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14/06/2014

VIAGEM




Há olhos que só olham o sonho; e, quando
o sonho se dissipa, ficam cegos.
 
Há pontes por onde não se passa, no inverno,
embora ninguém as guarde: pontes
sem arcos, abstractas como um arco-íris
e frias como a chuva da madrugada.
 
Um campo de erva que amadurece;
feiticeiro fútil dos faróis quando a manhã
limpa as últimas névoas;
um bater de pálpebras como asas:
 
imagens que lembro
 
e me restituem os olhos
com que avisto a entrada da cidade.  
 
Nuno Júdice
In O Pavão Sonoro
arte Alphonse D'Heye
 

O AMOR


 


Deus — talvez esteja aqui, neste
pedaço de mim e de ti, ou naquilo que,
de ti, em mim ficou. Está nos teus
lábios, na tua voz, nos teus olhos,
e talvez ande por entre os teus cabelos,
ou nesses fios abstratos que desfolho,
com os dedos da memória, quando os
evoco.

Existe: é o que sei quando
me lembro de ti. Uma relação pode durar
o que se quiser; será, no entanto, essa
impressão divina que faz a sua permanência? Ou
impõe-se devagar, como as coisas a que o
tempo nos habitua, sem se dar por isso, com
a pressão subtil da vida?

Um deus não precisa do tempo para
existir: nós, sim. E o tempo corre por entre
estas ausências, mete-se no próprio
instante em que estamos juntos, foge
por entre as palavras que trocamos, eu
e tu, para que um e outro as levemos
conosco, e com elas o que somos,
a ânsia efémera dos corpos, o
mais fundo desejo das almas.

Aqui, um deus não vive sozinho,
quando o amor nos junta. Desce dos confins
da eternidade, abandona o mais remoto dos
infinitos, e senta-se aos pés da cama, como
um cão, ouvindo a música da noite. Um
deus só existe enquanto o dia não chega; por
isso adiamos a madrugada, para que não
nos abandone, como se um deus
não pudesse existir para lá do amor, ou
o amor não se pudesse fazer sem um deus.


Nuno Júdice
In Cartografia de Emoções
arte Henri Jean Guillaume Martim

12/01/2011

LONGE























Há uma gramática aberta
no teu corpo, e soletro cada palavra
que o teu olhar me oferece.

Limpo as sílabas que te
escorrem pelo rosto com um lenço de
vidro, descobrindo a tua transparência.

E sais de dentro de um pó de
advérbios, para que eu te dê um nome,
e a vida volte a correr por ti.

Nuno Júdice
Blogger A a Z
tela de Marc Chagall




OUVINDO PÁSSARO
















Às vezes, um pássaro parece cantar
para si próprio. Está na árvore, quando
o dia nasce, e a luz encontra-o
no meio da sombra. «Que manhã é esta,
pensa, em que o sol vem ter comigo
como se não houvesse mais ninguém
para o receber?» E saúda-o
com o seu canto, sem saber que
alguém o ouve, por trás dos arbustos,
e recolhe o que ele diz
para o dizer ao mundo.

Nuno Júdice
Blogger A a Z
foto de  sogy

01/11/2010

ANGELUS























O anjo que renasce com a tua luz, a forma
obscura do seu voo, o canto abstrato
que o envolve, são os motivos do meu canto.

Podia não saber que um anjo tem a figura
do espaço, no azul mais fundo do meio-dia,
ou na treva para que a noite nos arrasta.

É de onde um bater de asas celeste se ouve
que tudo começa, como quando te vejo sair
dessa esquina de memória em que te escondo.

Partilho com esse anjo uma refeição de salmos,
e perguntas-me se é isso que espero da vida,
ou até onde poderei adiar a minha morte.

"Não dependem de nós as últimas decisões",
digo-te, olhando o vazio nos olhos brancos do
anjo que resolve um último problema de xadrez.

E enxoto-o para o seu ninho de nuvens: é
contigo que tenho de resolver as dúvidas do
absoluto, as linhas sem saída do infinito,

o azul e a treva que me pões em frente,
com as tuas mãos pousadas no tampo do segredo,
para que eu abra a caixa dos sentimentos.
Nuno Júdice
tela de Elvira Amrhein

A VIDA



















A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;

a vida que traz consigo as emoções e os acasos,
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas úmidas
no gesso da memória;

a vida feita dos seus
corpos obscuros e das suas palavras
próximas.

Nuno Judice
tela de Igor Levashov

20/04/2010


foto by Jeff Rennicke

NOCTURNO

Uma noite traz consigo a brancura do nada,
o amor que se perdeu num banco de automóvel,
as mãos presas ao bater da chuva nos vidros
que já não reflectem o rosto desejado.

Uma noite pode cair depressa, sem esperar
que os olhos se habituem à sua treva,
ou pode apanhar-nos devagar, como a sombra
que anda ao nosso lado sem a vermos.

Uma noite, no fim do caminho, voltarei
a encontrar-te: para ouvir de novo
a tua voz branca como a noite, e tocar
os teus seios que a treva vestiu de terra.

Nuno Júdice
In Por Dentro Do Fruto a Chuva

14/03/2010



foto by lh5.ggpht.com

Quero dizer-te uma coisa simples: a tua ausência dói-me.
Refiro-me a essa dor que não magoa, que se limita à alma; mas que não deixa, por isso, de deixar alguns sinais - um peso nos olhos, no lugar da tua imagem, e um vazio nas mãos, como se as suas mãos lhe tivessem roubado o tato. São estas as formas do amor, podia dizer-te; e acrescentar que as coisas simples podem ser complicadas, quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade. Porém é o sonho que me traz a sua memória; e a realidade aproxima-me de ti, agora que os dias correm mais depressa, e as palavras ficam presas numa fração de instantes, quando a tua voz me chama de dentro de mim - e me faz responder-te uma coisa simples, como dizer que a tua ausência me dói.

Nuno Júdice

15/11/2008


BY Sorolla y Bastida

NUNCA SÃO AS COISAS MAIS SIMPLES

Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.

Nuno Júdice

26/09/2008


Hold Me Tight by Rabi Khan

Leio o amor no livro
da tua pele;demoro-me em cada
sílaba,no sulco macio
das vogais,num breve obstáculo
de consoantes,em que os meus dedos
penetram,até chegarem
ao fundo dos sentidos.Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se
juntam,como corpos,no abraço
de cada frase.E chego ao fim
para voltar ao princípio,decorando
o que já sei,e é sempre novo
quando o leio na tua pele.

Nuno Júdice

17/09/2008



CREPUSCULAR

A incerteza cai com a tarde
no limite da praia. Um pássaro
apanhou-a, como se fosse
um peixe, e sobrevoa as dunas
levando-a no bico. O
seu desenho é nítido, sem
as sombras da dúvida ou
as manchas indecisas da
angústia. Termina com a
interrogação, os traços do fim,
o recorte branco de ondas
na maré baixa. Subo a estrofe
até apanhar esse pássaro
com o verso, prendo-o à frase,
para que as suas asas deixem
de bater e o bico se abra. Então,
a incerteza cai-me na página, e
arrasta-se pelo poema, até
me escorrer pelos dedos para
dentro da própria alma.

Nuno Júdice

Foto de Amelia PS

SONHO

É uma quietação que nasce da tarde, com
as imagens que arrumo na prateleira do outono,
de onde as irei tirar nessa primavera que faz parte
do teu sonho. De novo, estabeleço uma relação
entre o rosto que se afasta do mundo e
o azul de um céu antigo, que serve
para guardar a linha do horizonte nas manhãs
em que a névoa a esconde. Ambos me afastam
da penumbra do poema, e quando derramo
esse azul sobre o teu rosto é como se a tinta
do céu te restituísse a cor da vida, e o riso
que ilumina a noite. Regresso então ao princípio,
que és tu, para roubar à tarde a sua quietação,
e desenhar com ela o teu perfil sobre o sonho
em que a primavera floresce.

Nuno Júdice

16/09/2008


Rosa by Den Reader

ALEGORIA FLORAL

Um dia em que a mulher nasça do caule da roseira
que cresce no quintal; ou um dia em que a nuvem
desça do céu para vestir de névoa os seus
seios de flor: seguirei o caminho da água nos
canteiros que me levam ao caule, e meter-me-ei
pela terra em busca da raíz.
Nesse dia em que os cabelos da mulher se
confundirem com os fios luminosos que o sol
faz passar pela folhagem; e em que um perfume
de pólen se derramar no ar liberto da névoa:
procurarei o fundo dos seus olhos, onde corre
uma tranparência de ribeiro.
Um dia irei tirar essa mulher de dentro da flor,
despi-la das suas pétalas, e emprestar-lhe o véu
da madrugada. Então, vendo-a nascer com o dia,
desenharei nuvens com a cor dos seus lábios, e
empurrá-las-ei para o mar com o vento brando
da sua respiração.
Depois, cobrirei essa mulher que nasceu da roseira
com o lençol celeste; e vê-la-ei adormecer, como
um botão de rosa, esperando que a nuvem desça
do céu para a roubar ao sonho da flor.

Nuno Júdice

08/09/2008


Foto de msmiguel

FLORES

É nestas flores, em particular, que
vejo desenhar-se uma linha que me leva
de mim a ti, passando sobre um campo
invisível, onde já não se ouvem
os pássaros, e onde o vento não faz cair
as folhas. Estamos em frente de um canteiro
puramente abstracto, e cada uma destas flores
nasceu das frases em que o amor se manifesta,
e do movimento dos dedos sobre a pele,
traçando um fio de horizonte
em que os meus olhos se perdem. Por isso estão
vivas, e alimentam-se da seiva
que bebem nos teus lábios, quando os abres,
e por instantes a vida inteira se resume
ao sorriso que neles se esboça.

Nuno Júdice