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28/03/2009


Foto de Wagner Machado Carlos Lemes

A ALMA DA CHUVA
A Menotti Del Picchia

Chuva que murmura! Chuva benfazeja
que remoça a terra, que fecunda o chão
e rebenta em brotos para nos dar pão.

Chuva que alimenta o rio generoso
que dá força à roda, movimenta a usina,
- gesto de gigante e riso de menina.

Chuva que ensina sentimentos doces
à flor sem perfume que não tem valia.
Mestra de ternura sem melancolia.

Soror lacrimosa! Chuva que cicia
como se rezasse sobre os cemitérios.
Chuva adolescente cheia de mistérios,

a contar segredos de mocinha nova
sobre namorados, sempre repetidos,
que nem são segredos, de tão conhecidos!

Chuva espumejante em explosões de ciúmes,
chuva apaixonada que castigae mata
com milhões de lanças líquidas de prata.

-Tens por certo uma alma,linda e boa, humilde
e heróica, paciente, santa e pecadora,
caprichosa e terna, nobre e sedutora,

- a alma feminina de Eva ou Madalena,
chuva mãe da seiva, amante casta e pura
fonte de bondade, deusa da fartura!

Oliveira Ribeiro Neto
In Cantos de Glória

Foto de luciano_jus

POESIA

Triste lago envenenado
pela dor e pelo tédio,
pelo limo concentrado
no fundo da água sombria.
Irmão da melancolia
dos que sofrem sem remédio.

Ninguém que o visse parado,
envolto num denso véu,
o julgaria talhado
a usar um manto de cores.
(Os versos, a luz e as flores
são dons que chegam do céu.)

E na água quieta do açude
um aguapé
floresceu.
Por mais pobre, por mais rude
seja esta ideia vazia,
o aguapé é a poesia
e aquele açude sou eu.

Oliveira Ribeiro Neto
In Cantos de Glória

Reverie, 1868 by Dante Gabriel Rossetti

A GRANDE ESPERANÇA

Eu tenho o meu amor dentro de mim
como um raio de sol dentro da nuvem
que corre pelo céu.
Num momento sutil a nuvem passa.
E o mundo enxerga a luz, limpa e serena
sem sombras e sem véu.

Quando a Morte chegar e me disser:
"- Eu te doei o manto protetor
que faz minha magia.
Tu já és invisível e impalpável!"
- o meu amor, liberto, irá buscar-te,
e serás minha, um dia.

Oliveira Ribeiro Neto
In Cantos de Glória