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16/03/2011

CIX


















Oh! nunca digas que eu  te fui infiel, embora
Aches que descorou a ausência o meu afeto.
Abandonar eu teu espírito, onde mora
O meu, fora deixar o lar sempre dileto
Do meu amor, ou mesmo a mim repudiar-me.
Como quem viaja e volta, eis-me aqui novamente,
Aqui, onde devera a este tempo encontrar-me.
Venho lavar com pranto a mágoa que, inconsciente,
Na tua alma infundi. Não creias, posto exista
Em mim toda fraqueza a que é o sangue atreito,
Que eu tenha perpetrado a absurdeza imprevista
De olvidar que tu és meu bem sumo e perfeito,
De olvidar que só a ti devo amor o mais fundo,
Porque tu, minha flor, me és tudo neste mundo.

William Shakespeare
In Sonetos
foto de lifes26

17/01/2011

SONETO

















Em mim tu podes ver a quadra fria
Em que folhas, já poucas ou nenhumas,
Pendem do ramo trêmulo onde havia
Outrora ninhois e gorjeio e plumas.
Em mim contemplas essa luz que apaga
Quando no poente o dia se faz mudo
E pouco a  pouco a negra noite o traga,
Gêmea da morte, que cancela tudo.
Em mim tu sentes resplender o fogo
Que ardia sob as cinzas do passado
E num leito de morte expira logo
Do quanto que o nutriu ora esgotado.
Sabê-lo faz o teu amor mais forte
Por quem em breve há de levar a morte. 

William Shakespeare
Tradução de Ivo Barroso
tela de Sir Edward Burne-Jones

SONETO
























Dois amores - de paz e desespero -
Eu tenho que me inspiram noite e dia:
Meu anjo bom é um homem puro e vero;
O mau, uma mulher de tez sombria.
Para levar a tentação a cabo,
O feminino atrai meu anjo e vive
A querer transformá-lo num diabo,
Tentando-lhe a pureza com a lascívia.
Se há de meu anjo corromper-se em demo
Suspeito apenas, sem dizer que seja;
Mas sendo ambos tão meus, e amigos, temo
Que o anjo no fogo já do outro esteja.
Nunca sabê-lo, embora desconfie
Até que o meu anjo contagie.

William Shakespeare
Tradução de Ivo Barroso
tela de Herbert James Draper

SONETO


















Que eu não veja empecilhos na sincera
União de duas almas.Não amor
É o que encontrando alterações se altera
Ou diminui se o atinge o desamor.
Oh, não! amor é ponto assaz constante
Que ileso os bravos temporais defronta.
É a estrela guia do baixel errante,
De brilho certo, mas valor sem conta.
O Amor não é jogral do Tempo, embora
Em seu declínio os lábios nos entorte.
O Amor não muda com o dia e a hora,
Mas persevera ao limiar da Morte.
E, se se prova que num erro estou,
Nunca fiz versos nem jamais se amou.

William Shakespeare
Tradução de Ivo Barroso
tela Sir Lawrence Alma-Tadema

SONETO
























Quando observo que tudo quanto cresce
Desfruta a perfeição de um só momento,
Que neste palco imenso se obedece
A secreta influição do firmamento;
Quando percebo que ao homem, como à planta,
Esmaga o mesmo céu que lhe deu glória,
Que se ergue em seiva e, no ápice, aquebranta
E um dia enfim se apaga da memória:
Esse conceito da inconstante sina
Mais jovem faz-te ao meu olhar agora,
Quando o Tempo se alia com a Ruína
Para tornar em noite a tua aurora.
E crua guerra contra o Tempo enfrento,
Pois tudo que te toma eu te acrescento.

William Shakespeare
Tradução de Ivo Barroso
tela de Sir Lawrence Alma-Tadema

20/02/2010

O DOSSEL DE TITÂNIA




















Conheço um lugar onde floresce o tomilho silvestre,
onde primaveras e violetas pendentes crescem,
coberto por um dossel de madressilvas exuberantes,
com doces rosas almiscaradas e roseiras-bravas;
lá dorme Titânia uma parte da noite,
embalada, nessas flores, com danças e festas;
e lá a serpente troca sua pele esmaltada,
qual larga folha que possa envolver uma fada;
e com o suco disto vou esfregar-lhes os olhos
e deixá-la repleta de odiosas fantasias.
Pega um pouco dele e procura neste bosque:
uma doce dama ateniense está apaixonada
por um desdenhoso jovem; unge os olhos dele;
mas faz isso de modo que a dama seja
a próxima coisa que ele veja.Reconhecerás o homem
pelos trajes atenienses que veste.
Faze-o com algum cuidado, para que ele se mostre
mais apaixonado por ela do que ela por seu amor.
E procura encontrar-me quando o primeiro galo cantar.

William Shakespeare
In Sonho de Uma Noite de Verão
tela: Titania Sleeps; A Midsummer Night's Dream
by Frank Cadogan Cowper



02/11/2008

SONETO XCIX



















À ousada violeta,eu disse:"Onde roubaste,
Suave ladra, essa cor que a face te purpura,
Senão do meu amor nas veias? Onde achaste,
Senão no hálito dele, essa fragrância pura?"
A manjerona e o lírio acusei de roubado
Terem-te,um,o cabelo, e o outro, a mão venusta.
Das belas rosas que entre espinhos após o fado,
Uma cora de pejo, alveja outra, que assusta.
Branco-vermelha, eis, inda, outra rosa que tinha
De ti o hálito e a cor, e andava isso alardeando.
Veio um pulgão, porém, e o orgulho de rainha
Vingativo lhe esfez, a vida lhe tirando.
Mais flores observei, mas todas, em verdade,
Roubaram a tua graça e a tua suavidade.

William Shakespeare
In Sonetos
Tradução de Jerônimo de Aquino
Foto de »» F i l y