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02/06/2013

SINFONIAS POSSÍVEIS




No esplendor de um dia feliz
se vê, além da própria matéria
do corpo, a matéria invisível 
do amor.

O sorriso que nasce na boca
percorre um trajeto de flores
antes de dar-se, completo, ao voo
dos lábios.

A doce palavra sai dos pulmões
de cada membrana, da afinada
guitarra da carne, dum abismo
que a mão não alcança.

No esplendor de um dia feliz
a gente descobre que tem , dentro
de si, incontáveis sinfonias 
possíveis.

Alcides Buss
In Jardim de Judith 
tela Damião Martins 

15/12/2010

POEMA DE NATAL
























Estavas ao lado
das coisas perfeitas:
a flor
e o cantos do pássaros.

Mas era o tempo dos lobos.
Então romperam-te os tendões,
rasgaram a tua túnica.

Vomitaram sobre a Terra
até que tudo se fizesse lama,
rancor,
devassidão.

Em tenaz algaravia,
florestas e rios ruíram
sob a mídia.

Um silêncio de cinzas
ajuntou-se nas vértebras da vida.

Mas agora é natal
e o sol, qual maçã madura,
parece romper a clausura
das chagas.

A vigília amorosa
de novo floresce na brisa.
O canto dos pássaros
outra vez
recobre a pele verídica.

Por um momento
reatam-se os tendões
da esperança
e a túnica dourada do sonho
envolve a madrugada cósmica.

Qual nuvem, a galáxia
se move
lentamente
para o centro da montanha
onde estás , estou

nós dois, um só:
o filho e o Pai.

Alcides Buss
In Olhar a Vida
tela de Robert Campin Master of Flemalle

13/11/2010

DE LER E ANDAR





Há dias em que há
mais sentido nas ruas
do que nos livros.
Nesses dias se deve
de casa sair
e, dentro de si,
caminhar à escuta
da vida.
Há dias,
porém, em que mais
sentido há nos livros.
É preciso então
trancar-se em leituras
e, numa entrega de sonho
misturar-se ao mundo.

Alcides Buss
In Poesia para gostar de ler poesia.
tela de  Stevacek no Flickr

17/10/2010

IRMÃOS, OU MAIS

















Foto do grande poeta catarinense Lindolf Bell


Para Lindolf Bell

Me chamavas de irmão
e eu te dizia: amigo velho!

Trazias o vale
à flor-da-pele
como se fosse, ele,
o lugar das palavras
e das urgências da vida.

Eu te dizia:
essa linguagem, essa sintaxe
de rios e de pedras
entorta o coração!

Tu me vinhas com a dicção
cortante, um poder
de esculpir no ar
verdades momentâneas.

Às vezes, em lugares diversos,
trocavam nossos nomes.
Nossa! Troçávamos disso
como se fosse um sintoma, não mais,
de arqueologias banais.

Alcides Buss
In Olhar a Vida
foto retirada de  http://wp.clicrbs.com.br/rbstvmais

OS SIGNOS SUTIS

















Sob o céu da noite
caminho junto ao mar.
Permito que seres invisível
se enlacem à minha sombra.

Com eles me enclausuro
no entre-ser das tentações.
Intensifico  o estar
e não estar ao mesmo tempo.

Os ruídos do universo
tangenciam cada passo,
dão relevo ao ar,
repercutem nas membranas
de meu corpo.

Num instante, sou
o âmbar de resíduos siderais,
de murmúrios longínquos
da matéria.

Imaturo, me abandono
ao entrelaço das distâncias,
das montanhas e paixões.

Tão suave, a alma
clareia meus ouvidos.

Alcides Buss
In Olhar a Vida
tela de John Atkinson Grimshaw

MATÉRIA DE AMAR



 
 
A vida se dá
a quem ousa
senti-la.Amar
a si próprio
- começa-se assim.
Depois, doar-se
em ímpeto humano
- assim se prossegue.
De instante a instante,
o corpo congrega
a inúmera vida.
Mortal, todavia
profíquo.Inútil
em si. No todo,
essencial.Necessário.

Alcides Buss
In Olhar a Vida
arte Janet Hill

MIRAGEM























Já vejo, tão perto de tudo,
o riso absorto dos clones.
Mas riem do quê, esses
"coisas"? Riem de mim,
oh tristeza! Riem de ti
e dos tempos passados ,
quando amar era entrar
no gueto absoluto do corpo,
atingir a miragem do eterno
segundo, sentir o tremor
nas brasas divinas, curvar-se
ao insólito abraço do sonho.
Agora me olham assim,
como se eu é que fosse
o estranho no ninho, eu,
o arcaico, o antigo, o nenhum.
Me olham, com esses olhos
crispados de crenças mundanas,
me olham  como se fosse eu
uma cópia de um óbito,
figura de um "site" qualquer.
Me olham, de hipócritas,
como se fossem, já,
os donos do mundo.

Alcides Buss
In Olhar a Vida
tela de Debby Frigge

04/05/2010


foto by "KIUKO"

AMOR PERFEITO

Feita toda de amor,
cintila uma flor
na relva macia.

Tão frágil, tão bela,
tem a força singela
das asas do dia.

Toda feita de acertos,
bate em meu peito
esta flor - esta flor.

Alcides Buss
In Pomar de Palavras

25/04/2010


Gustave Caillebotte » Paris Street Rainy Day

LUXO

Um dia de chuva
guarnece a memória.
Por onde se vai
no exíguo poder
permeia-se o lucro
do vir-a-ser. Alguém
que tudo soubesse
diria: mais vale
deixar-se assim, mesmo
que sem glória,
do que romper
o simulacro da vida.
Às voltas com excessos
passados, concedo-me
ao luxo de sorrir.

Alcides Buss

John Singer Sargent
The Oyster Gatherers of Cancale

O PESO DA AURORA

Tenho comigo preceitos
antigos de amor, amar;
lutar por dias mais dignos.

Tenho comigo algumas
certezas:a vida é fruto
do acaso; nós, floração.

Tenho comigo palavras
incertas - tento fazê-las
pensar aquilo que sinto.

Tenho comigo entraves
sociais: a uns é dado
ganhar; a outros, perder.

Tenho comigo o desuso
da morte - fria e inúmera
morte que a todos convém.

Tenho comigo a imagem
de Deus - não sei se é esta
que engole os meus sonhos.

Tenho comigo a razão
insuspeita e este sol
na contramão da verdade.

Alcides Buss
In Olhar a Vida

26/01/2010


by Edward Henry Potthast

VELHO PODER

Meu amor será clara
brevidade...

Amarei , estranhamente a muitos,
à maneira das crianças.

Pássaro e navio
serei no m-ar, essência
numa forma.

Viverei, água maleável,
ouro consistente:
límpida harmonia.

Saberei ser um só
em tanta coisa.

Alcides Buss
In Contemplação do Amor

25/01/2010


foto by Henri Bonell

ESPERANÇA E DÚVIDA

Outro dia que na vida passa
como ave ora preta ora dourada,
ora cantando ora calada,
de felicidade e de desgraça.

O amor ou é tudo ou é nada
e se cobre sempre de ameaça;
ora vai reinar, depois fracassa,
na sensível alma apaixonada.

...Crença de alegria e de quimera
que leva o homem em longa espera...
Rouba da vida as noites e os dias.

Falso gozo que enche o coração
de curtas e tristes alegrias
e na vida planta a ilusão

Alcides Buss
In Círculo Quadrado

07/10/2009


Foto de Anibal Gonca... no Flickr

DIVISÃO DA TERRA

Reinventarei
a verdade em minha retina
e minha linguagem.

Do muito que falta
serei com vigor
o pouco que sou.

Borboletas virão
na agonia
bater suas asas.Virão
me dizer que há luz neste dia,
que há céu neste prazo
e, sobretudo, que há na terra.

Borboletas virão,
cortadas ao meio,
dizer-me a tristeza...
que há sangue calando
nos pés dos humildes.

E mais borbo
letas virão,cravadas de fim
dizer-me que o chão é de dor, mas
que o fim é começo.

Alcides Buss
In Transação

18/09/2009


Foto de SandraMac200...

O SACO DA POESIA

Não tenhas medo.
Um poema que sai,
um novo livro na praça,
não é mais
que um balde de água
no Amazonas,
um punhado de areia
no Saara.

A ninguém faz mal
o poeta. Apenas se entretém
na teia em que sente
o sol gastar-se.

No imenso céu
a galáxia vai adiante,
indiferente ao rumor
de algum planeta
que, lunático, a segue
em linhas tortas.

Alcides Buss

22/12/2008


Foto de Alariel

MEU JUÍZO NA CIDADE

A cidade é meu juízo:
limites no meu corpo,
freios no meu sonho.

Mais procuro, menos sou,
As paredes do vazio
crescem contra a flor.

Dia a dia, dia a dia,
a verdade se afrouxa
e afrouxa-se o homem.

Enquanto isso, sob a febre
do consumo, tão ingente,
as tevês ocupam a vida.

Meu juízo e minha dor:
a cidade co-habita,
morro em coisas sem valor.

Alcides Buss
In O Homem sem o homem

26/09/2008


by Magritte

À MARGEM

Uma fina membrana,
de tão fina, invisível,
às margens de mim
me separa do mundo.

Na margem de dentro
repousa a setença
da vida, imersa
num pulso profundo.

Na margem de fora
se agita o insondável
destino. às mãos
dos homens atado.

Mergulho no impulso
vidente, à procura
da força que ama,
o silêncio que sonha.

Depois me jogo
às órbitas igneas,
Quixote a buscar
justiça e prazer.

De lance em lance,
porém, há a membrana
a deter-me, elástica,
tecendo a metáfora

alheia a razão.

Alcides Buss
In Cadernos da Noite

Foto de vida de vidro

(DES)VENTURA

Eis, enfim, solitário,
o barco do desejo...

Oh, em que lugar desponta!

Carregado vem
com tudo o que preciso
- e que não tenho.

Traz a terra
do corpo original
e o gérmen da beleza.

Traz a fonte lírica
do ser, a linguagem
das crianças
e o veio do prazer.

Traz a chama da paixão
e a força inesgotável.
Traz as cartas esperadas.

Traz um arco, a liberdade
e flechas de justiça
seminais.

Oh, enfim o barco dos desejos...

E não tem
onde
aportar!

Alcides Buss
In Sinais Sentidos