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16/09/2008


Gilbert Michaud

XVI

SINTO teu corpo como o chão maduro
onde delira, exausta, a primavera
multiplicando em nós a sua velha
manhã. Na carne em floração escuto

trêmula e tênue liberdade e nela
o que de mim se faz eterno e arguto.
Não sei se é meu silêncio que procuro
ou a certeza de tê-lo descoberto

na solidão contida no teu ventre,
na semente de tempo que há em ti.
Dormes. Contemplo-me em teu corpo e aprendo

que, antes e além desse pudor oculto,
somos apenas ávido e maduro
chão: fonte extrema que elabora a vida.

Fernando Pessoa Ferreira

15/09/2008


Franz Dvorak

ANJO

Havia um anjo solto no terraço
comendo sol e rindo para os pássaros.

Seu olho esquerdo (o olho bom dos anjos)
capinava o amanhã, armava o canto

com o brando metal propício aos frutos
e o ardor da brisa quando se ama e luta.

Pelo outro olho ele era só um anjo,
ave barroca, luva de cerâmica.

Pode-se promover um anjo a homem
libertá-lo das asas e do sonho?

Transfigurado assim, ele sucumbe
ou alegremente voa para o lume?

Aquele apenas brinca no terraço
cavalgando o verão preso no pasto

restrito e sobrenatural dos anjos:
de trombeta e de rifle, mais humano.

Fernando Pessoa Ferreira

by Jean-Baptiste Camille Corot

TÃO VERDADEIRA quanto a imaginada
- a perfeita mulher que não existe -
é a tua ausência, tua ausência triste
muito mais minha e despreocupada.

Hoje tenho-te aqui, porque dormiste
no bolso do silêncio mais suado,
sob a fronha mordida o sal cansado
que à memória das noites subsiste.

Posso te amar em todas as mulheres:
teu escuro calor, o pêso certo
de tua nuca em meus dedos, que me deres

quando longe de mim e insatisfeita,
toda feita de ausência e assim mais perto,
inventando comigo a solidão
perfeita.

Fernando Pessoa Ferreira

Claude Monet

Maré de estio, sumo das rosas, campo
de riso sobre os tímidos quintais
onde amanhece a fábula da infância
inundada de frutas e pardais.

A praça era fecunda e descuidada,
no seu bojo de sol floriam flautas.
Assim deviam ser as namoradas
quando o domingo as devolvia intatas.

O céu cansado, as ruas transparentes,
e vento e sua fonte de cristal.
Docemente supérfluo, flui o tempo

mais leve em suas roupas matinais
e, nos teus flancos, o suor nascente
inaugurava as emoções rurais.

Fernando Pessoa Ferreira