Mostrando postagens com marcador Al Berto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Al Berto. Mostrar todas as postagens

23/09/2013

PERNOITAS EM MIM




Pernoitas em mim
 
pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória...
amas ou finges morrer
 
pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas
 
é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves
 
já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes
 
Al Berto
In Rumor dos fogos
Site Portal da literatura
tela Vicent Van Gogh

18/06/2011

HÁ-DE FLUTUAR UMA CIDADE...
















há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentado à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade

Al Berto
tela de Georges Seurat

AS MÃOS PRESSENTEM...


















As mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
voos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar

ergues de novo as cansadas e sábias mãos
tocas o vazio de muitos dias sem desejo e
o amargor húmido das noites e tanta ignorância
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada

Al Berto
tela de Katharina Reichert

13/06/2011

VÊM SÔFREDO OS PEIXES DA MADRUGADA



















vêm sôfregos os peixes da madrugada
beber o marítimo veneno das grandes travessias
trazem nas escamas a primavera sombria do mar
largam minúsculos cristais de areia junto à boca
e partem quando desperto no tecido húmido dos sonhos

vem deitar-te comigo no feno dos romances
para que a manhã não solte o ciúme
e de novo nos obrigue a fugir
vem estender-te onde os dedos são aves sob o peito
esquece os maus momentos a falta de notícias a preguiça
ergue-te e regressa
para olharmos a geada dos astros deslizar nas vidraça
e os pássaros debicarem o outono no sumo das amoras
iremos pelos campos
à procura do silente lume das cassiopeias

Al Berto
Blog de Ricardo Nobla
tela de Hugh O'Neill

QUANDO AQUI NÃO ESTÁS


 















Quando aqui não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer

a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrerem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas

um rosto desenvolve-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz

quero morrer
com uma overdose de beleza
e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta esse coração
esse
solitário caçador

Al Berto
Blog de Ricardo Nobla
tela de Hugh O'Neill

10/10/2008


Solitudine by Bruno Bruni

OFÍCIO DE AMAR

já não necessito de ti
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras galáxias, e
o remorso


um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas


ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade de meu próprio corpo

Al Berto
In O Medo

by Pierre Auguste Renoir

NOUTROS TEMPOS

noutros tempos
quando acreditávamos na existência da lua
foi-nos possível escrever poemas e
envenenámo-nos boca a boca com vidro moído
pelas salivas - noutros tempos
os dias corriam com a água e limpavam
os líquenes das imundas máscaras

Al Berto
In Horto de Incêndio

25/09/2008


Free by Gavin Penn

LEVANTA-TE E OBEDECE

levanta-te e obedece à criança que foste
vai pelo deserto da idade onde a mentira
corroendo a paisagem se expande dentro
destas pobres imagens desmanteladas

o vôo das infelizes aves desprende-se da terra
onde o corpo guardou o remoto canto das luas
dos limos das areias e das primeiras águas

abre agora as pálpebras no quarto escuro
acorda o branco tigre pelo sangue terno do sono
não tenhas medo do dilúvio
onde o rapaz cresce deixa o cortante dia
entornar-se luminoso como um punhal

Al Berto