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01/04/2012

NARCISO E NARCISO



Se Narciso se encontra com Narciso
e um deles finge
que o outro admira
(para sentir-se admirado),
o outro
pela mesma razão finge também
e ambos acreditam na mentira.

Para Narciso
o olhar do outro, a voz
do outro, o corpo
é sempre o espelho
em que ele a própria imagem mira.
E se o outro é
como ele
outro Narciso.
é espelho contra espelho:
o olhar que mira
reflete o que  o admira
num jogo multiplicado em que a mentira
de Narciso a Narciso
inventa o paraíso.

E se amam mentindo
no fingimento que é necessidade
e assim
mais verdadeiro que a verdade.

Mas exige, o amor fingido,
ser sincero
o amor que como ele
é fingimento.

E fingem mais
os dois
com o mesmo esmero
com mais e mais cuidado
- e a mentira se torna desespero.
Assim amam-se agora
se odiando.

O espelho
embaciado,
já Narciso em Narciso não se rima:
se torturam
se ferem
não se largam

que o inferno de Narciso
é ver que o admiravam  de mentira.

Ferreira Gullar
In Toda Poesia,
tela Nicolas-Bernard Lépicié (1735–1784)

31/03/2012

DANÇA FLAMENCA


 
Começa com as castanholas
zoando em nossos ouvidos
e a vibração das violas
os  leques  os estampidos
dos pés dessas espanholas
que ao emitirem zumbidos
de abelhas com as castanholas
parecem atrair maridos,
e no trepidar de solas
e de saltos repetidos
pernas movidas a molas
e desejos reprimidos
lê-se a lição espanhola
do garbo e gestos medidos
do orgulho que vem das solas
dos pés aos queixos erguidos,
que nas fêmeas são estolas,
saias, babados, vestidos,
e nos homens são gemidos
de peito humano e violas,
mas são gemidos fingidos,
de quem deseja é a corola
oculta sob os vestidos
dessas fêmeas espanholas,
feitas de sangue e zunidos,
de unhas e castanholas,
coxas, nádegas, grunhidos,
olhos negros, ventarolas
com seus punhais escondidos,
é a dança flamenca, a escola
que ensina Espanha em batidos
de pés e mãos, saltos, solas,
que ensina Espanha em gemidos
de marmanjo e violas,
a Espanha das castanholas,
do desejo e seus zumbidos,
dos pés e seus estalidos,
dos tumultos repetidos
de coxas, pernas, gemidos...

Espanha, dança flamenca,
Espanha pelos ouvidos.
 
Ferreira Gullar
In Muitas Vozes
tela  Renata Domagalska

25/03/2012

****



O mito nos apura
em seus cristais.

Os ventos que enterramos
não nos deixam.
Estão nos castigando
com o seu escuro fogo.

A altura em que queimamos
o sono
estabelece o nosso inferno
e as nossas armas.

Ferreira Gullar
In A Luta Corporal e Novos Poemas
tela John Watkiss, "Blue Mermaid"

24/03/2012

AS ARMADILHAS


No mundo há muitas armadilhas
e o que é armadilha pode ser refúgio
e o que é refúgio pode ser armadilha

Tua janela, por exemplo,
aberta para o céu
e uma estrela a te dizer que o homem é nada
ou a manhã espumando na praia
a bater antes de Cabral, antes de Tróia
(há quatro séculos quase, Tomás Bequimão 
tomou a cidade, criou uma milícia popular
e depois foi traído, preso, enforcado)

No mundo há muitas armadilhas
e muitas bocas a te dizer
que a vida pouca
que a vida né louca
E por que não a Bomba? te perguntam.
Por que não a Bomba para  acabar com tudo, já
que a vida é louca?

Contudo, olhas o teu filho, o bichinho
que não sabe
que afoito se estranha à vida e quer
a vida
e busca o sol, a bola, fascinado vê
o avião e indaga e indaga.

A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela.
E não te mataste, essa é a verdade.

Estás preso à vida como numa jaula.
Estamos todos presos
nesta jaula de Gagárin foi o primeiro a ver
de fora e nos dizer: é azul.
E já o sabíamos, tanto
que não te mataste e não vais
te matar
e aguentarás até o fim.

O certo é que nesta jaula há os que têm
e os que não têm
há os que têm tanto que podiam sozinhos
alimentar a cidade
e os que não têm nem para o almoço de hoje

A estrela mente
o mar sofisma. De fato,
o homem está preso à vida e precisa viver
o homem tem fome
e precisa comer
o homem tem filhos
e precisa criá-los
Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las.

Ferreira Gullar
In Novos Poemas
tela Серебрякова, Зинаида Евгеньевна (Россия, 1884 – 1967)

A VOZ DO POETA



Não é voz de passarinho
flauta do mato
viola

Não é voz de violão
clarinete pianola

É voz de gente
(na varanda? na janela?
na saudade? na prisão?)

é voz de gente - poema:
fogo logro solidão.

Ferreira Gullar
tela Manet Edouard "Bouquet Of Violets"

27/03/2011

NESTE LEITO DE AUSÊNCIA EM QUE ME ESQUEÇO























Neste leito de ausência em que me esqueço,
desperta um longo rio solitário:
se ele cresce de mim, se dele cresço,
mal sabe o coração desnecessário.

O rio corre e vai sem ter começo
nem foz e o curso, que é constante, é vário.
Vai nas águas levando, involuntário,
luas onde me acordo e me adormeço.

Sobre o leito de sal, sou luz e gesso:
duplo espelho – o precário no precário.
Flore um lado de mim? No outro, ao contrário,

de silêncio e silêncio me apodreço.
Entre o que é rosa e lodo necessário,
passa um rio sem foz e sem começo.

Ferreira Gullar
In Nothingandall
tela de Gustav Klimt

26/09/2010

O SOM

















o som é da Terra
não há nenhuma música das esferas
como pensou Aristóteles
música barulho
o trepidar cristalino
da água
sob as folhas
é coisa terrestre
o cosmo é um vastíssimo silêncio
de bilhões e bilhões de séculos
nenhum ruído
as estrelas são imensas explosões mudas
um desatino
a matéria estelar
(em explosão)
é silêncio
e energia

Para outros ouvidos talvez
poderia ser o universo
uma insuportável barulheira
não para os nossos
terrenos
viver na Terra é ouvir
entre outras vozes
o marulho do mar salgado e azul
ouvir a ventania a rasgar-se nos galhos
antes do temporal

só aqui
neste planeta é que
se pode ouvir teu límpido gorjeio,
passarinho,
pequenino cantor
da praça do Lido.
 
Ferreira Gullar 
foto por HydroJen19

14/01/2010


Visage de la paix (Silkscreen print) by Pablo Picasso

ANO-NOVO

Meia-noite.Fim
de um ano, início
de outro.Olho o céu:
nenhum indício.

Olho o céu;
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio

da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça:
nada ali indica
que um ano novo começa.

E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.

Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta

nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta).

Ferreira Gullar
In Barulhos

28/02/2009


by Felit.com.br

"A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalhas e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais, entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquinas. Disso eu quis fazer a minha poesia. Dessa matéria humilde e humilhada, dessa vida obscura e injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta consigo as pessoas e as coisas que não tem voz".

Ferreira Gullar
by blogger de Ademir Antônio Bacca

23/02/2009


Untitled by Francine Van Hove

TEU CORPO

O teu corpo muda
independente de ti.
Não te pergunta
se deve engordar.

É um ser estranho
que tem o teu rosto
ri em teu riso
e goza com teu sexo.
Lhe dás de comer
e ele fica quieto.
Penteias-lhe os cabelos
como se fossem teus.

Num relance, achas
que apenas estás
nesse corpo.
Mas como, sem ele
não és?
Ao que tudo indica
tu és esse corpo
- que a cada dia
mais difere de ti.

E até já tens medo
de olhar no espelho:
lento como nuvem
o rosto que eras
vai virando outro.

E a erupção
que te surge no queixo?
Vai sumir? alastrar-se
feito impingem, cancer?
Poderás detê-la
com o Dermobenzol?
ou terás que chamar
o corpo de bombeiros?

Tocas o joelho:
tu és esse osso.
Olhas a mão:
tu és essa mão.
A forma sentada
de bruços na mesa
és tu.
Quem se senta és tu,
quem se move (leva
o cigarro à boca,
traga, bate a cinza)
és tu.
Mas quem morre?
Quem diz ao teu corpo - morre -
quem diz a ele - envelhece -
se não o desejas,
se queres continuar vivo e jovem
por infinitas manhãs?

Ferreira Gullar
In barulhos

21/02/2009


Foto de antoninodias13

INFINITO SILÊNCIO

Houve
(há)
um enorme silêncio
anterior ao nascimento das estrelas

antes da luz

a matéria da matéria

de onde tudo vem incessante e onde
tudo se apaga
eternamente

esse silêncio
grita sob nossa vida
e de ponta a ponta
a atravessa
estridente

Ferreira Gullar
In Muitas Vozes

Foto de barsheren

OS MORTOS

Os mortos veem o mundo
pelos olhos dos vivos

eventualmente ouvem,
com nossos ouvidos,
certas sinfonias
algum bater de portas,
ventanias

Ausentes
de corpo e alma
misturam o seu corpo ao nosso riso
se de fato
quando vivos
acharam a mesma graça

Ferreira Gullar
In Muitas Vozes

19/02/2009


Foto de TELPortfolio

APRENDIZADO

Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.

Ferreira Gullar
In Barulhos

04/10/2008


Foto de Marcelo Rossi

Nada vos oferto
além destas mortes
de que me alimento.

Caminhos não há
Mas os pés na grama
os inventarão

Aqui se inicia uma viagem clara
para a encantação

Fonte, flor em fogo,
que é que nos espera
por detrás da noite?

Nada vos sovino:
com a minha incerteza
vos ilumino.

Ferreira Gullar
In A luta Corporal e Novos Poemas

26/09/2008


Foto de Eduardo Amorim

É velho o sol deste mundo; velha, a solidão da palavra,
a solidão do objeto; e o chão - o chão onde os pés
caminham. Donde o pássaro voa para a árvore.

Ferreira Gullar
In A Luta Corporal e Outros Poemas

13/09/2008


John William Waterhouse

Cantiga para não morrer

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se não coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Ferreira Gullar

Tarsila do Amaral - Família

Daqui escutei
quando eles
chegaram rindo
e correndo
entraram
na sala
e logo
invadiram também
o escritório
(onde eu trabalhava)
num alvoroço
e rindo e correndo
se foram
com sua alegria

se foram
só então
me perguntei
por que
não lhes dera
maior atenção
se há tantos
e tantos
anos
não os via crianças

já que
agora
estão os três
com mais
de trinta anos.

Ferreira Gullar

Foto de deepintheforestcat

Vagueio campos noturnos
Muros soturnos
paredes de solidão
sufocam minha canção

A canção repousa o braço
no meu ombro escasso:
firmam-se no coração
meu passo e minha canção

Me perco em campos noturnos
Rios noturnos
te afogam, desunião,
entre meus pés e a canção

E na relva diuturna
( que voz diurna
cresce cresce do chão?)
rola meu coração

Ferreira Gullar

Foto de deepintheforestcat

COISAS DA TERRA

Todas as coisas de que falo estão na cidade,
entre o céu e a terra.
São todas elas coisas perecíveis
e eternas com teu riso,
a palavra solidária,
minha mão aberta
ou este esquecido cheiro de cabelo
que volta
e acende sua flama inesperada
no coração de maio.
Foto de deepintheforestcat

Todas as coisas de que falo são de carne
como o verão e o salário
Mortalmente inseridas no tempo,
estão dispersas, como o ar,
no mercado, nas oficinas,
nas ruas, nos hotéis de viagem.

São coisas, todas elas,
cotidianas, como bocas
e mãos, sonhos e greves,
denuncias,
acidentes de trabalho e do amor. Coisas,
de que falam os jornais,
às vezes rudes,
às vezes tão escuras
que mesmo a poesia as ilumina com dificuldade.
Mas é nelas que te vejo pulsando,
mundo novo,
ainda em estado de soluços e esperança.

Ferreira Gullar

Edward Hughes

Calco sob os pés sórdidos o mito
que os céus segura - e sobre um caos me assento
Piso a manhã tombada no cimento
como flor violentada. Anjo maldito,

(pretendi devassar o nascimento
da terrível magia) agora hesito,
e queimo - e tudo é o desmoronamento
do mistério que sofro e necessito.

Hesito, é certo, mas aguardo o assombro
com que verei descer de céus remotos
o raio que me fenderá no ombro.

Vinda a paz, rosa-após dos terremotos,
eu mesmo ajuntarei a estrela ou a pedra
que de mim reste sob os meus escombros.

Ferreira Gullar