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24/01/2011

TRISTEZA



















Minh’alma é como o deserto
De dúbia areia coberto,
Batido pelo tufão;
É como a rocha isolada,
Pelas espumas banhada,
Dos mares na solidão.

Nem uma luz de esperança,
Nem um sopro de bonança
Na fronte sinto passar!
Os invernos me despiram
E as ilusões que fugiram
Nunca mais hão de voltar!

Roem-me atrozes ideias,
A febre me queima as veias;
A vertigem me tortura!...
Oh! por Deus! quero dormir,
Deixem-me os braços abrir
Ao sono da sepultura!

Despem-se as matas frondosas,
Caem as flores mimosas
Da morte na palidez,
Tudo, tudo vai passando...
Mas eu pergunto chorando:
Quando virá minha vez?

Vem, oh virgem descorada,
Com a fronte pálida ornada
De cipreste funerário,
Vem! oh! quero nos meus braços
Cerrar-te em meigos abraços
Sobre o leito mortuário!

Vem, oh morte! a turba imunda
Em sua miséria profunda
Te odeia, te calunia...
- Pobre noiva tão formosa
Que nos espera amorosa
No termo da romaria.

Quero morrer, que este mundo
Com seu sarcasmo profundo
Manchou-me de lodo e fel,
Porque meu seio gastou-se,
Meu talento evaporou-se
Dos martírios ao tropel!

Quero morrer: não é crime
O fardo que me comprime
Dos ombros lançar ao chão,
Do pó desprender-me rindo
E as asas brancas abrindo
Lançar-me pela amplidão!

Oh! quantas loiras crianças
Coroadas de esperanças
Descem da campa à friez!...
Os vivos vão repousando;
Mas eu pergunto chorando:
- Quando virá minha vez?

Minh’alma é triste, pendida,
Como a palmeira batida
Pela fúria do tufão.
É como a praia que alveja,
Como a planta que viceja
Nos muros de uma prisão!

Fagundes Varela
In Noturnas
Foto de  jack4pics  no Flickr

18/01/2011

O SABIÁ (Cançoneta)
























Ó meu sabiá formoso,
Sonoroso,
Já desponta a madrugada,
Desabrocha a linda rosa
Donairosa,
Sobre a campina orvalhada.

Manso o regato murmura
Na verdura
Descrevendo giros mil,
Some-se a estrela brilhante,
Vacilante
No horizonte cor de anil.

Ergue-te, ó meu passarinho,
De teu ninho,
Vem gozar da madrugada,
Modula teu terno canto,
Doce encanto
De minh'alma amargurada.

Vem junto à minha janela,
Sobre a bela
Verdejante laranjeira
Beber o eflúvio das flores
Teus amores
Nas asas de aura fagueira.

Desprende a voz adorada,
Namorada,
Poeta da solidão,
Ah! vem lançar com  encanto
Mais um canto
No livro da criação.

Ó meu sabiá formoso,
Sonoroso,
Já desponta a madrugada;
Deixa teu ninho altaneiro,
Vem ligeiro
Saudar a luz d'alvorada.

Fagundes Varela
In Poesias Completas
foto de  Flávio Cruvinel Brandão

NÃO TE ESQUEÇAS DE MIM
























Não te esqueças de mim, quando erradia
Perde-se a lua no sidéreo manto;
Quando a brisa estival roçar-te a fronte
Não te esqueças de mim que te amo tanto.

Não esqueças de mim quando escutares
Gemer a rola na floresta escura,
E a saudosa viola do tropeiro
Desfazer-se em gemido de tristura.

Quando a flor do sertão, aberta a medo,
Pejar os ermos de suave encanto,
Lembra-te os dias que passei contigo,
Não te esqueças de mim que te amo tanto.

Não te esqueças de mim quando à tardinha
Se cobrirem de névoa as serranias,
E na torre alvejante o sacro bronze
Docemente soar nas freguesias!

Quando de noite, nos serões de inverno,
A voz soltares modulando um canto,
Lembra-te os versos que inspiraste ao bardo,
Não te esqueças de mim que te amo tanto.

Não te esqueças de mim quando meus olhos
Do sudário no gelo se apagarem
Quando as roxas perpétuas do finado
Junto à cruz de meu leito se embalarem.

Quando os anos de dor passado houverem,
E o frio tempo consumir-te o pranto,
Guarda ainda uma ideia a teu poeta,
Não te esqueças de mim que te amo tanto.

Fagundes Varela
In Poesias Completas
tela de John Usher

INFÂNCIA E VELHICE
























O lírio é menos cândido, a neve é menos pura
Que uma criança loira no berço adormecida;
Seus lábios entreabertos parece que respiram
Os lânguidos aromas e as auras de outra vida.

O anjo tutelar que o sono lhe protege
Não vê um ponto negro naquela alma divina;
Nunca sacode as asas para voltar ao céu,
E nem afasta ao vê-la a face peregrina

No seio da criança não há serpes ocultas,
Nem pérfido veneno, nem ferventes lumes;
Tudo é candura, ó Deus! su'alma inda inocente
É como um vaso de oiro repleto de perfumes.

Cedo ela cresce e os vícios os passos lhe acompanham,
Seu anjo tutelar pranteia ou volta ao céu;
O cálice doirado transborda de absíntio,
E a vida corre envolta num lutulento véu.

Depois ela envelhece, as ilusões se esvaem,
A calma vem, e a chama de seu viver se escoa;
A fronte pende em terra coberta de geadas,
E a mão rugosa e trêmula levanta-se e abençoa.

O infante e o ancião são dois sagrados seres;
Um deixa há pouco o céu, o outro ao céu se volta;
Um cerra as asas débeis e a divindade adora,
O outro adora a Deus e as asas níveas solta.

Do loiro querubim na face rósea e bela
Ainda existe o traço do beijo dos anjinhos;
Na fronte alta e severa do ancião, cintila
A chama que do Empíreo aponta-lhe os caminhos.

Nos tempos de desgraça, quando o existir é trevas,
E a dúvida se eleva do fúnebre ataúde
Nos olhos da criança creiamos na inocência,
E nos cabelos brancos saudemos a virtude!

Fagundes Varela
In Poesias Completas
tela de James Hayllar

06/07/2009

AVE! MARIA!
























A noite desce - lentas e tristes
Cobrem as sombras a serrania,
Calam-se as aves, choram os ventos,
Dizem os gênios: - Ave! Maria!

Na torre estreita de pobre templo
Ressoa o sino da freguesia,
Abrem-se as flores, Vesper desponta,
Cantam os anjos: - Ave! Maria!

No tosco alvergue de seus maiores,
Onde só reinam paz e alegria,
Entre os filhinhos o bom colono
Repete as vozes: - Ave! Maria!

E, longe, longe, na velha estrada,
Pára e saudades à pátria envia
Romeiro exausto que o céu contempla,
E fala aos ermos: - Ave! Maria!

Incerto nauta por feios mares,
Onde se estende névoa sombria,
Se encosta ao mastro, descobre a fronte,
Reza baixinho: - Ave! Maria!

Nas soledades, sem pão nem água,
Sem pouso e tenda, sem luz nem guia,
Triste mendigo, que as praças busca,
Curva-se e clama: - Ave! Maria!

Só nas alcovas, nas salas dúbias,
Nas longas mesas de longa orgia
Não diz o ímpio, não diz o avaro,
Não diz o ingrato: - Ave! Maria!

Ave! Maria! - No céu, na terra!
Luz da aliança! Doce harmonia!
Hora divina! Sublime estância!
Bendita sejas! - Ave! Maria!

Fagundes Varela
tela de Domenikos Theotokopoulos El Greco

11/01/2009


Foto de carf

AO BRASIL

Bela estrela de luz, diamante fúlgido
Da coroa de Deus, pérola fina
Dos mares do ocidente,
Oh! como altiva sobre nuvens de ouro
A fronte elevas afogando em chamas
O velho continente!

A Itália meiga que ressona lânguida
Nos coxins de veludo indolente;
A França altiva que sacode as vestes
Entre o brilho das armas e as legendas
De um passado fulgente;

A Rússia fria - Mastodonte eterno!
Cuja cabeça sobre os gelos dorme,
E os pés ardem nas fráguas;
A Bretanha insolente que expelida
De seus planos estéreis se arremessa
Mordendo-se nas águas:

E espanha túrbida; a Germânia em brumas;
A Grécia desolada; a Holanda exposta
Das ondas ao furor...
Uma inveja teu céu, outra teu gênio,
Esta riqueza, a robustez aquela,
E todas o valor!

Oh! terra de meu berço, oh! pátria amada,
Ergue a fronte gentil ungida em glórias
De uma grande nação!
Quando sofre o Brasil, os brasileiros
Lavam as manchas, ou debaixo morrem
do santo pavilhão!...

Fagundes Varela
In Poesias Consagradas Vol 1