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26/12/2014

O MENINO LOUCO




Eu te paguei minha pesada moeda,
Poesia...
Ó teus espelhos deformantes e límpidos
Como a água! Sim, desde menino,
Meus olhos se abriram insones como flores no escuro
Até que, longe no horizonte, eu via
A Lua vindo, esbelta como um lírio...
Às vezes numa túnica de Infanta
Sonâmbula... Às vezes virginalmente nua ...
E era branca como as nozes que os esquilos
                                descascam na mata...
Pura como um punhal de sacrifício...
         (Em meus lábios queimava-se , ignorada, a palavra   
                                             mágica!) 
Mario Quintana
                                         De Apontamento de história  Sobrenatural                                        

25/06/2014

O CAIS




Naquele nevoeiro
Profundo profundo...
Amigo ou amiga,
 
Quem é que me espera?
Quem é que em espera,
Que ainda me ama,
Parado na beira
Do cais do Outro Mundo?
 
Que rosto esquecido...
Ou radiante face
Puro sorriso
De algum novo amor?!
 
Mario Quintana
In O Aprendiz de Feiticeiro
imagem Jonathan Wateridge

14/06/2014

REFLEXOS E REFLEXÕES...



I
 
Quando a idade dos reflexos, rápidos, inconscientes,
 cede lugar à idade das reflexões - terá sido a   
sabedoria que chegou? Não! Foi apenas a velhice.
 
II
 
Velhice é quando um dia as moças começam a nos
tratar com respeito e os rapazes sem respeito nenhum.
 
III
 
Ora, ora! não se preocupe com os anos que já faturou:
a idade é o menor sintoma de velhice.  
 
Mario Quintana
In A Vaca e o Hipogrifo

30/01/2014

LUZ POR DENTRO



Mas há uma beleza interior, de entro para fora, a transluzir de certas avozinhas trêmulas, de certos velhos nodosos e graves como troncos. De que será ela feita, que nem notamos como a erosão dos anos os terá deformado. Deviam ser caricaturas mas não fazem rir, uns aleijões mas não causam pena. O mesmo não nos acontece ante o penoso espetáculo de um animal velho. Eu gostaria de acreditar que essa inexplicável beleza dos velhos talvez fosse uma prova da existência da alma.
 
Mario Quintana
In Na Volta da Esquina
arte Young Old by Julia Swartz

A INDUMENTÁRIA



- Por que os fantasmas sempre aparecem vestidos? Sendo a morte um segundo nascimento, por que não surgem ao natural. Tal como vieram a este mundo? Será que o Outro Mundo tem desses puritanismos? Nada disso! É que os fantasmas ficam com vergonha de que a gente descubra que as almas não têm sexo.
 
Mario Quintana
In Na Volta da Esquina

05/11/2013

MEDITAÇÃO PARA O DIA DE NATAL



Ah! Aquela confiança que tem uma criança
rezando...Inocente confiança. Alegria. Quem é de
nós que reza com alegria? Parece que só existe mesmo
o Deus das crianças... Deus é impróprio para adultos.
 
Mario Quintana
In Na Revolta da Esquina
Imagem  William Adolphe Bouguereau

A GRANDE CATÁSTROFE



 No princípio era o verbo. O verbo Ser. Conjugava-se
apenas no infinitivo. Ser, e nada mais.
Intransitivo absoluto.
Isto foi no princípio. Depois transigiu, e muito.
Em vários modos, tempos e pessoas: eu, tu, ele, nós ,vós,
eles...
Principalmente eles!
E, ante essa dispersão lamentável, essa verdadeira explosão
do SER em seres, até hoje os anjos ingenuamente se
interrogam por que motivo as referidas pessoas chamam a
isso de CRIAÇÃO...
 
Mario Quintana
In Na Volta da Esquina
Imagem Spinello Aretino

30/07/2013

QUINTANARES...




Slogan para o Ministério da Saúde
 
 'O fumante é um retardado que ainda não conseguiu deixar de mamar".
 
Tênis
 
"Ótima ginástica de pescoço para o público das arquibancadas".
 
Esporte
 
"O único esporte que pratico é a luta livre com o meu Anjo da Guarda".
 
?
 
"Que artista teria inventado o nosso ponto de interrogação? Ele já tem a forma de uma orelha que  
  escuta."
 
Os Discípulos
 
"Os discípulos de um escritor  só conseguem acentuar os defeitos do mestre."
 
 
Não olhe para os lados
 
"Seja um poema, uma tela, ou o que for, não procure ser diferente. O segredo está em ser indiferente"
 
Mario Quintana
In Porta Giratória

27/07/2013

LEITURA DINÂMICA




Essa tão badalada novidade da leitura dinâmica é
muito, muito antiga...
Quem inventou foi o vento, o único que a sabe
praticar de verdade. Inveterado leitor de tabuletas, ele
não salta uma só que seja, não perde nenhuma delas.
Lê e passa, que o seu destino é passar, mas guarda uma
lembrança vertiginosa de todas, das vermelhas,
 das de azul mais forte, das verdes em todos os tons,
sem esquecer, ó Van Gogh, as tabuletas amarelas...
Porque a maior dor do vento é não ser colorido.
Sabes? Perpassa no vento a alma dos pintores mortos,
procurando captar, levar (para onde?) as cores
deste mundo.
Que este mundo pode ser que não preste, mas é
tão bom de olhar!
 
Mario Quintana
In Porta Giratória     

28/03/2013

O MENINO LOUCO




Eu te paguei minha pesada moeda,
Poesia...
Ó teus espelhos deformantes e límpidos
Como  a água! Sim, desde menino,
Meus olhos se abriram insones como flores no escuro
Até que, longe, no horizonte, eu via
A Lua vindo, esbelta como um lírio...
Às vezes numa túnica de Infanta
Sonâmbula...Às vezes virginalmente nua...
E era branca como as nozes que os esquilos
                                   descascam na mata...
Pura como um punhal de sacrifício...
(Em meus lábios queimava-se, ignorada, a palavra mágica!)  
 
Mario Quintana
In Apontamentos de História Sobrenatural 
tela  Pietro A. Rotari 

PRIMEIRO POEMA DE ABRIL



(para Evelyn Berg)
 
Vem vindo o abril tão belo em sua barca de ouro!
Um copo de cristal inventa as cores todas do arco-íris.
Eu procuro
As moedinhas de luz perdidas na grama dos teus
                                                         olhos verdes.
E até onde, me diz,
Até onde irá dar essa veiazinha  aqui?
(Abril é bom para estudar Corpografia!)
 
Mario Quintana
In Preparativos de Viagem
tela Ismael Nery

26/03/2013

LILI




Teu riso de vidro
desce as escadas às cambalhotas 
e nem se quebra,
Lili,
meu fantasminha predileto!
Não que tenhas morrido...
Quem entra num poema não morre nunca
(e tu entraste em muitos...)
Muita gente até me pergunta
quem és... De tão querida
és talvez a minha irmã mais velha
nos tempos em que eu nem havia nascido.
És Gabriela , a Liane, a Angelina...sei lá!
És Bruna em pequenina
que eu desejaria acabar de criar.
Talvez sejas apenas a minha infância!
E que importa, enfim, se não existes...
Tu vives tanto,Lili! E obrigado, menina,
pelos nossos encontros, por esse carinho
de filha que eu não tive...
 
Mario Quintana
In Esconderijos do Tempo  
tela Candido Portinari 
 

18/12/2012

ALQUIMIAS




Naquela mistura
fumegante e colorida
que a pá
não para de agitar
vê-se
o infinito olhar de um morimbundo
o primeiro olhar de um primeiro amor
um trem a passar numa gare deserta
uma estrela remota um pince-nez perdido
o sexo do outro sexo
a mágica de um santo carregando sua própria cabeça
e de tudo
finalmente
evola-se o poema daquele dia
- que fala em coisa muito diferente...
 
Mario Quintana
In Esconderijos do Tempo
tela Van Gogh

EVOLUÇÃO



Todas as noites o sono nos atira da beira de um cais
e ficamos repousando no fundo do mar.
O mar onde tudo recomeça...
Onde tudo se refaz...
Até que , um dia, nós criaremos asas.
E andaremos no ar como se anda em terra.
 
Mario Quintana
In Esconderijos do Tempo
tela Winslow Homer

16/11/2012

AS CIDADES PEQUENAS



As moças das cidades pequenas
com o seu sorriso e o estampado claro de seus 
                                                                     [vestidos
são as próprias vida. Elas
é que alvorotam a praça. Por elas
é que os sinos festivamente batem, aos domingos.
Por elas, e não para a missa!... Mas Deus não se 
                                                        [importa...afinal,
só nessas cidadezinhas humildes

é que ainda o cham de Deus Nosso Senhor...

Mario Quintana
In Esconderijos de Tempo
tela Goyo Dominguez

27/07/2012

CHOVE!


Chuva
Chuva
Chuva
Vontade
Chuva
De fazer não sei bem o que seja
Vontade de escrever Sagesse, de Verlaine
E a tarde gris, tão viúva,
Vai derramando perene-
mente as suas lágrimas de chuva
Abundantes
Como lágrimas de fita cômica
Cômica
Cômica

Mario Quintana
In Preparativos de Viagem
tela Olga Sacharoff

21/07/2012

MEU BONDE PASSA PELO MERCADO


O que há de bom mesmo não está à venda,
O que há de bom mesmo não custa nada.
Este momento é a flor da eternidade!
Minha alegria aguda até o grito...
Não essa alegria alvar das novelas baratas,
Pois minha alegria inclui também minha tristeza - a nossa
Tristeza...
Meu companheiro de viagem, sabes?
...
Todos os bondes vão para o Infinito!

Mario Quintana
In Preparativos de Viagem
tela Evgeny Lushpin

NUNCA NINGUÉM SABE


 Nunca ninguém sabe se estou louco para
rir ou para chorar.
Por isso o meu verso tem
Esse quase imperceptível tremor...
A vida é louca, o mundo é triste:
Vale a pena matar-se por isso?
Nem por ninguém!
Só se deve morrer de puro amor...

Mario Quintana
In Preparativos da Viagem
tela Luisa Villavicencio

27/05/2012

DA PAGINAÇÃO


 
Os livros de poemas devem ter margens largas e
muitas páginas em branco e suficientes claros nas pá-
ginas impressas, para que as crianças possam enchê-
los de desenhos - gatos, homens, aviões, casas,chami-
nés, árvores, luas, pontes, automóveis, cachorros, ca-
valos, bois, tranças, estrelas - que passarão também a
fazer parte dos poemas...

Mario Quintana
In Sapato Florido
tela Diane Leonard   

13/02/2012

O POETA CANTA A SI MESMO




O poeta canta a si mesmo
porque nele é que os olhos das amadas
têm esse brilho a um tempo inocente e perverso...

O poeta canta a si mesmo
porque num único verso
pende - lúcida, amarga -
uma gota fugida a esse mar incessante do tempo...
Porque o seu coração é uma porta batendo
a todos os ventos do universo.

Porque além de si mesmo ele não sabe nada
ou que Deus por nascer está tentando agora
                                [ ansiosamente respirar
neste seu pobre ritmo disperso!

O poeta canta a si mesmo
porque de si mesmo é diverso.
Mario Quintana
In Esconderijos do Tempo
tela  John Lowrie Morrison