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01/04/2014

XX



Quem curvar-se
Sobre este poema
Não tardará em abraçar
                              aqui
 
O circo
O riso
O estranho
O diverso
O triste
O brinquedo
O esconde-e-acha
O fruto da altura
Do sonho
O salto
O espanto
E o reverso dos olhos
 
Em ver
Que ante a paisagem dos anos
A infância
Ainda é o mesmo trapezista
Que não retornou do último
                salto
 
Eulália Maria Radtke
In Espiral de Poemas 
arte Marysia Portinari 

09/01/2014

***


XIII
 
 
Já não tenho a tua pressa
Ó passado
Já não tenho a tua rápida
entrega do aconchego
- Já não tenho a ti
 
Do ciclo primeiro
Guardo o flash devastador
da claridade
Sob o mármore do teu
retrato
Do nosso encontro
Guardo uma distância
 
Eulália Maria Radtke
In Espiral
arte Dorina Costras

****




LV
(para Ruth Winckler Paul) 
 
 
Não farei leilão
Dos meus sonhos
 
Construirei
muitas portas
Com feitio 
 
               de esperança
 
Eulália Maria Radtke
In Espiral
arte Dorina Costras

29/12/2013

VII



Como o rosto
Sem susto dos anjos
Herdei a quietude
                das luas
É preciso coragem
De um campo de espigas
É preciso saber das
               sementes
Por fora
E por dentro
             é preciso 
 
Eulália Maria Radtke
In Aspiral Poemas
tela Christian Schloe

22/12/2013

XXXIII



Existem pássaros
Ancorados
Na proa do meu sonho
E sei dos meus gritos
Do poema que faço
E do amor que refaço
Ao decifrar a solidão
Do mundo
 
Eulália  Maria Radtke
In espiral poemas
tela Tatiana Glauzet

02/11/2011

A GUARDIÃ DE REBANHOS


 
IV

 
Anjos sofrem com os desatinos
do amor
e os grandes mestres exercem
sobre os discípulos a grande tirania.

Mas, as decisões do espírito
e da vontade transcedem as circunstâncias.

E sou plebéia e rainha,
- quinhão do diabo e dos homens.

Sou eu a vida
como um cavalo,
unimo-nos,
depois de nos haver adestrado
com perfeição.

A cada um, os gestos - os mais secretos.
O meu está contido na beleza
tão difícil de definir, mesmo diante
das evidências e dos olhos.

E sou negra
invernal, silenciosa.
E tu rosa calada no canto do jardim.

Sou lírio do brejo de cheiro
forte e noturno.
E tu o que se envolve no coração
se avoluma e chora
quando a alegria não cabe na garganta.

Tenho lábios de coral
e cheiro de flor de macieira.
Mas tenho também meu corpo
deteriorado.
pela marca da servidão
cuja origem nenhum deus modelou.

Sou pertubável e frágil sob os ritos
singulares e a intransigência de Deus.
E tu, uva de vindimas,
tão bela que justifica antecipadamente
a loucura.

Adquiri o esplendor do meio-dia
quanto todas as coisas estão
banhadas de uma atmosfera dourada.
Mas carrego também,
a lentidão das noites de insônia e
estrias
tão profundas no corpo da alma.

Tentei as variações transformando
o ídolo em fantasma.
Nelas, encontro tudo, até o eterno,
a magia capaz de evocar uma face perdida
num abandono de flor, o sal e a mirra
e a sensata loucura dos sonhos.

E ainda plebéia e ainda rainha,
em meu condão de estranha embriaguez
mergulhada gravemente
em meus sonhos desgraçadamente belos.

Eulália Maria Radtke
In Lavra Lírica 

OS INTERLÚNIOS


POEMA 2

 Medimos o peito em abstrato,
fronteiriços, lineares, juízes
agrimensores de rumos e rimas.

A trena tem maleáveis desvios
pendores colhidos nas ciladas,
pendões amoldados de eus circunstanciais.

Marcamos, ascensional, a trena,
atamos ao peito, altivos,
estremas divisíveis, esplendorosos.

A fé é nossa baliza,
rompidos, ai que inversos intentos
morrendo no pó do ego fendido.

Eulália Maria Radtke
In Lavra Lírica

01/11/2011

A GUARDIÃ DE REBANHOS


II

FAZER:

Verbo de tantas faces,
ancoradouro e punhal.

E no silêncio dos anos,
do peixe repartido, do pão e do maná,
da arca de Noé à tábua
dos mandamentos,
- crescendo e multiplicando-se -
tornamo-nos em arsenal de esquívocos.

Sei que amor é travo
silêncio e relva,
assim como o vinho esquivo
e acuado
na geometria da boca.

E indestrutível
é a quietude dos túmulos
dos céus,
do ar parado e oculto do retrato
na moldura velha da parede.

Indestrutível,
é a oração das mãos, da boca,
a doutrina aprendida na infância
como pássaro preso e crente em Deus
e no inferno.

Indestrutível sim,
toda espécie de amor
que se sobreponha no jugo de dogmas.

Eulália Maria Radtke
In Lavra Lírica
tela Linda Wood

16/07/2011

AS ELEGIAS


(1)

É meio dia em minha
vida,
meu sonho
meu sol,
minha dança alucinada
no horto.

Para quem fui,
gotas ficaram pendentes
nas espigas.
Para quem sou, 
canto humilde e ave
partida.

É meio dia em minha
vida,
este relógio  de hastes
singulares e plurais
ceifando o tempo,
trazendo à luz
banquetes fartos e limpos
- irreais

Eulália Maria Radtke
In O Sermão das sete palavras
foto por cancanon

AS ELEGIAS



(2)

Tanto vinho bebi
em louvor da luz
da terra
do sonho,
da palavra verde do amor.
Ofertei versos sem adeuses,
ofertei.
Cingi vontades
mais alto do que os meus
gestos,
- quis ser eterna
no caminho entre as estrelas
e a morte.

Paralela a estrada,
os signos do sonho
- o reduto das inquietações -

Agora é meio dia em minha
vida
e sagro e consagro
minhas heranças

e em meu peito,
uma fonte

Eulália Maria Radtke
In O Sermão das sete palavras
foto por Bahman Farzad


AS ELEGIAS


(3)

Conheci a geração
das crianças traídas
e Bell no  amanhecer
de "As Vivências Elementares".
E hoje escrevo poemas
porque tenho fome,
porque o coração dispara,
porque a justiça é vidraça
partida,
porque a verdade é luz exilada,
- porque é meio dia em minha vida -
em minha pátria  convivida
com as núpcias das horas.

Abro-te, ó coração
sob o tempo indomado,
sob a pele da armada 
memória.
Estendo este corpo
curvado e descalço,
ante o espelho
onde refletem tantos sonhos
arquivados.

Eulália Maria Radtke
In O Sermão das sete palavras
foto por Rosângela e Alexandre Souza

AS ELEGIAS



(4)
Ah meu pai
minha mãe
contra as rugas de um rosto
fatigado,
em favor de alegrias vincadas
por sonhos não acontecidos.
abrindo espaços na esperança,
- os instantes de amar -
os instantes de amor.

Eis minhas mãos
mudas e solícitas.
Foram belas,
hoje dois segredos se guardam.

Ei-las, 
não sei se um anjo torto
ou lírio,
só sei que o verso chega
feito mesa posta para 
a ceia.

Eulália Maria Radtke
In O Sermão das sete palavras
foto de Bahman Farzad

AS ELEGIAS



(5)

À mesa estou,
- cristal  de existir frágil -
perecível
como a haste do amor ligeiro.

À mesa,
rainha
cavaleira
de reinados invisíveis
e desarmados.

Trinta e seis anos
de sementes plantadas
colhidas
e repartidas,
na secreta duração do tempo
na dor torcida dos versos,

-  MINHA CASA DE VIVER.

Eulália Maria Radtke
In O Sermão das sete palavras
foto por doug88888

AS ELEGIAS



(6)

Nada sei da morte
e sua perfeita solidão.

Meu sono é pássaro solto
sobre a terra,
queimados os olhos contra
o céu,
ferindo sem cessar
o esquivo silêncio.

Nesta casa,
peças lúdicas da infância
são arestas
num palco desbotado,
quando jardins
e pessegueiros
(ainda) tinham  cores
e o feitiço do amor era amar
as estrelas

- O AMOR PRIMEIRO

Eulália Maria Radtke
In O Sermão das sete palavras
foto por schneider_nati


AS ELEGIAS



(7)

É meio dia em minha
vida,
meu sétimo voo
e nem mesmo decifrei
os segredos dos céus.

Preciso escrever na terra
uma canção,
mas díficil é aprender
a exata solidão de Deus.
Difícil expulsar toda forma
de dor,
do nó cego que o verso
não desata.

É meio dia em  minha
vida,
meio sonho
meio sol,

EM MEU HORTO DE SOLIDÃO

Eulália Maria Radtke
In O Sermão das sete palavras
foto por Gambozino  

06/02/2011

O VINHO DA VERDADE



I

A canção do amor
será possível sob o vinho da verdade,
sob a morte da lagarta
e, sobretudo,
sob as metáforas de paz e de
guerras.

II

Seremos entre as vagas e espumas
flores rubras,
pássaro ferido e lagartos
(estranhezas)
palavras sem contornos,
serpentes entre algas de viver
- tão só indagação
silencioso pensar.

Eulália Maria Radtke
In O Sermão das Sete Palavras
tela de  Jack Vettriano

03/01/2011

REQUIEM DA MORTE



















I

Provisório até o fim
- ilha farol -
eu te desenho,
para que despontes
onde amar de amor
é beber a miragem
da paisagem
da espuma
no secreto barco de partir.

II

Sopra o vento um ar definitivo,
- fera absoluta, triste poesia,
elegias e odes -
tão calma, tão clara, tão cínicas
traves de solidão.

Sopra sim
nossas vidas
tão vastas e tão sentidas,
- um movimento um instante -
reduzindo o coração.

Procuras o norte
e o sul te sublinha.

Procuras o oeste
e o nordeste te arranha.

Procuras o infinito
e é no centro que teus braços
desprovidos de avisos,
que teus braços abraçam a vida
na rede do medo
( olhos de dor )
inútil será adiar.

III

Terá a morte alguma coisa
do presente?
O dias vão traçando cordas
para amarrar o coração à vida.
É grade que nos fecha
crispada e definida
na pátria mais quieta
de todas as solidões.
Inútil será adiar
inútil será adiar.

IV

E quando a face intacta
nos redimir num só enlevo,
numa só seiva e quebradas asas,
será nosso o pesa da terra
será nosso o peso da carne
será nossa
a haste mais profunda da palavra
 morte.

E se secretos fomos
à princípios e crenças,

serão nossos
os altares da terra,

serão nossos
os nervos da corrente cantando
hinos,

serão nossas
a espada e a carne líquida
da luz,

SERÁ NOSSA
A PERFORMANCE DE DEUS.

Eulália Maria Radtke
In O Sermão das Sete Palavras
foto de  Dragan* no Flickr

TRANSCEDÊNCIA - A ILUMINAÇÃO



















I

Que o amor repouse
finalmente na verdade
oh coração,
- intensa me contenho
para atrair-vos ao céu
que vos disfarço.

II

Se receias que esta vida
não perpetre,
se receias o amor a que
te entregas,
- na carne desse sonho nasce o grito
do meu sonho de viver na tua imagem.

III

Hei de sorrir
na sedução de todos os contrastes

Hei de atrair
dentro da noite o próprio sol
nascente,
para que em luz
as estrelas não se afastem.

Hei de sofrer de amor
e estar contente,
- tornando intensa a vida provisória -
do começo ao fim de mim e de ti.

E irei,
no trajeto da viagem
ser síntese do tempo
- flor de lis -
provisório até o fim.

Eulália Maria Radtke
In O Sermão das Sete Palavras
foto de  Dragan*  no Flickr

A EVOCAÇÃO DO HOMEM



















I

Em que sangue do meu dia
me exiges?
Em que carne da minha noite
me devoras?
Ou em que face da luz
me consagras ou me choras?

Que seria dos deuses
sem as carruagens mágicas,
sem as terríveis labaredas
dos meus indefesos instrumentos
lúdicos?

Que seria das pirâmides
sem as gargalhadas do vento,
sem as arestas e os devãos
das areias?

II

Servir a vida.

A ceia ofertada em prato de cristal
é ouro que edifico
no código da terra.

Guardo nos meus olhos a tua paisagem.

O viço do riso,
o soluço do sino da memória
vem de barro
e vem do risco soturno
dos trovões.

E ainda que eu lave o céu
e o teu espelho de ferrugem e
caliças,

venha,
toma de teus ouvidos
e ouve agora
a harmonia das águas
nos contornos de teu rosto.

Venha,
porque quando a borboleta
sai do casulo
é a morte da lagarta.

Eulália Maria Radtke
In O Sermão das Sete Palavras
foto de a Dragan* no Flickr

02/01/2011

O LÍRIO FRAGMENTADO




Ah os etéreos anjos
a evocar as luas evaporadas,
fazendo do objeto verbal
acabado
não uma construção terminada!

Se a escola veio gritar,
exorcismar e "traumatar"
toda espécie de inocência
que eu tentava recriar caudalosamente,
também revelou-me
a valorização dos gestos
e compreender os livros.

- Acabo de revelar uma estranha embriaguez,
espécie de orgasmo das criaturas unidas ao
seu destino.

E sob um vento suão,
às quinze horas da adolescência,
percebi a antiguidade das pedras
tropeçadas no jardim.

Experimentei unir-me ao divino
sob todas as formas.

Amei a conspiração dos deuses
entre a pele e o sangue
de vestir o coração,
muito perto da terra
e escrevi na carne a vertigem
de toda a humana loucura.

E enquanto criava-se no Brasil
a "Arte da Resistência"
sob o domínio das fardas,
Maria Bethânia gritava "Carcará, pega mata e come!",

Aleksei Leonov tornava-se
o primeiro homem
a sair de uma nave espacial
e todos queriam ser personagens
de Fellini,

às quinze horas da adolescência
fui buscar palavras inteiras
nas bocas dos adultos.
Reuni e repeti a todos sem compreendê-las.

Às quinze horas
da adolescência,
desenhei no barro alguns
moldes
que se transformaram
em versos,
depois lambi os dedos
para ver o gosto.

Às quinze horas,
era a palavra
eu
e o arado do coração
preparando a chão do poema.

Eulália Maria Radtke
In Lavra Lírica
arte desconheço autoria