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12/02/2013

SERENATA À CHUVA




Chuva, manhã cinza, guarda-chuva.
Entrar no contexto, dois pontos. Ele e ela
abraçados caminham sob o tecto
do guarda-chuva que os guarda.
Pelas ruas vão com a vontade de voltar
ao branco dos lençóis. Esse objecto prosaico
que às vezes se vira com o vento
torna-se objecto do poema. Dizer também
como a chuva é doce neste dia de verão.
Como o amor altera o sentido da chuva,
sim, como ela se eleva no ar e as frases se colam
ao vestido. No interior da pele o poema mudou
desde que entraste no guarda-chuva esquecido
a um canto do armário.Talvez o amor seja tudo amar
sem excepção. Eu que nunca uso guarda-chuva
assino incondicionalmente este poema.
 
Rosa Alice Branco
In Soletrar o dia 
tela Andre Kohn

11/02/2013

EM TROCA DA ALEGRIA




Semeaste o dia. De manhã cedo
a terra disse o meu nome com a tua voz.
Na casa da minha avó eu acordava
com o cheiro do pão acabado de fazer.
Ela que tudo fazia e tudo nos dava
dá-me agora muito mais.O seu rosto
mora comigo e as mãos acariciam-me
cada palavra que não sei dizer.Esta manhã
vi o mar à janela e uma gaivota sorria-me
do outro lado da rua. E não perguntei
onde estás ou se tens passado bem.
Nada perdi em troca da alegria.
Nada desejei com o pão e o café.
Vesti-me depressa e comecei a dançar.
 
Rosa Alice Branco
In Soletrar o dia

MENSAGEM SILENCIOSA



Os sentidos reúnem-se à mesa do jantar,
as vozes misturam-se com os cheiros
da terra,
com o gosto do amor em cada prato;
os dedos cruzam-se no pão que inventamos
verso a verso,
no olhar a palavra da mãe que se levanta
e eu atrás
com o laço de verão no vestido
que se desaperta.
A mão da mãe enlaça os sentidos,
dá um nó, o amor preso a toalha
da mesa - não penses,
nunca penses no laço que se abre,
no corpo que se fecha,
nas migalhas dispersas pelo chão:
deixa só o vestido voar
em redor do tempo.
 
Rosa Alice Branco
In Soletrar o dia 
tela Nerida de Jong

10/01/2012

NOTAS PARA UM CONCERTO



Esta noite acordei com uma nota de música,
uma nota grave e tão pálida como a noite lá fora.
Acordei com a alma em desalinho e as mãos
tentando acender a luz para afastar de vez
as coisas que enterrei no fundo do quintal
como o medo nos olhos dos coelhos e dos patos,
os grunhidos de terror no dia da matança,
e as galinhas tontas girando sem cabeça pelo pátio.

Eu tinha o vago sentimento de que toda aquela gritaria
se transformava em enchidos, que as mulheres coziam
o sangue e temperavam a crueldade com palavras:
"é natural", " é assim a vida".
Eram sensíveis, amavam os animais e davam-lhes nomes
com as mesmas mãos que haviam de esventrá-los.

Gostava de escapar a este comentário que vem
da infância e se atravessa no meu sono.
Tudo é vago, tudo é confuso mas nada foi omitido.Ainda
sinto
uma nota de música latindo na noite, ainda trago comigo
a pá que resolve a terra onde fui depositando
todas as datas previstas para a morte.

Rosa Alice Branco
In Soletrar o dia 
tela Felix Mas    

01/01/2012

TROMPE I'OEIL


Há dias em que só uma  árvore
esconde a floresta, uma gota
esconde todo o mar. Dias míopes
agarrados ao meu corpo.E se te dissesse
que não é meu este corpo, nem a voz
que ouves ao telefone.Ainda assim estou
sempre a partir para mais perto, tão perto
que um grão de areia é apenas um e sei
que deve existir uma praia para lá
do olhar.Avanço e recuo mas os meus passos
parecem de alguém que por ali passou.
E há sempre uma árvore, um ramo,
uma folha opaca maior do que os olhos
com que te vejo se pudesse ver-te.

Dias em que a floresta esconde suas árvores
e a tua mão torna invisível cada um dos dedos:
o indicador do infinito,o impreciso lugar
onde me alojo entre o polegar e o médio,
o segundo em que começo a respirar.
Nunca estou no minuto de uma hora,
num poro do meu corpo, no todo que acaricia
as suas partes como o vento acaricia o ar.

Há dias em que entras nos meus dias.
E soletro cada gota quando me desfaço
em espuma e não distingo o branco
do branco do lençol.é uma ignorância
que me salva e sinto tudo o que vejo
como se o visse dos meus ou dos teus olhos.
Ou de alguém que não passou por mim
e talvez nem passe. Por isso não pergunto
onde estou ou onde estão as coisas.
As gaivotas caminham apressadas.
Os cadeeiros acendem a noite.
Fechamos os olhos para nos perdermos.

Rosa Alice Branco
In Soletrar o dia 

19/10/2010

TRANSMIGRAÇÃO DAS ALMAS



As rosas acabam de morrer. Os abutres não nos largam,
as pombas já sujaram os beirais, os mosquitos aspiram a
seiva
pela última vez.Ainda há pouco feriste o dedo numa
rosa
e agora os espinhos parecem de borracha. Queres água?
Está fresca como quando éramos miúdos
e a devorávamos com sofreguidão no perfume do cântaro
de barro. Inodora. Na água do cântaro podem-se viver
mais anos. As horas estão contadas, mas os minutos
são por nossa conta.Perdoas-me? É assim que pomos fim
às guerras, os pequenos tratados de paz são um artifício
legal, mas a verdadeira fé é pôr as rosas na água
do cântaro e sonhar com a força dos espinhos.
As palavras bombardeiam a noite que desce. Ouves
como uiva a noite? Sabe que estamos indefesos
até ao mais pequeno segundo, que o pão seca
com as rosas,
que gostaríamos de prolongar as incertezas, as coisas
inúteis como o medo e o amor. Diz que me perdoas.
Há pequenos seres na água onde as rosas morreram:
também eles têm uma vida à frente pelo ralo da banca.

Rosa Alice Branco

In Soletrar o dia
tela de Jill Barton     

16/10/2010

TEORIA E PRÁTICA DA ETERNIDADE



Será difícil aceitar os teus olhos errantes
pousados na sabedoria do seu corpo
e as tuas mãos paradas como se repousassem
de um dia de trabalho.Mas observa bem o lavrador,
olha-o a caminhar pelas estações das nossas vidas
e depois cava assim o teu próprio coração,
remove as pedras, as raízes mortas,
as pequenas ervas que não o deixam medrar.
Que respire agora a terra revolvida
para receber a semente que pousarás no fundo.
E que venha o inverno.No frio dos teus ossos
sente-a estremecer, deixa que a dor cante
e quando rebentar e encher o peito
verás à sua volta as mãos da terra,
os corações que anseiam pela hora fértil
e saberás que o teu trabalho nunca terá fim.

Rosa Alice Branco
In Soletrar o dia
tela de Robert Coombs

A LETRA "MAIS" PEQUENA























Caminhas pela praia.As sandálias nas dunas
junto à erva agreste de outros dias.O sol
não te queima, não te fere os olhos ao meio dia.
Soletramos o amor com a letra mais pequena de uma língua
acabada de inventar.Sabem as gaivotas.Sabe o mar.
Era uma vez. Era assim que se agasalhava a noite
e me enrolava nos teus olhos para encontrar
a luz. Não é com a memória que caminho.
As manhãs são de névoa como as camarinhas
que cresciam nas dunas. Com quem posso
agora falar de camarinhas? Saborear o gosto
das bagas e dos risos.Vamos apanhando conchas,
castelos,príncipes,borboletas. Vamos perdendo
o que encontramos. As mãos vazias. Os passos leves.
Os olhos crescem como a erva nas sandálias.

Rosa Alice Branco
In Soletrar o dia
tela de Michael & Inessa Garmash

28/10/2009


Foto by Blogger Aprendiz de Poeta

A-MAR

Uns dias ama-se,outros faz frio, um frio de gelar
os mortos. A indiferença é mais mortal.Durmo na praia
com os excrementos do mar; a vida tão perto
da morte.Decompomo-nos infinitamente
desde o princípio, somos o paraíso de pequenos seres:
somos o paraíso.Uns dias ama-se e é com esses
que atravessamos o milénio.Sabes que este século
terá o coração aberto, poderemos vê-lo trabalhar,
olear as suas peças, vigiar as válvulas, ver como se fecha
o ciclo, como recomeça.Não, este século
não terá um coração mecânico, não se alimentarão dele
as metáforas sofisticadas da moda: apenas um órgão
onde os outros se reconhecem e a unidade do corpo
se refugia.Neste milénio o coração não terá válvulas,
não será bombeado o sangue. Acima das nuvens
há-de pairar como um pequeno animal
a quem esvaziaram os ossos.
Talvez não tenhamos palavras para tanto sangue.
Uns dias ama-se a indiferença
com que os despojos do mar são o paraíso.

Rosa Alice Branco
In Soletrar o dia

Isla Negra/foto by suzzinha

DIA DO ANIVERSÁRIO

Sempre que te escrevo aparecem fusos entre nós:
11 da manhã em Isla Negra e duas da tarde
no teu quarto.Na casa de Neruda mesmo as figuras de ré
olham o mar.Colecionáveis, como as que se vendem
numa barraca cá fora, de vários tamanhos e preços.
Escrevo-te para qualquer lugar que nunca sei onde fica.
Cão de caça, procuro os teus vestígios por aí:
entre as roupas que faltam busco as que te agasalham,
cheiro a louça que sujaste, procuro a ciência da tua
natureza espalhada pela casa. A casa de Neruda
em Isla Negra é transparente:
posso segui-la ao longo da costa, da voz do guia,
essa voz absurda que podias ter ouvido três horas antes
se não houvesse fusos entre nós.Talvez o poeta
se tenha picado num fuso e o exílio fosse apenas a cegueira
dos outros.Imponentes as figuras inclinadas miram longe,
para lá do vidro. A mais bela olha a campa de Neruda
por entre a multidão de visitantes que exigem uma fotografia
com ele.Instantâneos: vão e outros vêm ser fotografados.
A terra é fotogénica e está sempre à mão.Agora já é tarde
em Isla Negra e demasiado cedo no teu quarto.
Talvez o amor seja uma figura de proa desafiando o barco
por entre o alvoroço das águas.Está virada para ti
que nunca sei onde estás e és o meu norte.

Rosa Alice Branco
In Soletrar o dia

06/10/2009


Foto de m.cavalcanti no Flickr

ARTE POÉTICA


Gostaria de começar com uma pergunta
ou então com o simples facto
das rosas que daqui se vêem
entrarem no poema.
O que é então o poema?
um tecido de orifícios por onde entra o corpo
sentado à mesa e o modo
como as rosas me espreitam da janela?
Lá fora um jardineiro trabalha,
uma criança corre, uma gota de orvalho
acaba de evaporar-se e a humidade do ar
não entra no poema.
Amanhã estará murcha aquela rosa:
poderá escolher o epitáfio, a mão que a sepulte
e depois entrar num canteiro do poema,
enquanto um botão abre em verso livre
lá fora onde pulsa o rumor do dia.
O que são as rosas dentro e fora
do poema? Onde estou eu no verso em que
a criança se atirou ao chão cansada de correr?
E são horas do almoço do jardineiro!
Como se fosse indiferente a gota de orvalho
ter ou não entrado no poema!

Rosa Alice Branco
In Soletrar o Dia

10/04/2009


Foto de eduhhz

AS ESTAÇÕES DE BASHÔ

Tudo o que caminha
muda de nome.
Bashô é agora Bashô.

As árvores tomam o nome
das suas folhas. Em cada ramo
o canto dos animais
vai tecendo o verde.

Os nomes adoçam
quando pende o fruto.
As cerejas dão sombra na boca
que saboreia a sede.

Espalhado no chão
o nome das árvores
ao sabor do vento
na língua do crepúsculo.

A espuma do ar
sobre o ramo nu
onde o nome
não encontra pouso.

Bashô entra em Bashô.
Logo dará o seu nome
a outro caminhante.

Rosa Alice Branco
In Soletrar o dia

02/04/2009


Foto de NassauJr

MANHÃS NO CHÃO

Aceitar o dia. O que vier.
Atravessar mais ruas do que casas,
mais gente do que ruas. Atravessar
a pele até ao outro lado. Enquanto
faço e desfaço o dia. O teu coração
dorme comigo. Agasalha-me as noites
e as manhãs são frias quando me levanto.
E pergunto sempre onde estás e porque
as ruas deixaram de ser rios. Às vezes
uma gota de água cai no chão
como se fosse uma lágrima. Às vezes
não há chão que baste para enxugar.

Rosa Alice Branco
In Soletrar o dia

17/09/2008


Foto de Jose Ferreira Jr

O SEGREDO DA MATÉRIA

Subo ao sótão e tenho seis anos
pelas escadas que rangem
sob os pés que voam em segredo,
rangem como a porta a abrir
para a luz filtrada dos pavores da infância
onde espero um pouco
por tudo o que me espera desde a eternidade.
Tenho sete anos e a cinza confunde-se com a luz
depositada no tempo. As arcas dão a ver o outro lado
do mundo espalhado pelo chão à minha volta.
Não são objectos mas o próprio mistério da existência
que vai passando pelas minhas mãos
quando tenho oito anos, quando tenho agora
o segredo de uma porta que abre para a casa.
Percorro os caminhos da mesa, da cama, da lareira,
as raízes da casa são o sótão
onde a luz toca nas mãos o infinito.
Subo pelos olhos espantados
e espero ainda pela aurora que me aguarda
aproximando-se lentamente do seu pó.

Rosa Alice Branco

15/09/2008


by Henri Matisse

A TUA PELE DESCALÇA

Veio uma onda . A varrer o meu sono .
Caminhava nele como caminho na areia .
Nada me une ou divide. Nada me retém.
Sentas-te onde me sento no teu colo
e peço sempre a mesma história . A tua voz
cria as memórias que hei-de ter . Por agora
caminho ao longo das gaivotas e grito como elas
quando a maré baixa . Às vezes apoio-me num rochedo
para dizer “casa” e logo desmorono. Sigo descalça
como tu para dizer “seguimos”. Mas são apenas sons
sob o sol de maio. Murmúrios do que não serei.
Sempre tive problemas com o verbo ser. Faço
e desfaço as malas, entro e saio das gavetas.
Pausa na camisa que vestiste da última vez.
Uma vontade de a amarrotar, desapertar os botões
e sentir lá dentro a tua pele cá fora.
Tudo isto é tão verdade como podem ser os botões
de uma camisa escrita. Confesso que não pensei na cor,
ou se era às riscas. Agora acho que podia ser a de quadrados.
Em qualquer delas a tua pele entra na minha.

Rosa Alice Branco