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18/03/2012

LEVA-ME ÀQUELA FONTE CRISTALINA



Leva-me àquela fonte cristalina
onde juntos bebemos
as puríssimas águas que apagavam
sede de amor e chama de desejos.
Leva-me pela mão, como fazias...
Mas não, que tenho medo
de ver no cristal líquido
a sombra daquel'negro
dosengano sem cura nem consolo
que entre os dois, pôs o tempo.

Rosália de Castro
In Poesia
tela Knight, "A Pensive Moment"  

"MAS AO QUE QUIS BEM UM DIA..."



"Mas ao que quis bem um dia,
se ao querer tem afeição,
a mágoa sempre lhe fica
dentro do seu coração."

I

Além, nas tardes serenas,
além, nas tardes caladas,
mais duras fazem-se as penas
que nas brandas alvoradas.

Além, nas tardes sombrias,
além, nas tardes escuras,
ficam mais breves os risos,
mais negras as deventuras.

Que não há tarde transquila
para quem remorsos guarda,
e mais cedo se aniquila
quanto mais a noite aguarda.

 II

Eu bem sei destes segredos
que se escondem nas entranhas,
que se  movem sempre inquietos
sob mil formas estranhas.

Eu bem sei destes tormentos
que consomem e devoram,
que fazem gemer os ventos
e que mordem quanto choram.

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Se agora sorrindo canto,
se agora canto com brio,
tanto chorei, chorei tanto
como a corrente de um rio.

Tive em já passados dias
fundas penas e pesares,
chorei lágrimas tão frias
como as águas destes mares.

Tive tão fundos amores
e tão fundas amarguras,
que era uma fonte de dores
nascida entre penhas duras.

III

Agora rio, e contente
vou pelas eiras cantando,
vendo de onde vem o vento
quando o gado vou levando.

Agora, em grande sossego
durmo na beira das fontes,
durmo na beira dos regos,
durmo no cimo dos montes.

"Mas ao que quis bem um dia,
se ao querer tem afeição,
a mágoa sempre lhe fica
dentro do seu coração." 

Rosália de Castro
In Poesia
tela Bouguereau, "At The Well"

23/12/2011

"AQUELE RUMOR DE CANTIGAS E RISOS..."



Aquele rumor de cantigas e risos,
ir,vir,conversar;
aquele falar de coisas que passaram
e outras que passarão;
aquela, enfim, vitalidade inquieta
juvenil, tanto mal
me fez, que lhes disse:
"Vão e não voltem mais".

Um a um desfilaram silenciosos
por aqui e por lá,
como as contas rompidas de um rosário
se espalham pelo chão:
e o rumor dos seus passos que partiam
até mim como tal som veio ressoar,
que não mais tristemente
talvez ressoará
no fundo dos sepulcros
o último adeus que um vivo aos mortos dá.

E ao fim me encontrei só, mas tão sozinha ,
que ouço da mosca o inquieto revoar,
do ratinho o roer terco constante,
e do fogo o  "tchis-tchas",
quando da verde rama
o fresco sumo devorando vai,
parece que me falam, que os entendo,
e são meus companheiros;
e este meu coração lhes diz tremendo:
"Não vão embora não!"

Que doce, mas que triste,
também é a solidão!

Rosália de Castro
In Poesia
tradução Ecléa Bosi

20/12/2011

" DEIXA QUE NESSE CÁLICE AONDE BEBES..."


Deixa que nesse cálice aonde bebes
as doçuras da vida
caia gota de fel, uma somente,
que meu dorido coração destila.

Compreenderás então
que a dor pode abrandar as pedras frias,
mas que abrandar não pode
almas de ferro e peitos homicidas.

Rosália de Castro
In Poesia
Tradução Ecléa Bosi
foto por Rivertay

15/11/2011

'POR QUE, ALMA MINHA...'

 
 
Por que, alma minha,
agora não queres
o que antes querias?

Por que, pensamento,
agora não vives
de amantes desejos?

Por que, meu espírito,
agora te humilhas
quando eras altivo?

Por que, coração,
agora não falas
falasres de amor?

Por que já não bates
com doce batida
que acalma os pesares?

Por que, enfim, Deus meu,
a um tempo me faltam
a terra e o céu?

Ó tu, rubra estrela,
que dizem comigo
nasceste, puderas

para sempre apagar-te
já que não pudeste
sempre iluminar-me!

Rosália de Castro
In Poesias 
foto por  maya238

"ABRI AS FRESCAS ROSAS..."



 
Abri as frescas rosas,
fazei brilhar os cravos
do seu jardim, ó árvores, vesti-vos
de lindas flores verdes,
videira que nos destes sombra outrora,
a cobrir-vos de pâmpanos, voltai.
Natureza formosa,
eternamente a mesma,
dizei aos loucos, aos mortais dizei
que eles não perecerão.

Rosália de Castro
In Poesia
foto por Dr. Ilia