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14/09/2009


Foto de tangledwing

ALMA LIVRE

Sou cigano e não sei se a minha caravana
Ainda uma vez terá o sol de tua aldeia,
Disco de ouro e rubi, esse sol incendeia
Teu sangue de mulher amorosa e tirana.

Para o filho da Boêmia é a sorte soberana;
Tem, no Acaso, seu deus; no Amor, que inspira e enleia,
O universo resume, e à noite, à lua cheia,
À angústia do violino a sua angústia irmana.

Traz no fogo do olhar a imagem das distâncias,
O eco das solidões em seu peito soluça
Como soluça o mar, na concha, as próprias ânsias.

Sabe que a vida é breve e vã a angústia humana
Tem um código seu. Nele estóico, se embuça.
Se a alegria findou, que siga a caravana.

Humberto Lyrio
In Almas no Espelho

13/09/2009


Foto de Jean-Damien ...

MEDITAÇÃO
(Ao Newton Xavier)

Estuda, que verás na Natureza
Estranhos panoramas peregrinos
A cuja epoteótica beleza
Jamais fez jus teus sonhos divinos.

Assistirás,tomado de surpresa
- Se teus olhos fizeres cristalinos -
Deuses em festa, na alma sem vileza
Dos infinitamente pequeninos.

Descobrirás nos átomos contida
A vibração heróica de uma vida
Que procura atingir a Imensidade,

E esquecerás depois, como ora esqueço,
O coração que andou a baixo preço
Pelas quermesses da Felicidade.

Humberto Lyrio
In Almas no Espelho

Foto de Robson Carlo...

FIM DE TARDE

Em meio a teu labor risonho ou grave,
Quer na opulenta sala ou na oficina,
Ergue tua alma, leve como uma ave,
Quando ao dia o crepúsculo domina.

Que teu cenho, afinal se desagrave,
E, do Infinito a cérula cortina,
Possa abrir-se a teus olhos para a suave
Penetração da luz da ara divina.

Sofreu, não só o que lutou no mundo.
Quem o humano porvir sonhou fecundo,
Viu, quase em cada poro, atra ferida.

Ergue, pois, ao crepúsculo, uma prece.
A Deus louvando, lembra o que padece
Pelos atalhos lúgubres da vida.

Humberto Lyrio
In Almas no Espelho