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25/02/2014

POR QUÊ




Esta ponte insegura, sempre frágil,
entre o que foi e o que é, mais que vital,
é, para mim, a fonte do que faço,
o motivo de amar, de ser e de ir,
que me faz seguir sempre mais  adiante
do que se não tivera o tempo atrás.
Ah, tempo, que me pregas tantos peças,
tanto me imprensas contra o derradeiro
muro, por trás do qual tudo é obscuro,
dá-me como entender todas as coisas,
antes que vá, sem compreender, ao menos,
por que aqui estou, por que vivi, por que
cheguei sem esperar e, quando for,
irei sem ter  pedido ou desejado.
 
Reynaldo Valinho Alvarez
In Galope do Tempo  
Imagem Claude Monet  

A MAIS



Pagar o imposto de uma vida miúda
e desejá-la  teúda e manteúda.
 
Embora breve, a vida não perdoa
a quem a trata como coisa à toa.
 
Sobreviver. Viver sobre. Viver 
a vida a mais que, ao menos, quero ter.
 
 
Reynaldo Valinho Alvarez
In Galope do Tempo
Imagem Dorina Costras
 
 

21/12/2012

INSÔNIA




A manhã se aproxima e é sempre duro
quando o sol rompe a treva e inunda o escuro
de um sono que nem mesmo aconteceu.
Sinto-me novo e inútil Prometeu
 a quem bicam o fígado, melhor 
dizendo a mente, e que aprendeu de cor
os caminhos da noite soluçados,
como vagidos, em jardins murados,
numa vigília que não se escolheu.
Ah, estradas da noite, ah, poços fundos,
sempre cheios de lodo, tão imundos
deste vazio amortalhado em breu.
Ah, pontes sem destino, cruel fadiga
do tempo debulhado como espiga.

Reynaldo Valinho Alvarez
In Galope do Tempo 
tela Carrie Vielle

O SUPER-HOMEM



Abro a janela e solto-me no espaço.
A vida é um pátio aberto em plena escola,
para onde vou, com pasta e com sacola,
toda manhã, de sol ou de mormaço.
Queria ser igual ao Homem de Aço,
para voar mais alto do que a mola
que tenho no meu peito ou do que a bola
que impulsiono a correr e sem cansaço.
Na linha das montanhas, me liberto
 e eis que percorro todo o espaço aberto,
como no pátio alegre do recreio.
Sou mais que o Super-Homem, pois não tenho
os limites quadrados do desenho,
para conter meu voo e meu anseio.

Reynaldo Valinho Alvarez
In Galope do Tempo
tela Duy Huynh



08/05/2012

A VIDA PERDE A CORRIDA




Lá vai  o tempo
cheio de vento

no seu galope
não quer escort

aceita o vento
só por sport

olha de cima
como quem cisma

sabe do céu
sabe do inferno
sabe-se eterno

a vida perde
sempre a corrida

o tempo voa
e a vida vive
toda encolhida

lá vai o tempo
mas volta já

enquanto a vida
que vai já foi
e já não há

Reynaldo Valinho Alvarez
In Galope do Tempo
tela Duy Huynh

05/03/2012

PURA PERDA



Deter-se, por ter medo, é pura perda.
Ninguém sua derrota acolhe ou herda.

O tempo está à espreita em sua toca
e não lhe importa a ira que provoca.

Medir-se contra o monstro é uma prudência.
Mas, contra o tempo pode haver ciência?

Reynaldo Valinho Alvarez
In Galope do Tempo

23/02/2012

A FACA PELO FIO



Estou longe de mim.Sinto-me ausente,
pluma solta no tempo, sem presente
nem passado ou futuro, imponderável,
flexível, transparente, miserável
não-ser plantado  no quintal do nada,
todo feito de nãos, ferido a cada
segundo gotejante de uma noite
que percute na mente como o açoite
de um carrasco embuçado. Quanto riso
provoca este jogral, sem brio ou siso
que o acorde do pesado sono obscuro
em que se deita o seu desejo impuro
de ir na contracorrente, ao arrepio,
como quem pega a faca pelo fio.

Reynaldo Valinho Alvarez
In Galope do Tempo
tela Duy Huynh

A VIDA FRÁGIL



Quantas vezes fingiram, na verdade,
um sentimento de fraternidade
que era só máscara cruel, num gesto
de quem assina um longo manisfesto,
escrito com ternura para os povos,
sempre voltados para tempo novos,
sem fome, sem violência e sem miséria.
O tema, sabem todos, é matéria
de discursos, palestras, livros, teses,
que afundam em derrotas, em reveses
traduzidos em guerras e atentados.
De manhã, acordamos assustados,
para semear a paz, enquanto a vida
brota, frágil, do chão que se lida.


Reynaldo Valinho Alvarez
In Galope do Tempo
tela Duy Huynh

13/02/2012

AS CANTIGAS DO TEMPO


As cantigas do tempo que me envolvem
não são apenas as que me envolvem,
serenas, às ondas do mar de Vigo.

Vêm de eidos, eiras, muros e travessas,
formam de um puzzle as incontáveis peças,
mas me rondam e estão sempre comigo.

Não são distantes peças de antiquário
ou jazigos de um parque funerário.
São estufas repletas de ar amigo.

A música do tempo me transporta,
como um menino, à intransponível porta
que se antepõe ao amigo e leva ao tigo.

Essa canção do tempo corta a ria
e me conduz à arcaica romaria
sobre as ondas anciãs do mar de Vigo.

Reynaldo Valinho Alvarez
In Galope do Tempo


06/02/2012

BALADA DO TEMPO-BOI




Por que será que nunca foi
o que, se fosse, me agradaria?
Por que será que morde e mói,
como um castigo, a boca avara
deste faminto e abstrato boi,
que come todas as lembranças
e, quanto mais isto me dói,
também remói as esperanças?

Que boi é este, que não foi,
que espécie é esta, assim tão rara,
que, ao ruminar, mói e remói,
lambendo sempre a própria cara,
qualquer lembrança do que foi,
artes da vida, ardis e andanças,
coisas que engole o superboi,
senhor do tempo e das mudanças?

Que boi é esse forte boi,
bicho de fera e cruel cara,
que fere fundo onde mais dói,
lá onde a dor salta e dispara,
e nem ao menos se condói
com o estrago feito às esperanças
do homem comum, do anti-herói,
com a força má de suas lanças?

Por que será que nunca foi
o que, se fosse, me agradara?
É obra má de um tempo-boi
ou é da vida a marca e a tara?

Reynaldo Valinho Alvarez
In Galope do Tempo
tela Franz Marc

05/02/2012

INCERTA VAI A NAU



Incerta vai a nau, torto é o mundo,
as mãos são fracas e o oceano é fundo.
Desgoverna-se o leme, tudo treme,
a madeirame geme e o barco freme.
São sinais de naufrágio. Paga-se o ágio
de se olhar para o umbigo. Chega o estágio
em que um só não se salva. É necessário,
mais que nunca, um esforço solidário.
Rasga-se a quilha nos recifes.A água
penetra em jorros nos porões. A mágoa
de estar perto do fim a todos toma.
Como fazer do oceano a urgente doma?
Cercados pelo mar,unem-se os braços
que sumirão na espuma e nos sargaços.

Reynaldo Valinho Alvarez
In Galope do Tempo

NO MEIO, A VIDA



Cantaremos um dia sem ter medo.
Ou vamos naufragar contra o rochedo?

Nascer para morrer.No meio, a vida,
uma estreita vereda e a dura lida.

Saltar sobre isso e sobrevoar o espaço,
com pernas leves e coração de aço.

Reynaldo Valinho Alvarez
In Galope do Tempo

19/07/2009


Foto de Bebel Ugalde

COM A FIRMEZA DE PASSOS SEM RETORNO

Com a firmeza de passos sem retorno,
carregar o que foi dentro de si,
sem chorar o que afinal vai bem marcado
com seu selo de coisa inesquecível.
A essência não se perde, vai conosco
e extravasa dos dedos quando escrevem,
salta fora da boca quando fala,
transpira pela pele, sai dos ossos,
é lançada dos músculos em arco
e circula no sangue das artérias.
Os pagos, as querências não se perdem,
se penetram nos ossos, mora, neles,
não como minuano passageiro,
mas sim como a medula que sustenta
o circuito do corpo e o movimenta,
impedindo que pare, morra e penda
como trouxa de pano, como penca
tombada de seu pé, como o vazio,
a coisa sem recheio, a casca murcha,
o fruto despojado de si mesmo.

Reynaldo Valinho Alvarez
In O Solitário Gesto de Viver

I and The Village, 1911 by Marc Chagall

ATÉ QUE OU TEMPO OU VENTO APAGUE A CHAMA

Até que ou tempo ou vento apague a chama,
falarei destas coisas que nos fazem
um pouco mais amigos, mais irmãos,
porque circulam, digo, circulavam
nos ares que aspirávamos, tomados
por um fluxo de vida que habitava
a paisagem lembrada e destruída.
Não somos carpideiras, não choremos
Sião neste desterro ou o local
onde Tróia existiu. Antes, cantemos
o que resta e não é resto carcomido,
o que salta do solo, solto no ar,
borboleta, gaivota, sobre o mar,
e voa entre edifícios, vôo calmo,
repleto do que fica e já não voa
como outrora voou, mas nesse voo
declara seu desejo e afirma o não
que se anuncia à morte, quando a vida
perpassa pelos fios das artérias
como potro lançado contra o vento,
a cegueira da noite e o temporal.

Reynaldo Valinho Alvarez
In O Solitário Gesto de Viver

18/07/2009


Il paesano by Louis Toffoli

O SOLITÁRIO GESTO DE VIVER

O solitário gesto de viver
não demanda a coragem que há na faca,
na ponta do punhal e até no grito
de quem fala mais alto e está coberto
de razões, de certezas, de verdades.
O gesto de viver se oculta em dobras
tão íntimas do ser, que o desfazê-las
é mais que indelicado, é violência
que nem sequer se pode conceber.
O gesto de viver é só coragem,
mas, de tal forma próprio e incomparável,
que não se exprime em verbo, imagem, mímica,
ou qualquer outra forma conhecida
de contar, definir ou explicar.
A coragem no gesto de viver
está em coisas simples, por exemplo,
na diária decisão de levantar.
E mais, em se vestir e trabalhar
por entre espadas, punhos e navalhas,
peito aberto, sem armas, passo firme,
e à noite, ainda intato, regressar.

Reynaldo Valinho Alvarez
In O solitário gesto de viver