triunfar da morte, em claro vôo

lunar, n'algum verão monumental.
Teu coração é a ilha onde restou ,
vaga esquecida, o mar imemorial.

Francisco Carvalho
In Dimensão das Coisas

Foto de Giovanni88Ant

POEMA DA LENTIDÃO

O vento que chega lento
do mar adentro, do céu adentro,
é o vento do movimento
da flor, do enternecimento
que vem de ti, neste momento,
do teu sossego sonolento.

O vento que ao pensamento
me traz teu deslumbramento,
é o vento do firmamento.
Vento que dá sombra ao tempo,
paz e alento e movimento
ao teu sossego sonolento.

O vento que flui do centro
da noite, dos elementos,
é o vento do olhar imenso
de Deus, vento violento,
que me afoga para sempre
em teu sossego sonolento.

Francisco Carvalho
In Dimensão das Coisas

Foto de ARTExplorer

POEMA

Os deuses me hão visitado,mas lúcido
os ignoro.A poesia é o sol que me visita
por entre os verdes ramos das árvores.
E o sol, como poesia intemporal num mundo velho,
me basta.

À mulher colho apenas o trigo da memória,
a maciez da nuca e dos cabelos,
o sol do ventre, louro, manso e indomável.
E a mulher, como enternecimento para triunfar da morte,
me basta.

A flor, como outro deus que triunfou do efêmero,
me espia para dentro da alma, onde é noite próxima.
Eis-me de regresso ao convívio dos deuses mutilados.
E a flor, como poesia monumental num mundo antigo,
me basta.

O pássaro é o que me surpreendo quando sinto.
Trago-o, emplumado e azul,dentro do peito.
Meu coração é uma paloma de asas líquidas e longas.
E o pássaro, como poesia triunfal num mundo agônico,
me basta.

A infância é aquela casa antiga, ou mansarda,
onde lâmpadas irreais velam palidamente
cadáveres de insepultadas memórias mortas.
E a infância, como poesia essencial num mundo mítico,
me basta.

Francisco Carvalho
In Dimensão das coisas

Foto de carlosrabelo

CANÇÃO DAS JOVENS RENDEIRAS

Das jovens mãos das rendeiras,
de seus claros equilíbrios
nasce a aurora, é o sol que verte
do ritmo estival dos bilros.
É a paz que flui como as águas
do coração d'almofada.

A aurora tece o algodão,
o algodão tece a fazenda,
mas a rendeira faz tudo:
tece o sonho e tece a renda,
tece o amor, tece a tiara
no coração d'almofada.

Do linho de fibra indócil
faz a rendeira o seu mito.
Flor de espuma e esquecimento,
maré de anseio infinito.
Tece a morte e tece o nada
no coração d'almofada.

É como se a alma estivesse
talhada no labirinto
de solidão que ela tece.
Como se um deus cristalino
vertesse a face esmagada
sobre o enigma d'almofada.

A rendeira tece a morte
nas malhas do labirinto.
Tece o véu, tece a grinalda,
tece a ilusão do destino.
Tece o silêncio e a saudade
no coração d'almofada.

A rendeira tece a vida
nos fusos das almofadas;
tece a túnica dos mortos
e a nudez das namoradas;
tece o riso e tece a lágrima
no coração d'almofada.

A rendeira tece o fado
nas almofadas redondas;
tece o luar, tece as espumas
que se agitam sobre as ondas;
tece o olhar, tece o segredo,
tece o enigma e tece o medo.

A rendeira tece a prece
nas cordas tensas dos bilros.
Tece o mistério que desce,
soleníssimo ,dos cimos.
Tece as fibras do algodão
e tece o meu coração.

Francisco de Carvalho
In Dimensão das Coisas

Foto de Giovanni88Ant

MITO DE SÍSIFO

Não me queixo de Deus.
Sou o que fiz de mim.
As nuvens são negras ou azuis
porque minha ilusão as quis assim.

Não me queixo de Deus.
Seco-me aos ventos do desamparo.
Semeei caminhos e encruzilhadas.
O futuro é uma senda do homem.

Sísifo conduz uma pedra pelos declives do abismo
sem que o céu se importe com isso.
Também nós carregamos uma pedra,
acorrentados à liberdade.

Francisco Carvalho
by Blogger Cavaleiro de Fogo