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30/03/2013

O PARTO

 

Meu corpo está completo, o homem - não o poeta.
Mas eu quero e é necessário
que me sofra e me solidifique em poeta,
que destrua desde já o supérfluo e o ilusório
e me alucine na essência de mim e das coisas,
para depois, feliz e sofrido, mas verdadeiro,
trazer-me à tona do poema
com um grito de alarma e de alarde:
ser poeta é duro e dura
e consome toda
uma existência.
 
Nauro Machado
In Jornal da Poesia
tela Dipak Kundu

17/08/2012

PRECE À BOCA DA MINHA ALMA




Não te transformes em bicho,
ó forma incorpórea minha,
só porque animal capricho
perdeu o humano que eu tinha.

Guarda, do animal, o alheio
esquecimento. E somente.
Mas lembra aquele outro seio
que te nutriu a boca e a mente.

E recorda, sobretudo,
que não babas ou engatinhas,
a não ser quando te escuto
pelos becos, dentre as vinhas.

Vive como um homem morre:
em solidão e na esperança.
guardando a fé que socorre
em mim, semivelho, a criança.

Mas não te tornes em bicho,
nem percas o ser humano,
só porque a tara (ou o capricho)
deu-me este existir insano.


Nauro Machado
tela Dorina

RELACIONAMENTO





O eterno não cabe
Naquilo que o come,
Se de mim não sabe
O vizinho homem.

Entanto me bebem
Os olhos alheios,
Até que se cevem
Os cegos anseios.

Até que anoiteça
A mente pensada,
E por fim me cresça
O início do nada.

Nauro Machado
tela Catherine Alexandre

01/08/2012

PASSAGEM



Nada oferece o pôr-do-sol
senão e exceto o próprio sol
à terra passando outra noite
a milenar lua semelhante.

Paz, misericórdia das coisas,
bênção da água na maré oclusa,
represa única e desmedida
ao abismo insondável do fim.

E se ainda contemplar puderes,
em teu próprio nome vagueia
à sombra de Outro reduzido.
Para tal morte, a mesma vida.

Nauro Machado
In Opus da Agonia
tela Jean Marc Janiaczyk

THE BROWNING VERSION



Tudo é uma questão de tempo:
podemos arrancar fora
até a nossa própria máscara.

Da fala o punhal não empenho
senão à dupla mão vencida
pela palavra imortal.

O sonho da gambiarra
no sexo das cotovias
de estrelas se apodreceu.

As rugas estão salgadas
pela  morte milenar.
Luas cavaram seus mares.

Tudo é uma questão de tempo:
nascido de um outro rosto
encontro por fim o meu.

Nauro Machado
In Opus da Agonia 
tela Andrius Kovelinas

SIMILITUDE



São Francisco, dai-me as penas
do asco e do cordeiro as plumas,
mas, de todos eles, dai-me
a inocência dos pássaros,

e daquele que num dia,
na árvore do paraíso,
foi enterrado como a ideia
levada em mim para nada.

Nauro Andrade
In Opus da Agonia
tela Berta Hummel

O ESTRANHO


 
Quanta alegria nos que comem apenas com os olhos,
quanta alegria nos que comem somente com a boca.
Sabe de outro sabor a realidade do meu sonho!
Sabe  de outro sabor o sexo nos meus olhos!
São para os outros todos os pássaros do universo,
são para os outros todos os sóis sem anoitecer.
Só para mim também o bilhete do pensamento
sem possibilidade nenhuma do número certo.
O pensamento em mim à noite é feito água, mênstruo, trem e
                                                                                       terra.

Nauro Machado
In Opus da Agonia
tela Marco Ortolan

14/01/2010

IF




Há um se na vida de cada um,
um se de depois do fórceps
(no tempo em que a dor cumpria a Bíblia)

e um se de depois da cesariana
(no tempo em que apodrece o fruto
no gozo da emurchecida árvore).

Ah!, se o se negasse o se, e tudo
fosse um único sim, certeza
de aceitarmos o ser e o fato

e o espelho reflita a imagem caída
das mãos de imponderável Deus.

Nauro Machado
In Antologia Poética
tela Landscape With Yellow Birds by Paul Klee