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16/11/2012

NUM CAMPO DE MARGARIDAS




Sonhei que estavas dormindo
num campo de margaridas
sonhando que me chamavas,
que me chamavas baixinho
para me deitar contigo
num campo de margaridas.
No sonho ouvia o meu nome
nascendo como uma estrela,
como um pássaro cantando.

Mas eu não fui, meu amor,
que pena!, mas não podia,
porque eu estava dormindo
num campo de margaridas
sonhando que te chamava
que te chamava baixinho
e que em meu sonho chegavas,
que te deitavas comigo
e me abraçavas macia
num campo de margaridas.

Thiago de Mello
tela Arkady Ostritsky

13/06/2012

DA ETERNIDADE



Da eternidade venho. Dela faço
parte, desde o começo da vida
dos que me fizeram ser
até chegar ao que sou.
Transporto com a minha vida
a eternidade no tempo.
Menino deslumbrado com as águas,
os ventos, as palmeiras, as estrelas,
prolonguei sem saber a eternidade
que neste instante navega
no meu sangue fatigado.

Santiago,93

Thiago de Mello
In Melhores Poemas
tela Valery Cote

19/02/2012

MADRUGADA CAMPONESA



MADRUGADA camponesa,
faz escuro ainda no chão,
mas é preciso plantar.
A noite já foi mais noite,
a manhã já vai chegar.

Não vale mais a canção
feita de medo e arremedo
para enganar solidão.
Agora vale a verdade
cantada simples e sempre,
agora vale a alegria
que se constrói dia-à-dia
feita de canto e de pão.

Breve há de ser (sinto no ar)
tempo de trigo maduro.
Vai ser tempo de ceifar.
Já se levantam prodígios,
chuva azul no milharal,
estala em flor o feijão,
um leite novo minando
No meu longe seringal.

Já é quase tempo de amor.
Colho um sol que arde no chão,
lavro a luz dentro da cana,
minha alma no seu pendão

Madrugada camponesa.
Faz escuro (já nem tanto),
vale a pena trabalhar.
Faz escuro mas eu canto
porque a manhã vai chegar.

Thiago de Melo
In Faz Escuro mas Eu Canto

08/02/2012

PARA REPARTIR COM TODOS



Com este canto te chamo,
porque depende de ti.
Quero encontrar um diamante,
sei que ele existe e onde está.
Não me acanho de pedir
ajuda: sei que sozinho
nunca vou poder achar.
Mas desde logo advirto:
para repartir com todos.

Traz a ternura que escondes
machucada no teu peito.

Eu levo um resto de infância
que meu coração guardou.
Vamos precisar de fachos
para as veredas da noite
que oculta e, às vezes, defende
o diamante

Vamos juntos.
Traz toda a luz que tiveres,
não te esqueças do arco-íris
que escondeste no porão.
Eu ponho a minha poronga,
de uso na selva, é uma luz
que se aconchega na sombra.

Não vale desanimar
nem preferir os atalhos
sedutores que nos perdem,
para chegar mais depressa.

Vamos achar o diamante
para repartir com todos.
Mesmo com quem não quis vir
ajudar, falta de sonho.
Com quem preferiu ficar
sozinho bordando de ouro
o seu umbigo engelhado.
Mesmo com quem se fez cego
ou se encolheu na vergonha
de aparecer procurando.
Com quem foi indiferente
e zombou das nossas mãos
infatigados na busca.
Mas também com quem tem medo
do diamante e seu poder,
e até com quem desconfia
que ele exista mesmo.

E existe:
o diamante se constrói
quando o procuramos juntos
no meio da nossa vida
e cresce, límpido,cresce,
na intenção de repartir
o que chamamos de amor.

Thiago de Mello
In Mormaço na floresta

15/01/2011

BOTÃO DE ROSA



Nos recôncavos da vida
jaz a morte.
Germinando
no silêncio
Floresce
como um girassol no escuro.
De repente vai se abrir.
No meio da vida, a morte
jaz profundamente viva.

Thiago de Mello
In Faz escuro mas eu Canto

05/12/2010

AMOR? CUIDADO!



Não cuides, não, que o amor te faz melhor:
no teu jeito de ser, de ver a vida
e sobretudo no de conviver
com quem te faz nascer, ai, como é fácil,
a grande aurora desse sortilégio.

Amor é só a semente que caiu
inesperada no teu chão. Quem sabe
o que achar vai nas sombras do teu peito,
morada de contradições? Não nasce
a flor, meigo milagre, em terra dura
que não sabe guardar o dom do orvalho.
Até pode vingar, mas será flor
fechada para a luz e cuja seiva
não chama o coração da mariposa.

A semente do amor pede o aconchego
do teu ser inteiriço, não apenas
do teu candor, do teu cântico doce,
do teu cântaro farto, teu encanto.
Ela quer ( e o fruto que se sonha
dentro dela) também o que te mancha,
teu sonso desagrado de entregar
e o áspero pó da tua indiferença.

Cuida bem dela, para que apodreça
a água suja empoçada em teu porão,
o diamante de espinhos invisíveis
- e tudo em rico estrume transformado
possa urdir na semente o amanhecer
não só da flor, mas  do teu próprio ser,
capaz de bem saber o bem de amar.

Thiago de Mello
In O Estatuto do Homem
foto de Suzannes_Images no Flickr

28/11/2010

A APRENDIZAGEM AMARGA



Chega um dia em que o dia se termina
antes que a noite caia inteiramente.
Chega um dia em que a mão, já no caminho,
de repente se esquece do seu gesto.
Chega um dia em que a lenha já não chega
para acender o fogo da lareira.
Chega um dia em que o amor, que era infinito,
de repente se acaba, de repente.

Força é saber amar, perto e distante,
como o encanto de rosa livre na haste,
para que o amor ferido não se acabe
na eternidade amarga de um instante.

Thiago de Mello
In Os Estatutos do Homem
foto de a donsutherland1 no Flickr

01/05/2010


foto by Zé Eduardo...

JANELA DO AMOR IMPERFEITO

ALTA esquina no céu, tua janela
surge da sombra e a sombra faz dourada.
Já não me sinto só defronte dela,
me chega doce o fel da madrugada.

Atrás dela te estendes alva e em sonho
me levas desamado sem saber
que mais amor te invento e que te ponho
sobre o corpo um lençol de amanhecer.

Doce é saber que dormes leve e pura,
depois da sura e fatigante lida
que a vida já te deu.Mas é doçura

que sabe a sal no mais azul do peito
onde o amor sofre a pena malferida
de ser tão grande e ser tão imperfeito.

Thiago de Mello
In Faz Escuro mais Eu Canto

25/01/2010


foto by Henri Bonell

CANTIGA PEQUENINA

A noite é linda, Isabella,
quando serve de acalanto
ao dia que vai nascer.
É feia a noite, Isabella,
quando a sombra esgarça a festa
do verão no amanhecer.
Estou no centro da noite:
comigo, na minha mão,
a canção da tua vida
me ensinando a caminhar
na mais clara direção
do homem: saber amar.

Thiago de Mello
In Poesia comprometida com a
minha e a tua vida.

04/09/2008

COM UM RIO



Ser capaz, como um rio
que leva sozinho
a canoa que se cansa,
de servir de caminho
para a esperança.
E de lavar do límpido
a mágoa da mancha,
como o rio que leva e lava.

Crescer para entregar
na distância calada
um poder de canção,
como o rio decifra
o segredo do chão.

Se tempo é de descer,
reter o dom da força
sem deixar de seguir.
E até mesmo sumir
para, subterrâneo,
aprender a voltar
e cumprir, no seu curso,
o ofício de amar.

Como um rio, aceitar
essas súbitas ondas
feitas de águas impuras
que afloram a escondida
verdade nas funduras.

Como um rio, que nasce
de outros, saber seguir
junto com outros sendo
e noutros se prolongando
e construir o encontro
com as águas grandes
do oceano sem fim.

Mudar em movimento,
mas sem deixar de ser
o mesmo ser que muda.
Como um rio.

Thiago de Mello

Foto de tryingtolearn USA

03/09/2008


Foto de Paraty Tur.

ÁGUA DE REMANSO

Cismo o sereno silêncio:
sou: estou humanamente
em paz comigo: ternura.

Paz que dói, de tanta.
Mas orvalho. Em seu bojo
estou e vou, como sou.

Ternura: maneira funda,
cristalina do meu ser.
Água de remanso, mansa
brisa, luz de amanhecer

Nunca é a mágoa mordendo.
Jamais a turva esquivança,
o apego ao cinzento, ao úmido,
a concha que aquece na alma
uma brasa de malogro.

É ter o gosto da vida,
amar o festivo, e o claro,
é achar doçura nos lances
mais triviais de cada dia.

Pode também ser tristeza:
tranqüilo na solidão macia.
Apaziguado comigo,
meu ser me sabe: e me finca
no fulcro vivo da vida.

Sou: estou e canto.

Thiago de Mello