Mostrando postagens com marcador Sosígenes Costa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sosígenes Costa. Mostrar todas as postagens

17/08/2011

VÊNUS NA ESPUMA


O mar me encanta porque tem sereias,
lindas mulheres aromais e esgalgas
de puras formas de lascívia cheias,
curvas de pombas,seduções fidalgas.

E rijos colos de azuladas velas
e verdes cabeleiras cor de algas
que tu, ó mar, esplêndido, bronzeais
e com teus beijos azulinos salgas.

Assim me encanta o mar. Porque a beleza
surgiu do mar de dentro das redondas
 conchas de nácar, pérola e turquesa.

Adoro o mar porque contém Golcondas
e a doce ninfa nele vive presa
e as graças moram sobre as verdes ondas.

Sosígenes Costa
In Poesia Completa
tela  Botticelli / The Birth of Venus

A BARCAROLA DA NOITE



A noite vem numa falua
e a brisa vem do mar nos botes.
O mar cintila e espera a lua
e tem a cor de um miosótis.
A luz do acaso é tão bizarra
que lembra a chama dos archotes.
A noite vem entrando a barra
tão negra como os hotentores.

A noite vem entrando a barra
trazendo o aroma lá das ilhas.
Sonoro como uma cigarra,
improvisando redondilhas.
A cor do acaso é tão bizarra
que lembra o pó das cochonilhas.

A noite vem numa falua
e a brisa vem do mar nos barcos.
Surgem redondas como a lua
rosas de fogo pelos arcos.
Um véu de opala além flutua
e andam santelmos pelos charcos.

A noite vem entrando a barra
mais aromal do que as baunilhas
e as açucenas de Navarra
e as orquidéias das Antilhas.

A noite vem numa falua
entrando a barra, entre as galeras.
As sombras trazem para a rua
rosas de estranhas primaveras.
Eis que ansiosas pela lua
as ondas gritam como feras.
O mar no entanto cintilando
 parece a flor de um miosótis 
e o olhar de opala das quimeras. 

Os ventos passam fustigando
como demônios com chicotes.
Surge uma estrela recordando
o anel lilás dos sacerdotes.
Os ventos passam fustigando
as próprias árvores austeras
e vão aos uivos como um bando
de velocíssimas panteras.

A noite vem entrando a barra
mais aromal do que as baunilhas.
Com  suavidades de guitarra,
o mar oscula as verdes ilhas.
O vento traz a cimitarra,
com que cortou jasmins nas ilhas,
e corta as ondas lá de barra.
Como serpentes em rodilhas,
e as ondas silvam junto às ilhas
e vão florindo pela barra
ramos de brancas granadilhas.
E o mar parece uma cigarra,
Todo rendado de escumilhas.

A noite ven entrando a barra
para dormir aqui no porto.
Parou dos ventos a fanfarra.
Os ventos do bojo das galaras.

Trazem das ilhas galeras
flores brilhantes como archotes.
Trazem das ilhas as galeras
e os lindos ramos das gerberas
e os orientais estefanotes.
Trazem das ilhas as galeras
cerusa em cândidos pacotes,
vinhos em urnas e em crateras
e esses estranhos rapazotes
com o ar de deuses de outras eras.

A noite vem numa falua
E a brisa vem do mar nos botes.
O mar cintila e espera a lua
e tem a cor de um miosótis.
A luz do acaso é tão bizarra
que lembra a chama dos archotes.
A noite vem entrando a barra
tão negra como os hotentotes.

Sosígenes Costa
In Poesias Completas

27/03/2011

CHUVA DE OURO























As begônias estão chovendo ouro,
suspendidas dos galhos da oiticica.
O chão, de pólen, vai fincando louro
e o bosque inteiro redourado fica.

Dir-se-á que se dilui todo um tesouro.
Nunca a floresta amanheceu tão rica.
As begônias estão chovendo ouro,
penduradas dos galhos da oiticica.

Bando de abelhas através do pólen
zinindo num brilhante fervedouro,
as curvas asas transparentes bolem.

E, enquanto giram num bailado belo,
as begônias estão chovendo ouro.
Formosa apoteose do amarelo!

Sosígenes Costa
In Nothingandall
foto de Anne Conrad

17/07/2010

CREPÚSCULO






















Resplandece o crepúsculo de jade,
de turquesa, de opala e cornalinas.
Pelos céus há pavões.Toda a cidade
é lilás com repuxos de anilinas.

As aves cor de gesso, à claridade
do acaso, ficam quase solferinas.
A cor douradas agora tudo invade,
tornando as passifloras ambarinas.

A natureza cintilante e amena
sardanapalescamente se decora,
brilhando mais que as asas da falena.

Todo o horizonte de lilás se enflora.
Traja galas de príncipe a açucena.
Não parece o poente mas a aurora.

Sosígenes Costa
In Poesia Completa
 Foto Galeria de Ilikethenight no Flickr

TEMA DA JUVENTUDE





















A tristeza me amou por piedade
e a saudade me deu por compaixão
sete flores de mirra e o anel de jade,
ao ver que se partiu meu coração.

A tristeza me amou por piedade
e a saudade me ungiu de benjoim
e a esperança me deu mangericão.
A compaixão me deu na testa um beijo
ao ver que se partiu meu coração.

Tiveram pena essas moças da Judéia
ao ver que no meu peito se partiu
esta urna de cristal : meu coração.

Oh! Estava entre as moças da Judéia
a saudade, essa flor de Portugal.
E ao ver que se quebrou este cristal
espalhando suspiros pelo chão,
a saudade, essa flor de Portugal,
parenta da tristeza de Aragão,
colocou no meu dedo o anel de jade
com pena do meu pobre coração.

Sosígenes Costa
In Poesia Completa
Galeria de Franks Folly no Flickr

13/01/2010
















by www.wysinfo.com.Perfume/picts/o rosemary

ALECRIM DA BEIRA DÁGUA NÃO
SE CORTA COM MACHADO

Nem com machado ou com punhal se corta
o amor imenso que eu consagro a ti,
alecrim de quintal que enfeita a porta
e que cheio de flores eu já vi.

Minha esperança já se encontra morta
e, contudo, este amor que eu tenho a ti
nem com machado ou punhal se corta,
alecrim que entre cravos eu já vi.

Alecrim do jardim que enfeita a porta,
eu na boca dos anjos já te vi.
Nem com machado ou com punhal se corta

o amor imenso que eu consagro a ti.
Alecrim que eu desejo, pouco importa
que esteja morta aquela juriti.

Sosígenes Costa
In Poesia Completa

by Victoria Wells

DUAS FESTAS NO MAR

Uma sereia encontrou
um livro de Freud no mar.
Ficou sabendo de coisas
que o rei do mar nem sonhava.

Quando a sereia leu Freud
sobre uma estrela do mar,
tirou o pano de prata
que usava para esconder
a sua cauda de peixe.
E o mar então deu uma festa.

E no outro dia a sereia
achou um livro de Marx
dentro de um búzio do mar.

Quando a sereia leu Marx
ficou sabendo de coisas
que o rei do mar nem sonhava
nem a rainha do mar.

Tirou então a coroa
que usava para dizer
que não era igual aos peixinhos.
Quebrou na pedra a coroa.

E houve outra festa no mar.

Sosígenes Costa
In Poesia Completa

09/08/2009


Foto de titancatwoma

O RAIO DO SOL SUSPENDE A LUA

A estrela d'alva
suspende a lua
na hora em que a lua
nasce no mar.

Suspensa nos raios
da estrela d'alva,
a lua sobe
molhada de orvalho,
derramando orvalho
nos olhos do mar.

A lua sobe
puxada a correntes
de dentro das ondas
para o infinito.

E eis que o sol,
saindo do mar,
toma nos braços
a corpo da lua;
das mãos da estrela
arrebata a lua
e o raio do sol
suspende a lua.
E a estrela d'alva
desaparece,
pérola diluída
em vinho do Egito.
A estrela d'alva
desaparece
no louro copo
do vinho do dia.

E o raio do sol
suspende a lua
até a lua
chegar ao zênite,
de onde a lua
começa a descer
como um balão
de fogo apagado,
e vai caindo
tão devagar!
ai tão devagar!
até cair
no mar do ocidente.

Sosígenes Costa
In Poesia Completa

21/07/2009


Foto by Fernando Campanella/mirra

CREPÚSCULO DE MIRRA

A tarde fecha a cintilante umbela.
Vem os aromas como uma grinalda
ornar a sombra arroxeada e bela
e ungir os nossos sonhos de esmeralda.

Nuvens de mirra e oriental canela
formam na sombra a singular grinalda.
E a tarde fecha a cintilante umbela
e o vento as asas de dragão desfralda.

A própria lua vem lançando aroma.
Nasce vermelha como a flor de um cardo
e sobre a mirra dos vergéis assoma.

E a noite chega no seu grifo pardo,
cheirando a incenso como o rei de Roma
e como Herodes recedendo a nardo.

Sosígenes Costa
Poesia Completa

Foto de matthewvenn

SAI DO MAR AO POENTE

Sai do mar ao poente uma quimera
e o sonho voa dos jardins do mar.
E o céu, em seu fulgor, tanto se esmera
que parece o jardim de Putifar.

Lá dos montes de nardo a primavera
vem a cavalo que ensinou a voar
e põe o amor e o sonho na galera
em que a magia está singrando o mar.

Mas a noite montada na pantera,
ao ver no céu o lótus tão taful,
das belezas do acaso se apodera,

mata a quimera e a lança no paul
e o monstro, em que ela monta, dilacera
e o véu de Flora e seu ginete azul.

Sosígenes Costa
In Poesia Completa