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26/07/2011

CANTO DA MADRUGADA


Avancei pela noite.Abri os braços e recebi a aurora pequenina.
Chorava ainda. Suas lágrimas desceram sobre meu rosto.
Veio um perfume forte de flores molhadas,
Renovaram-se as vozes dos galos pelas campinas úmidas.
Lenhadores dormem nos casebres frios.
Estão nascendo flores misteriosas
Estão crescendo grandes almas nas sombras da noite.
Porque há um canto que sai da noite e vem acordar a aurora adormecida!

Augusto Frederico Schmidt
In Um século de poesia 
foto por  bamboosage

21/03/2010


foto by http://atoouefeito.com.br/site

SONETO DE LUCIANO


Seu olhar se fechou para este mundo
Para a Branca de Neve e os 7 anões
Para as estrelas, para os pássaros cativos
Para o mar azul e as montanhas e os céus.

Seu olhar se fechou para as florestas
Onde há tigres e leões na noite escura
Para os campos em flor e para as mansas
Ovelhas do Senhor, quietas e humildes.

Seu olhar se fechou e a noite veio
E envolveu o seu corpo pequenino,
Tão mal coberto para tanto frio

E ele se foi, com seu olhar inquieto
Cheio de assombração e de segredos
A procura, talvez, de outros brinquedos.

Augusto Frederico Schmidt
In Mar Desconhecido

04/03/2010


Secrets by Cuccioli

SONETO

Só o coração é alto e doce,
Por entre tantas amarguras,
Por entre ásperas baixezas,
Por entre tantos desprimores.

Só o coração é como um sino,
em velha torre enegrcida,
Úmida,feia,apodrecendo
Prestes a ruir e se perder.

Só o coração canta celebra
Piedade e amor, glória e beleza
Nos ares, lúcidos e frios.

Só o coração procura a vida,
E como um sino plange e canta,
Pelos que vêm pelos que vão!

Augusto Frederico Schmidt
In Poemas para Juventude

15/03/2009


by Vincent Van Gogh

SONETO

Só preciso de poesia.
Não quero mais nada,
Não quero sorrisos,
Nem luxo, nem fama,

Nem bruxas, nem bodas
nem gritos de guerra,
Nem doidos volteios
Nas danças sensuais.

Só aspiro poesia. Poesia
E silêncio. No mundo fechado,
No escuro do tempo.

A luz da poesia é como a semente
Que na terra morre e logo apodrece,
E na vida renasce em flores e frutos.

Augusto Frederico Schmidt
In Um século de Poesia

01/02/2009


Foto de neera

MAR DESCONHECIDO

Sinto viver em mim um mar ignoto,
E ouço, nas horas calmas e serenas,
As águas que murmuram, como em prece,
Estranhas orações intraduzíveis.

Ouço também, do mar desconhecido,
Nos instantes inquietos e terríveis,
Dos ventos o guiar desesperado
E os soluços das ondas agoniadas.

Sinto viver em mim um mar de sombras,
Mas tão rico de vida e de harmonias,
Que dele sei nascer a misteriosa

Música, que se espalha nos meus versos,
Essa música errante como os ventos,
Cujas asas no mar geram tormentas.

Augusto Frederico Schmidt
In Um século de Poesia

Foto de Mr Geoff

CHEGARAM AS ESTRELAS

As estrelas chegaram úmidas
E suas frias pétalas pousaram
No meu rosto seco.
As estrelas chegaram trêmulas.
Parecian flores que o vento esfolhara,
Da noturna árvore.

Murado e exausto,
Que consolo encontro nas estrelas
Que chegaram de repente!
Falaram-me de suas viagens,
Das regiões nuas que atravessaram,
Das fontes que cantam pelos espaços,
Das vozes que se ascendem em caminhos nunca vistos,
Na figura de Aglaia adormecida no céu,
E no sorriso de infância que na sua face flutua.
As estrelas chegaram loucas dos seus infinitos silêncios.
E falavam incessantemente.
Foi o orvalho de suas asas
Que molhou meus olhos!

Augusto Frederico Schmidt
In Um século de poesia

05/01/2009


foto de Giovanni88Ant

O GRANDE MOMENTO

A varanda era batida pelos ventos do mar
As árvores tinham flores que desciam para a morte,com
[a lentidão das lágrimas.
Veleiros seguiam para crepúsculos com as asas cansadas
[e brancas se despedindo.
O tempo fugia com uma doçura jamais de novo experimentada
Mas o grande momento era quando os meus olhos conseguiam
entrar pela noite fresca dos seus olhos...

Augusto Frederico Schmidt
In Um Século de Poesia

22/09/2008


Foto de petit_deray

PRIMAVERA II

Dia para quem ama
Dia límpido e claro!
O azul do céu, o azul da terra, o azul do mar!
Dia para quem é feliz e sem tormento
Dia para quem ama e não sofre de amor!
Dia para as felicidades inocentes.

Em mim, a mocidade acordou violentamente
Porque o sol expulsou as trevas e inundou-me!
Uma pulsação de vida enche meu ser doentio e incerto.

Vejo as águas correndo
Vejo a vida e o espaço
Vejo as matas e as grandes cidades líricas
Vejo os vergéis em flor!
É a primavera! É a primavera!
Desejo de tudo abandonar e sair cantando pelos caminhos!

Augusto Frederico Schmidt
In: UM SÉCULO DE POESIA

Foto de petit_deray

AS CHUVAS DA PRIMAVERA

Em breve virão as chuvas da Primavera,
As chuvas da primavera
Vão descer sobre os campos,
Sobre as árvores pobres,
Sobre os rios degelando.

As chuvas da Primavera
Cairão sobre os jardins perdidos,
Sobre os rosais desnudos,
Sobre os canteiros sem flor.

As chuvas da Primavera anunciarão
Os grandes dias próximos,
E a cantiga das águas escorrendo
Dos beirais
Nos dirá do tempo próximo,
Das primeiras flores,
Dos primeiros ninhos,
Das primeiras palpitações
Dos brotos,
Das esperanças,
Da vida que se insinua em tudo,
Nos ramos,nas penugens,
Nos céus limpos.

Em breve virão as chuvas da Primavera.
Os rios já estão degelando
O frio já não é tão mau.
Adormece, pois, meu amor,
E esquece este inverno,
Deixa que o sono te leve,
Como as águas levam flores
E folhas soltas.

Augusto Frederico Schmidt

Foto de Nobregas Arte

PRIMAVERA I

VEREI A PRIMAVERA se encaminhar com o seu chapéu de
palha e o seu róseo vestido
Pelas ruas amigas, perto da casa em que mora.
Verei o teu rosto se tingir com a poeira dos ocasos
E tuas mãos morenas se balançarem tênues sob a água das cascatas
Longe das ingratidões, das lutas, dos equívocos de todo dia.
Os cisnes se confiarão como nos tempos calmos.
As violetas distantes sorrirão com as terras úmidas e grávidas.
Os pássaros, os ninhos vão cantar!
Verei chegar o teu vestido e te confundirei com a Primavera.
Seguirei com a Primavera pelas ruas.
Os circos vão pousar como pássaros enormes.
Primavera! Primavera!
O amor vai renascer nos campos
E as amadas dormirão cobertas pelos azuis sem fim.

Augusto F. Schmidt

13/09/2008


Manuela Metra

Eu queria chorar pelos que não choram.
Eu queria chorar pelos olhos secos,
Pelos olhos que são fontes
Onde as mágoas se purificam e se libertam.

Eu queria chorar pelos corações feridos
E que sangram obscura e silenciosamente.
Eu queria chorar pelas almas mártires
Que estão invisivelmente entre nós.

Eu queria chorar pelos indiferentes
E pelos que escondem num sorriso
As decepções de uma imcompreendida bondade.

Eu queria chorar pelas almas fechadas,
Pelas almas que são como os desertos
E que não conhecem a libertação das lágrimas!

Augusto Frederico Schmidt


Pelas largas janelas entra a noite quieta e um cheiro de frutos maduros,
Pelas janelas abertas chega até nós um perfume frio de estrelas.
Pelas janelas abertas penetra a mansa poesia dos caminhos, das
viagens noturnas com pássaros dormindo nas ramadas...

Oh!o sossego do lampião na mesa tosca,
E o sorriso do amor sobre os postais da parede!

Onde a música não chega, aí estaremos.
Onde o repouso se estender nascendo pelas madrugadas aí estaremos.
Estaremos confundidos pelos ramos virginais e pela nudez das campinas.

Estaremos misturados com os passarinhos das cercas.
Os ruídos dos trens cortarão nossos ouvidos.
Mas as nostalgias não estarão mais em nós,
Porque seremos simples como a noite,
Como a grande noite resinosa e infinita.

Augusto Frederico Schmidt

12/09/2008


Foto de Luigi

A ALMA

Às vezes eu sinto – minha alma
Bem viva.
Outras vezes porém ando erradio,
Perdido na bruma, atraído por todas as distâncias.

Às vezes entro na posse absoluta de mim mesmo
E a minha essência é alguma coisa de palpável
E de real.
Outras vezes porém ouço vozes chamando por mim,
Vozes vindas de longe, vozes distantes que o vento traz nas tardes mansas.

Sou o que fui ...
Sou o que serei ...

Às vezes me abandono inteiramente a saudades estranhas
E viajo por terras incríveis, incríveis.
Outras vezes porém qualquer coisa à-toa –
O uivo de um cão na noite morta,
O apito de um trem cortando o silêncio,
Uma paisagem matinal,
Uma canção qualquer surpreendida na rua –
Qualquer coisa acorda em mim coisas perdidas no tempo
E há no meu ser uma unidade tão perfeita
Que perco a noção da hora presente, e então

Sou o que fui.
E sou o que serei.

Augusto Frederico Schmidt
in Poesias Completas

11/09/2008


Foto de Dee r

NA VOLTA

Os pássaros cantarão nas árvores tão lindas
Quando eu passar
A estrada será boa e macia
Quando eu passar
A brisa virá delicada das matas
E trará o perfume de todas as flores silvestres
Quando eu passar
A tarde cairá meiga e consoladora
Pelos caminhos
Quando eu passar
Depois derramará sua luz triste e branca
Quando eu passar
E dos ermos virão as vozes da natureza
Contar histórias doces e estranhas
Quando eu passar
Mas eu não ouvirei o cantar dos pássaros
Nem verei a maciez dos caminhos
Nem a poesia da tarde
Nem o mistério da noite
Nem as vozes das coisas da natureza
Passarei indiferente a tudo
Indiferente à beleza de todas as coisas que me cercam
Porque virá comigo tua imagem
Meu amor.

Augusto Frederico Schmidt

29/08/2008


by Manet

Sonho que vens comigo a este passeio.
Vamos os dois andando, lentamente.
De mãos dadas sorrindo pela estrada.
Dentro em pouco, de trás dos altos montes,
A noite chegará.

Vens de branco. Tuas mãos longas e leves -
Tuas mãos de lírio - muito frias são.
Não te posso dizer nem uma só palavra.
Mas que felicidade e que doçura imensa
Há no meu coração!

Tanto tempo esperei este amado momento
De me encontrar sozinho assim, ao pé de ti -
À margem do caminho as árvores amigas
Juncam de flores e folhas os lugares
Em que pisam teus pés.

Vamos andando os dois, respirando o perfume
Que vem da natureza neste instante.
Neste instante, parece, é que nascemos -
Pois estamos os dois serenos, esquecidos
De toda a dor e de todo o mal.

A noite já desceu. Veio cheia de estrelas.
Há um silêncio bom que envolve a solidão.
Os nossos corações falam-se mudamente:
Que lindas coisas dizem nesta hora
Os nossos corações!

Hei de ser sempre teu - hás de ser sempre minha.
Nunca um momento só deixarei de te amar...
Viveremos os dois tão unidos e fortes,
Tão serenos e bons, que nem a morte
Os nossos corações separará.

Sonho que vieste a este passeio...

Augusto Frederico Schmidt