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15/03/2012

SUNT ANIMAE RERUM



Estrelas, que loucura e garridice
As vossas danças esta noite tem?!...
E quem, há muito tempo, se não risse,
Vendo-vos rir, deitara a rir também.

Arroios desgrenhados de doudice,
Por entre seixos, que buscais além?
Beijam-se os velhos troncos!...E há quem visse
Fremendo um lírio ao pé de um cecém!...

A noite é um ninho; o amor uma doçura;
E quando a brisa pelo azul murmura,
Soluça o bosque...e há beijos pelo val!...

Deuses e deusas turbulentamente
Passam a rir no laranjal florente...
Ou chora...ouvis?...ou chora o laranjal?...

Luís Delfino
In Melhores Poemas

A VALSA



Move-se, treme, anseia, empalidece,
Cai, agoniza; acaba-lhe nos braços:
Resfolga, arqueja, torna, reaparece,
Solda-lhe o seio, a boca, as mãos, os passos...

Gira, volta, circula...os olhos lassos
Têm  langue, mole, voluptuosa prece:
A fronte branca ao colo dele esquece...
Atam-lhe as carnes invisíveis laços...

Na sala, a um vão, inquieto a vejo... e o vejo!
Sofrer?!... não sei...mas toma-me um desejo,
Ao ver um só nos dois, o grupo enleado...

Rojar-me ao chão, à terra de repente,
E nas voltas daquela valsa ardente
Morrer em baixo de seus pés calcados!

Luís Delfino
In Melhores Poemas
tela Victor Gabriel Gilbert 

01/03/2009


Foto de Maria Rego

GAIVOTAS

Do crespo mar azul brancas gaivotas
Voam - de leite e neve o céu manchando,
E vão abrindo às regiões remotas
As asas , em silêncio, à tarde, e em bando.

Depois se perdem pelo espaço ignotas,
O ninho das estrelas procurando:
Cerras os cílios, com teu dedo notas
Que elas vem outra vez o azul furando.

Uma na vaga buliçosa dorme,
Uma revoa em cima, outra mais baixo...
E ronca em cima, outra mais baixo...
E ronca o abismo do oceano enorme...

Cai o sol, como já queimado facho...
Do lado oposto espia a noite informe...
Tu me perguntas se isto é belo?... e eu acho...

Luís Delfino
In Melhores Poemas

Foto de Freeparking

ENTRE PARÊNTESES

Passam lêmures desse mundo oculto,
Que anda em torno de nós, que nós não vemos;
Grandes deuses, espíritos supremos,
Vinde mostrar-nos o formoso vulto.

Ai! ao incrédulo duro, ao pobre estulto,
Que quer por vós morrer fazendo extremos,
Desvendai-vos enfim, que nós vivemos
Na dúvida e um terror, que exige indulto.

Aclarai-vos, mistérios superiores:
Tendes a lança contra nós em riste,
Há dor demais, poupai-nos a mais dores;

Dizei-nos, pois, se aí, há se acaso existe
Um céu, de que não somos sabedores,
Que a triste vida torna ainda mais triste...

Luís Delfino
In Melhores Poemas

Foto de Prio

À HORA DO ALMOÇO

Pelo sapê furado da palhoça
Milhões de astros agarram-se luzindo;
O pai, há muito, madrugou na roça:
A mãe prepara o almoço. - o sol é lindo.

Canta a cigarra; o porco cheira; engrossa
O fumo dos tições; - anda zunindo
À porta um maribondo; e fazem troça
As crianças com um ramo o perseguindo.

Correm, chilram, vozeiam, tropeçando
Num velho pote: - a mãe, zangada, ralha.
A avó lhes lança o olhar inquieto e brando.

No chão um galo ajunta o milho e o espalha,
Enquanto a um canto, as penas arrufando,
Põe a galinha num jacá de palha.

Luís Delfino
In Melhores Poemas

29/10/2008


by Childe Hassam » Lilies

A POESIA

O que é poesia, Helena? O céu invade,
E tudo une e desune e tudo enfeixa;
E tudo mete em sonorosa endeixa,
E tudo quanto foi, e inda ser há de.

É a voz de Deus, o som da tempestade:
Dá músicas ao mar, amor à queixa:
E ela em seu manto embrulha os sóis, e deixa
A ira enleá-la, e é cheia de bondade.

Embala o berço, e faz dançar a boda:
Mesmo ao trágico empresta os seus encantos:
Dá voz sublime à ventania douda.

É de existência dor, sorriso, prantos:
E a grande, a rica natureza toda
Luz, freme, goza, sofre, haure em seus cantos...

Luís Delfino