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06/10/2021

A BARCA DOS HOMENS

 

A  W.A.D. [ Waldemiro Autran Dourado]


O mar é grosso, a noite escura.
Dai, Senhor, ao que vai nascer,
A Vossa lanterna mais pura.
Dai-lhe essa luz que não se apaga,
Mesmo varrida do tufão.
Dai-lhe, Senhor, a paz futura,
Vossa piedade, Vossa mão,
Dai, Senhor, ao que vai nascer,
A estrela guia por arpão.
Pelas chagas de Vossa ilharga,
Dai ao que nasce o Vosso alento;
A treva é amarga, espesso é o vento,
E Vós, por tê-la carregado,
Bem conheceis como é pesada 
A cruz da humana condição.
Dai, Senhor, ao que vai nascer,
Vossa piedade, Vossa mão.

Hélio Pellegrino
de Minérios Domados - Poesia Reunida
arte desconheço autoria

23/12/2011

O DEVANEIO




Essas pequenas rosas
em um vaso arrumadas;
essas pequenas mãos
sobre elas desatadas;
esse breve silêncio
e distraído, leve
como um lábio dormido;
essas  finas nervuras,
- translucidez sonhada -
por onde passa a linfa
das abusões futuras;
esse momento que urge
sem pressa , limbo e signo,
anteposto destino
de cuja palma surge
um perfil de menino.

Hélio Pellegrino
In Minérios Domados

26/07/2010

DEIXA QUE EU TE AME




Ah! Deixa que eu te ame! Faze
De tua profissão de sonho a fé desesperada...
Ilumina a incursão de meus dedos calmos
Através teu corpo infinito ...Deixa que eu te ame!

Nunca esse amar assim foi meu desejo. Entanto,
O céu corre para o céu e as sombras convergem
Num ponto exasperado onde ardem candelabros...
Deixa-me ficar, como esquecido do próprio nome,
Cego, a recompor os jogos que a infância indestinou...
O verde chama o verde. A esperança de ti salta
Como a correria de crianças num pátio de colégio...
Atrás dos vidros, porém, está o tédio espreitando,

E - ai de mim! - nem mesmo a poeira cobre o meu rosto,
Pobre e lívido, entre relâmpagos que paralisam o tempo.
Desesperado aguardo - deixa, deixa que eu te ame!
Enche teu corpo do azul que escorre das árvores devassadas,

Planta teu grito, bem longe, onde os limites se curvam!
Dize uma palavra e fica ao léu das invernadas que flutuam,
Vendo o tempo esgotar sua provisão de cores
E leve se deitar, para aguardar seu sono...

Por que o chão encharcado? E a chuva principiando
Nas cinzas dos brasões, como uma flor que murcha?
Esquece em meu peito a mão escuta como bate
O coração pressuroso de espadas e cimitarras em repouso...

Não crês? Não vês? Ouve meus olhos perfurados de vigília,
Esboça teu movimento, cumpliciado ao afã dos salões antigos
E enxerga nos móveis a efígie de meu rosto soluçando,
Entre vitrais que se partem ao aceno de um porto...

Olhas as grandes cidades...As chaminés se alevantam,
Ao mesmo tempo que milhões de adeuses desabrocham
[como fontes...
Parto em busca de mim. Nos navios de prata
Vejo ainda o teu perfil - Ah, deixa que eu te ame!

Meu mistério está além. E além o vento sopra
Arcado de presságio. As pedras se ajoelham,
E os lábios se partem de encontro às muradas
Largas e calma à espera de ti - por entre palmas!

Deixa que eu te ame! Nada podes deter,
Senão que teu braço comanda partidas de barcos ao mar
[alto...
Larga teu corpo ao meu ...junta teus seios
Ao meu engano...Deixa que eu te ame, assim, em silêncio,

Vendo a luz que se apaga e não se acende mais,
Vendo a calma voltar como  a ave que esmorece,
Vendo o passo na relva, coberto da silente
Paz, entre as aléias, a marginar o sonho...

Hélio Pellegrino
In Minérios Domados
arte Andrius  Kovelinas 

  

25/07/2010

VÉSPER




















Os poetas praticam
a jardinagem do Universo

Colhem estrelas maduras
no frontispício da tarde

A noite convoca suas doçuras
o alaúde de jasmineiros
a Via Láctea.

Héllio Pellegrino
In Minérios Domados
foto by elosoenpersona no Flickr

PASSAM VENTOS DA MORTE...



Passam ventos de morte, passam ventos
Pelos jardins outrora perfumados.
Flores pendidas, mortas, laceradas,
Abrem no chão feridas silenciosas.

Passam ventos de morte. E tudo é tão gelado
E tudo é triste e tudo é desconsolo.
A chuva desce sobre os cemitérios
E leva frio aos mortos esquecidos.

Passam ventos de morte. Trazem velhos
Perfumes de esperanças já vencidas.
Vozes distantes, vozes do passado.

Teu sorriso... Tuas mãos às minhas presas.
Amada...teus cabelos, teus cabelos...
Teus carinhos que nunca foram meus!

Hélio Pellegrino
In Minérios Domados

 

25/05/2010

foto by Sicilian Italiano SAUDAÇÃO AO MEIO DIA Salve, oceano agora pouco crispado, com a franja de tuas espumas nos rochedos longe. Salve, sagrada superfície, sal de nossa substância, morte do nosso desejo de morrer.Pois mais se fixara o mastro do exílio sem indulto, não fora as mercadorias [ que nos trazes na crista de tuas ondas eternas, salve! Tua embriaguez maior que os vinhos da terra, salve! Teu hausto mais amplo que o amor nosso, salve! Tuas velas enxutas para a ardente extensão de nossas [lágrimas, salve! Obrigado, pelas origens que de repente nos revelas, em meio-dia que não teria salvação se não fosse o [ teu sopro, a tua intuição essencial da distância , o vulto das embarcações que levas no teu dorso. Hélio Pellegrino In Minérios Domados

24/05/2010


foto by miguel_quartero

VÉSPER

Os poetas praticam
a jardinagem do Universo

Colhem estrelas maduras
no frontispício da tarde

A noite convoca suas doçuras
o alaúde de jasmineiros
a Via Láctea

Rio,26/2/80

Hélio Pellegrino
In Minérios Domados

foto by Peggy Collins

INSTANTE

Sobressaltado, tento soletrar,
a alma transida, e coração sem ar,
a mensagem do pequenino pássaro
que entra pela janela, a me espiar:

ó punhado de infância, tão certeiro
címbalo que me ilumina, alegria
célere e dançarina, como a graça
que chega sem aviso - e depois passa.

Hélio Pellegrino
In Minérios Domados

14/04/2010


foto de woolyboy

CANÇÃO PARA O AMIGO

Fraterno amigo, entre palmeiras
Nossos nomes se inscreverão.
Venha o furor da vida inteira:
E eles lá ficarão.

Venha raivando a chuva e o vento,
Venha tombando o que Deus quer;
Negue-se o azul do firmamento
Ou outro azul qualquer;

Que os nossos nomes, serenados,
Hão de ficar, até que o frio
Amargo e o pó os cubra a fio
De tempo e de passado.

Hélio Pellegrino
In Minérios Domados

foto by woolyboy

O MEU SILÊNCIO

O meu silêncio é feito de erradias
e pálidas visões crepusculares.
Estranhos vultos rezam litanias
por entre velhas pedras tumulares.

Há mãos que não conheço, mortas, frias,
de leve acarinhando os meus sonhares.
Pelo ar se formam lentas melodias.
Cantam meus devaneios, meus penares...

Em tudo uma paz vaga de canteiros
me traz perfumes da perdida infância:
noites de sortilégios, jasmineiros...

Meu pobre e triste ser se perde em ânsia...
Ó tempos idos, sois como veleiros
aos poucos se perdendo na distância...

Helio Pellegrino
In Minérios Domados