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15/08/2010

ESQUIVA
























Fugida da lembrança,
corres
nas ruas do jardim,
estouvada criança...

Azula-te o cabelo
acetinado laço,
em que o sol,
a cada passo,
acorda
reflexos iriados...

Perseguida da sombra,
desmaias
na alfombra
de imaginários prados...

Até que o dia
fenece
e arrefece,
arrefecendo os sonhos desvairados...

Saúl Dias
In De Ainda a Vislumbre
tela by Joseph Clark

01/06/2010


A Goodnight Hug by Mary Cassatt

ENQUANTO O FILHO DORME

De noite acordo e quero ver-te.Dormes
tão quentinho no leito aconchegado
Lá fora, o inverno, túmido, pesado
de ventaneiras,temporais enormes.

O relógio dá horas, meias horas,
e eu não me canso de fitar teu rosto,
sereno, róseo...Nem pelo agosto
há tanta claridade nas auroras!

Neva lá fora.Como é quente aqui!
Aqueço as minhas mãos à tua beira,
tal como ao lume bom duma lareira.

E arde o lume que provém de ti!
Que viva a chama! Que calor tão bom!
Que bem aquenta um pobre coração!

Saúl Dias
In Sangue

by Claude Oscar Monet

TARDES INVENTADAS

As tardes inventei-as.

Fulgurantes umas,
sonolentas outras,
quentes ou arrepiantes
e todas
geradoras de instantes
impossíveis...

Atiro um braço ao ar
e quero que ele prendauma estrela,
um cometa,o floco de renda
de mil cassiopeias...

É dia e há luar...

As tardes inventei-as.

Saúl Dias
In Vislumbre

02/05/2010


foto by www.flickr.com/.../galleries/72157622379572132/

NUNCA MAIS...

Passa um dia,
e outro a correr atrás dele
e outro e outro...
O tempo a todos impele,
tal o vento
levando, em doida correria,
revoadas de folhas outonais,
folhas de calendários sempre iguais,
uma a uma arrancadas,
perdidas nas estradas...

Nunca mais... Nunca mais...

Saúl Dias
In Essência

26/03/2010


by Pierre Auguste Renoir

O SILÊNCIO

Peço apenas o teu silêncio,
como uma criança pede uma flor
ou um velho pedinte um bocado de pão.
Um silêncio
onde a tua alma se embrulha, friorenta,
trémula, à aproximação das invernias.
Um silêncio com ressônancias de antigas primaveras
de outonos descoloridos
e de chuva a cair no negrume da noite.

- Vá, motorista de taxi,
transporte-me
através das ruas da cidade inextricável,
vertiginosamente,
buzinando, buzinando,
abafando o ruído de um outro silêncio!

Saul Dias
In Essência

18/12/2009


foto by outro_olhar79 (fatima.c.silva)

O MALMEQUER

Na antemanhã
os pássaros despertam;
ensonados, ensaiam
tímidos gorjeios...
Uma tênue claridade
palpita no horizonte.
Sinto o crescer das folhas.

- Onde estás
a esta hora?

- Desperta como eu?

Imagino
que, neste instante, olhas
o infinito céu...
E, distraída,
desfolhas
(pensando em mim, talvez)
um malmequer cerrado
de mil folhas...

Saúl Dias
In De Ainda a Vislumbre

07/12/2009


by Helena Coelho/Lunaroza Galeria

O POEMA

A tarde cai,
silenciosa,
morosa.

Na alma do poeta,
o poema,
estranha rosa,rubra e preta,
abre...

Afinal,
escrever um poema
é fixar uma pena,
sentindo estoirar
o calabre
do coração,
nostálgico do éden...

- Vá, poeta,
deixa o coração sangrar!

Para que negar
a esmola que te pedem?

Saúl Dias
In De ainda a vislumbre