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16/03/2013

BALZAQUIANA


 
Vous êtes trop belle pour être
une honnête femme
             BALZAC (Les Chouens)
 
Uma ânfora copiou-lhe as curvas da cintura
E a arrogância do seio o côncavo da taça.
Seu olhar de mistério inebria e procura
Absorver para sempre o momento que passa. 
 
Uma graça outonal em seu porte, uma graça
De crepúsculos vem beijando-lhe a figura.
Na finura do riso a ironia perpassa;
Na firmesa do passo a elegância perdura.
 
Entre o sol que se eleva aos alvores do dia
E a noite que vem longe, é a  tarde azul que empresta
À branda luz do poente as cores que irradia.
 
Essa, a quem deu o Tempo a graça derradeira,
É bonita demais para mulher honesta
Sendo mulher demais para mulher solteira!
 
Ivo Barroso
In A Caça Virtual 
tela Theodore Robinson

NOVA PROFISSÃO DE FÉ




 O poeta já não escreve.
Sua escrita
por mais breve
ele digita.
...
Hoje se arrima
na frase elétrica
muito mais prática:
Adeus à rima.
Adeus à métrica.
Adeus gramática.

Como declara
ser bom poeta
na tela clara,
já não procura
a via reta
na selva escura

E de atalaia
se põe à espreita
de uma palavra que lhe caia
na rede branca que ele deita.

Ronda noturna essa
caçada
que nunca cessa.
No fim da madrugada
ainda acessa.

Da tela branca
noite afora
por fim arranca
a sua aurora.

No fim cansado
de tanta busca
com dissabor
toca o teclado
de forma brusca.

Nada se salva
de seu labor
de poeta.
Pois nada salva
na tela alva
que ele deleta.

Ivo Barroso
In A Caça Virtual e Outros Poemas
tela Catrin Welz Stein
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24/02/2013

O CÉU DOS VELHOS




No céu dos velhos o conforto predomina:
algodões de nuvens doces ou salgadas
que se desfazem no céu da boca  já sem dentes
colchões de nimbos que se amoldam à lembrança do corpo
nádegas de cúmulos alimentando a nostalgia do sexo
Os velhos se espreguiçam nas varandas do céu
espiam lá embaixo suas vidas pregressas
a memória é curta e não há rostos conhecidos
ou as faces se transverberam recortadas contra a luz
Mais que em vida o seu tempo desbaratam
na inércia e no abandono dos músculos e da mente
esperam distraídos ou conformados
uma segunda morte que lhes apague para sempre
a sensação de absoluta inutilidade.

Ivo Barroso
In A Caça Virtual
tela Vicent Van Gogh

20/02/2013

ÚLTIMA CARTA


Te ofereço Abril - 

Abril subindo as escadas noturnas
onde o silêncio acumulou as heras do longínquo
Abril fitando um céu fluorescente
debruçado em sacadas e colunas.

Te ofereço a minha paz - 

Este modo tranquilo de ser
como um pôr-do-sol na minha terra.

Te ofereço a gratuidade do crepúsculo,
a tradição dos relógios antigos
a doce alegoria dos cartões-postais.

Te ofereço esta árvore, tão provinciana,
que ainda sabe amadurar seus frutos
entre sombras e pássaros.

Tudo o que a tua infância não provou
e que a tarde como um canto rememora. 

Mas não aceites nada - 
que isso são coisas tristes do passado
e eu prefiro o teu sorriso
em que os dias eternos se renovam.

Ivo Barroso
In A Caça Virtual
tela François Batet

REGRESSO




Eis-me de volta! É longe donde venho…
Venho dessa distância que separa
teu beijo quente e a gargalhada clara
do triste ricto que em meus lábios tenho.

Regresso desse abismo que se chama
Ausência… Venho de regiões sombrias…
De um lustro secular de cinco dias,
que doido é o tempo de quem muito ama !

Regresso de um presídio onde cumpri,
dentre as penalidades – a mais alta:
Sentir na carne a dor da tua falta,
sem deixar nunca de pensar em ti.

Retorno da saudade dolorida,
da contenção do meu desejo imenso;
e voltar, e sentir-te, é o mesmo – penso –
que, estando morto, retornar à vida.

Perdoa, pois, a febre dos desejos;
perdoa se os meus beijos e os abraços
machucarem a carne de teus braços
e a tua boca se sangrar de beijos.
(1952)

Ivo Barroso
http://gavetadoivo.wordpress.com/page/7/

13/02/2013

ROSAS



A Alphonsus de Guimaraens

Rosas  de róseos seios perfumosos,
Cristais de carne transbordando aromas,
A ávido ventos entregais as pomas,
Vosso perfume suspirando em gozos...

E vós, ó brancas rosas, entre as ramas
Ao cilício entregai-vos silenciosas,
E no silêncio recolheis , ó rosas,
As vossas carnes das crestantes chamas...

Ó rosas rubras como as ânsias loucas,
Sois como corpos de ondulosas ancas
E purpurinas como as rubras bocas...

E vós, ó brancas rosas de alabastros,
São como as almas vossas carnes brancas,
Vosso perfume como a luz dos astros!...

Ivo Barroso
In A caça Virtual
tela Bia Moreira  

O SINO



Teu nome é um sino imerso no meu peito.
Um pequenino verso que nasceu já feito.
Plange tão silente na  manhã festiva
de minha alma cheia,
que o não ouve a gente nem desperta a aldeia.
Nasce tão calado da emoção tão viva
que me sela a boca,
que qualquer pessoa não percebe ao lado
como o sino toca, como o verso soa.

Ivo Barroso
In A Caça Virtual e Outros Poemas
tela Jose Royo

OS CAMPOS FLORESCERAM


Os campos floresceram. Já faz tanto
que as guerras e disputas serenaram,
que as sementes plantadas já brotaram
e os brotos das sementes floresceram.
Já faz tanto que os traços se apagaram
dos caminhos de outrora percorridos,
que os sentidos estão adormecidos
e os que parecem vivos já morreram.
Já nada altera a paz destes recantos,
em que tantos guerreiros sucumbiram.
Mas por baixo do trigo, mas por baixo
do verde ora perene das espigas
como o fio escorrente de um riacho
passa um conluio rubro de formigas.

Ivo Barroso
In A Caça Virtual  e Outros Poemas
tela Vicent Van Gogh

14/01/2012

ACALANTO


Hoje dormirás a noite dos rios silenciosos
fluindo no tempo
as mornas águas do verão desfiando
os cabelos noturnos
por entre os velhos paredões da ponte.
A noite descerá dos eucaliptos
prenunciada pelas primeiras folhas
devolvidas ao solo.
Mas não haverá serenatas:
isso implicaria o passado
e a voz que tece aos teus ouvidos
vem mais da certeza do amanhã
que de murmúrios confundidos
em tramas de luar e vozes tristes.
Onde estarei em tua noite,
morta que foi a última estrela?
Onde estarei depois dos longos caminhos,
se me obstino em ter os rosto voltado para a frente?
A rua da província corre com o vento
para os altos descampados;
e este poste que fura um túmulo de luz
na noite sem mistérios
devolve a minha sombra aos teus domínios lentos
quase desfeitos na névoa do sono
que te cobre.

Ivo Barroso

19/01/2011

É PRECISO





É preciso ser duro
como a pedra que parte
como a parte da pedra
que penetra a parede
e a parte
Como a rede que não vaza
como o vaso que não quebra
como a pedra que fende
o paredão da casa
E é preciso ser fraco
é preciso ter siso
e simulacro. É preciso
todos os dias vencer
os deuses pigmeus/golias

É preciso ter cara
e ter coragem

É cada vez mais raro
quem assim reage

É preciso ser duro
como o murro
como o muro
e é preciso ser doce
como se anteparo
de vidro
o muro fosse

É cada vez mais raro
ser duro e doce
cada vez mais torpe
ser apenas duro
cada vez mais nulo
ser apenas doce
cada vez mais duro
ser o muro e a nuvem
como se um só fossem.

Ivo Barroso
In Jornal da Poesia
foto retirada do blog http://ricardojchp.wordpress.com/

18/01/2011

CANTO NUPCIAL




Agora que estás amadurecida para o amor
e em teu sexo a peregrinação das luas se sucede,
escuta, Amada, o meu canto nupcial.

De tua fronde penderão corimbos,
anêmonas e as últimas pervincas dilatadas em maio;
teus seios recenderão a malvas adormecidas
no sereno das madrugadas suspensas;
uma orquídea equatorial, grande como um símbolo,
cingirás ao ventre
e, em teu sexo nu, a flor estonteante
de tua própria pureza conservada.

Quero-te assim — floral, assim meio bárbara,
que o nosso amor contém um pouco da força dionisíaca
da terra,
e teu ventre redondo — abrigo de sóis —
palpita na esperança genital da espécie.

No chão, tomando-te os cabelos, ansiosa de meu amor de esposo,
gritarás aos caules que nos cercam, para as frondes que nos cobrem,
que propício é o tempo de tua flor esmagada
se tornar em fruto.

E rolaremos nos rituais sagrados da progênie:
teus seios — como duas luas gêmeas — crescerão em suas fases;
teu ventre, penetrado de vida, se distenderá na lenteza das horas
e o próprio chão em torno se gretará pelas raízes
que emergem sôfregas de ser!

Ivo Barroso
Tradução de Curt Meyer - Clason
Tela  Geraint (Geraint and Enid)c.1860 Arthur Hughes

A DANÇA DAS HORAS





Dançando as horas se vão
Pelos caminhos do Tempo
Numa leveza de pluma…
Quem vedes na marcação
Do compasso e contratempo ?
- Uma.

Dançando se vão as horas
Sob os véus de fina gaze
Dançarinas semi-nuas…
Quem dança, das mais sonoras,
Esta belíssima frase?
- Duas.

Rapidamente bailando,
Cada qual mais erradia,
Desfila por sua vez.
E aquela, aos poucos finando
Nos horizontes do dia ?
- Três.

Vão dançando a tarantela…
- Mas, da última, o perfil
Me parece horrível e atro.
Ah! não falemos daquela;
Esta aqui é mais gentil.
- Quatro.

Sabeis acaso do nome
Da de vestido de faile
Que lhe queda como um brinco ?
Que pena! Logo se some …
A mais ligeira do baile!
- Cinco.

E aquela, de azul vestida,
Tão triste no seu bailar,
Seu nome acaso sabeis?
Parece o adeus da partida
Para nunca mais voltar…
 - Seis.

E esta, bailando qual fronde
Ao vento que vem do mar
Em que a lua se reflete ?
Trajada como o “gran’ monde”;
Esbelta no seu bailar ?!
- Sete.

Vós me enganais no bailar:
Sei que passais sem demora
(Quisera ser tão afoito
Que vos pudesse parar).
Mas, e esta que dança agora ?
- Oito.

Sob os vestidos de gazes
Trazeis convosco a ruína;
Vosso olhar não me comove,
Falazes horas, falazes…
Mas, e aquela bailarina ?
- Nove.

Dançou o rápido “allegro”;
Nem sequer o rosto olhou-me
E eu mal notei os seus pés.
E esta, vestida de negro,
Sabeis acaso o seu nome ?
- Dez.

Agora passam mais lentas:
Vede aquela que aí vem
Dando passadas de bronze
Pelas horas sonolentas…
Que nome será que tem ?
- Onze.

Aquela outra que se arrasta
Custando tanto a passar,
Que eternamente repouse
Já de tão velha e tão gasta.
Como se deve chamar?
- Doze.

Fechando o ciclo fugace
A de perfil atro vem
E nos leva em seu transporte.
Pois dessa, de horrenda face,
Dizei-me o nome, se tem?!

- MORTE.        (1948)

Ivo Barroso
Tela de Adolphe-William Bouguereau / The Dance